Herbie: Meu Fusca Turbinado

08/11/2005 | Categoria: Críticas

Aventura para crianças é eficiente e faz até esquecer a ridícula censura interna promovida pela Disney

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★½☆☆

Uma característica importantíssima do cinema do século XXI é que, quando vai ver um filme, o espectador mais bem informado já sabe o que esperar dele. Por obrigação profissional, os críticos de cinema são os espectadores mais bem informados de todos. Por isso, quase sempre têm uma boa idéia do que vão ver e, de antemão, já formam mentalmente uma opinião sobre o longa-metragem. O caso de “Herbie: Meu Fusca Turbinado” (Herbie: Fully Loaded, EUA, 2005) é sintomático. Como é possível gostar de um filme cuja heroína teve os seios digitalmente reduzidos, em todas as cenas, apenas porque alguns executivos teimaram que a imagem de um busto farto seria inapropriada para crianças?

Tudo bem. Se você nunca ouviu falar do problema, está perdoado (desde que não seja crítico ou cinéfilo). A história é a seguinte: depois que a diretora Angela Robinson entregou a montagem final de “Herbie” para a Disney, a empresa decidiu tratar digitalmente a película para diminuir os seios da atriz adolescente Lindsay Lohan. A Disney achou que seios grandes de uma mulher não ficam bem em filmes para crianças. Talvez os empresários de uma das maiores empresas de entretenimento do planeta tenham esquecido que as crianças mamam quando são bebês. Não importa. Lohan reclamou, os críticos de todos o planeta viram os próprios queixos caírem com tamanho disparate, mas o filme foi censurado.

Portanto, quando a turba de jornalistas se dirigiu aos cinemas para checar o novo filme sobre o Fusca que tem emoções como uma pessoa, já sabia de antemão que iria ver algo desagradável. Ou melhor, já imaginava isso. E, de fato, as resenhas sobre “Herbie” não foram muito elogiosas, de modo geral. A censura interna pegou muito mal mesmo. Infelizmente, pois “Herbie” não é, a despeito de clichês que você já se habituou a ver nesse tipo de filme, ruim. O projeto de Angela Robinson rendeu uma aventura infantil agitada, bem feita, ágil na medida certa para testar – e aprovar – o carisma de Lindsay Lohan, uma atriz promissora que já havia aparecido com destaque na boa comédia teen “Meninas Malvadas”.

Surpreendentemente, “Herbie” não esqueceu as três aventuras anteriores do Fusca de número 53. A criativa abertura mostra uma montagem de manchetes de jornais que narram a fase áurea do carrinho (vista exatamente nos longas dos anos 1960/70), um autêntico vencedor nas pistas de corridas da Nascar, a mais famosa categoria do automobilismo norte-americano. Os jornais informam que, após uma carreira repleta de troféus, o Fusca foi sendo esquecido e terminou em um ferro-velho. Ele é adquirido pela recém-formada Maggie Peyton (Lohan), garota de cidade pequena que acaba de entrar na universidade em Nova York, para onde vai se mudar assim que as férias terminarem.

Maggie não sabe quem foi Herbie. Nenhum personagem do filme lembra de legendário Fusca, o que é um verdadeiro rombo do roteiro de Thomas Lennon: como é possível que um veículo tão inusitado seja literalemtne esquecido, até mesmo pelos veteranos jornalistas que cobrem a Nascar? Seria o equivalente a apagar da memória dos fãs a existência de pilotos de F1 inesquecíveis e excêntricos, como Gilles Villeneuve. À parte essas bobagens de roteiros, que os adolescentes e crianças não vão notar mesmo, a primeira aparição de Herbie, tentando evitar a destruição no ferro-velho, é bem legal. O carrinho pisca os faróis, solta jatos de óleo e apronta diversas travessuras. Acaba vencendo uma corrida de rua contra o super-campeão da Nascar, Trip Murphy (Matt Dillon) e propiciando a Maggie a chance de ser piloto de provas, um sonho que a menina achara estar sepultado.

Um dos elementos mais interessantes de “Herbie” é a direção de arte, toda produzida no estilo colorido e arredondado dos anos 1970/80. O período também é mencionado na boa trilha sonora (Van Halen, B52s e Lionel Ritchie na bizarra cena em que Herbie se insinua para uma Fusca amarela novinha). São, junto com os bons efeitos especiais que simulam os movimentos do carro, a maior fonte de atração para os adultos. No geral, o filme segue uma linha bem infantil, apelando para um humor estilo pastelão. A fonte de idéias do roteiro parece ter sido o primeiro “Rocky” (atleta decadente ganha de bandeja chance de competir contra campeão e não desperdiça a oportunidade). Em resumo, temos um filme correto que desperta uma reação bem positiva das crianças (pude ver a longa numa sessão cheia de pirralhos que bateram palmas diversas vezes).

Não deixa de ser digno de nota, entretanto, que existe algo de muito sinistro em ver um carro se comportanto como ser humano. Tanto é verdade que um par de personagens do filme se refere ao Fusca como uma máquina possuída por espíritos, o que traz à memória o bizarro “Christine – O Carro Assassino”. Não importa. Quando “Herbie” termina, após um par de horas divertidas, um cinéfilo com alma de menino vai perceber que esqueceu, por algum tempo, da ridícula proibição da Disney aos seios de Lindsay Lohan. E isso é um bom sinal (em tempo: duvido que a censura tenha impedido os adolescentes de “homenagear” a atriz no banheiro, depois da sessão). Pobres homens, esses magnatas da Disney. Até parece que eles, como alguns críticos por aí, nunca foram crianças.

A Buerna Vista lançou o DVD em boa edição, com imagem original (wide 1.85:1) e som OK (Dolby Digital 5.1). Há comentário em áudio da diretora, galeria com sete cenas cortadas (também com comentário opcional em áudio) e três featurettes de bastidores, que juntos somam 33 minutos. Tudo com legendas em português.

– Herbie: Meu Fusca Turbinado (Herbie: Fully Loaded, EUA, 2005)
Direção: Angela Robinson
Elenco: Lindsay Lohan, Michael Keaton, Matt Dillon, Breckin Meyer
Duração: 101 minutos

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