Hellboy

25/03/2005 | Categoria: Críticas

Mistura de humor negro, rebeldia romântica e maquiagem gera filme pop e bacana

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

A homenagem mais sincera aos antigos filmes baratos de terror lançada em 2004 não veio de nenhuma obra de orçamento vagabundo, mas de um longa-metragem que custou a soma nada desprezível de US$ 66 milhões. “Hellboy” (EUA, 2004) faz parte da avalanche de películas baseadas nas histórias em quadrinhos, que vem assolando Hollywood desde o primeiro “X-Men”, mas celebra o filme B por uma via tortuosa. Talvez isso aconteça porque o criador do gibi original, Mike Mignola, seja um fã desse tipo de filme.

Isso depõe a favor de “Hellboy”. O cineasta mexicano Guillermo Del Toro conseguiu produzir um filme extremamente fiel ao espírito da revista em que foi baseado. O universo do demônio que trabalha como detetive para uma agência governamental norte-americana tem a mistura exata de humor negro, rebeldia romântica e ingenuidade dos antigos filmes B. É o maior trunfo de Del Toro, que entrega um filme bem na linha dos trabalhos de pioneiros como James Whale (“A Noiva de Frankenstein”).

Quem conhece o gibi “Hellboy” sabe que o visual bizarro dos personagens, sejam heróis ou vilões, é o grande destaque da obra. Guillermo Del Toro também sabe disse, e não mediu esforços para criar um filme visualmente forte, estilizado. Para isso, evitou exagerar nos efeitos de computação gráfica (eles existem, mas são meio raros) e utilizou truques à moda antiga, com muita maquiagem, próteses de borracha e maquetes. Essa característica reforça o chame B da película.

O enredo, por outro lado, é o ponto fraco de “Hellboy”. A história segue a linha clássica dos filmes sobre quadrinhos, dividindo o filme em três partes distintas. A primeira apresenta em paralelo a origem do protagonista e o surgimento do vilão; a segunda desenvolve os personagens e os elos entre todos; a terceira capricha nas seqüências de ação. “Hellboy” poderia, dessa forma, ser descrito como um sanduíche de recheio estragado, pois seu calcanhar de Aquiles está justamente no segundo ato.

A abertura é bacana. Narrada pelo professor Broom (John Hurt), a seqüência mostra como um pelotão de soldados dos EUA flagrou uma experiência sobrenatural dos nazistas, em 1944. Nela, o mago russo Grigori Rasputin (Karel Roden) abre um portal para uma dimensão infernal e traz um demônio bebê para a Terra. Só que, capturado pelas forças aliadas, Hellboy vai viver nos EUA. Ele cresce e se torna detetive de uma agência secreta que combate forças sobrenaturais. A influência de “Homens de Preto” é completa: monstros com visual alienígena e piadas envolvendo celebridades (o jornalista Larry King faz participação especial) marcam presença.

Os aliados de Hellboy aparecem com destaque, e é nesse ponto que as diferenças do filme para a revista são maiores. A pirocinética Liz Sherman (Selma Blair), que produz fogo involuntariamente, vira foco do interesse romântico do herói, e Broom uma espécie de pai adotivo; nada disso ocorre no gibi. O agente humano John Myers (Rupert Evans), espécie de olhar de gente normal sobre a bizarrice dos paranormais, também não existe nos quadrinhos.

Já Abe Sapien (Doug Jones, com voz de David Hyde Pierce) é fiel às HQs; parece um cruzamento de homem com peixe e possui o poder de prever o futuro. Seu visual homenageia o interessantíssimo “O Monstro da Lagoa Negra” (1954). Mais filme B, impossível. Todos esses caras vivem sob certa tristeza por se sentirem renegados pela sociedade. Esse lado inspirado nos X-Men também não é muito forte nos quadrinhos.

Os vilões não receberam o mesmo tratamento cuidadoso. Na verdade, existe aqui uma forte tentativa de transformá-los em artefatos pop. É possível imaginar, sem grande esforço, como todos ficariam bem na estante de qualquer adolescente, como bonecos live action da gangue. O assassino imortal Kroenen (Ladislav Beran) promete; é um nazista que fez pacto com Satã e tem areia do rio Nilo correndo nas veias, ao invés de sangue. Ele usa uma máscara sadomasoquista, se veste de couro negro e luta caratê, mas nem abre a boca. E Rasputin, o chefão careca, barbudo e com uma echarpe roxa, também tem uma imagem de amedrontar, mas não usa muito bem a cuca.

Juntos, os dois e uma ajudante conjuram um demônio, Sammael, que serve como isca para atrair Hellboy. Sammael parece um pouco como um alien com tentáculos, mas simplesmente não existe como pesonagem, pois não passa de um animal irracional, poderoso mas burro como uma porta. O que eles desejam? Como todo bom vilão de filme B, dominar o mundo, usando para isso o poder do diabão fã de panquecas. Nada original, mas tudo bem.

No geral, Guillermo Del Toro criou um filme para fãs de todas as idades. A fotografia escura é mais estilizada do que sombria. Os efeitos digitais não são perfeitos, mas entram nos momentos corretos e com moderação. Dessa forma, só podem ser percebidos em alguns quadros das lutas entre Hellboy e Sammael (quando os personagens são digitais, passam a se mover de forma bem diferente). Não há cenas sangrentas; a rigor, “Hellboy” não é um filme de terror, mas uma aventura juvenil. Se for visto dessa forma, não vai decepcionar ninguém.

O filme tem duas versões em DVD brasileiro. O DVD de locação de “Hellboy” contém apenas o filme, mas com imagem (widescreen) e som (Dolby Digital 5.1) de primeira qualidade. Já a “Edição do Diretor” é dupla e contém o filme com 11 minutos a mais, além de pequenos featurettes que podem ser acessados durante o filme e mostram cenas de bastidores. No disco 2, o extra principal é um comentário em vídeo com os atores Ron Pearlman, Selma Blair, Rupert Evans e Jeffery Tambor. Eles assistem ao filme (mostrado em uma janelinha) e comentam o que vêem. Uma entrevista de Pearlman e do diretor Guillermo Del Toro (23 minutos), galerias de fotos e alguns badulaque completam o pacote.

A nota triste vai para a Columbia, que lançou a “Edição do Diretor” eliminando um dos discos do pacote triplo existente nos EUA. Assim, a platéia brasileira perde um documentário de 150 minutos. A decisão é incompreensível. Se a Columbia tinha mesmo que cortar um disco, a idéia lógica seria eliminar o terceiro disco da caixa e manter o segundo. Tremendo tropeço.

– Hellboy (Hellboy, EUA, 2004)
Direção: Guillermo Del Toro
Elenco: Ron Perlman, Doug Jones, John Hurt, Selma Blair
Duração: 121 minutos

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