Herói

05/07/2005 | Categoria: Críticas

Épico chinês segue os passos de ‘O Tigre e o Dragão’ e investe em lutas épicas e visual estilizado

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

“Herói” (Hero, Hong Kong/China, 2002) é tão eficiente como cinema quanto como produto de marketing. O filme, mais cara produção cinematográfica feita na China, ao custo de US$ 30 milhões, procura seguir os passos do sucesso “O Tigre e o Dragão”, de Ang Lee, e unir três ingredientes cujo resultado final é um produto globalizado-mas-nem-tanto: (a) filosofia de qualidade duvidosa com base em lenda chinesa; (b) visual deslumbrante e hipercolorido; e (c) seqüências empolgantes, e visualmente insuperáveis, de artes marciais. Zhang Yimou faz, com este filme, sua tentativa de seguir os passos do colega Ang Lee e desbravar o mercado internacional. Deu certo.

Há no filme um problema que não existia em “O Tigre e o Dragão”: falta de ritmo. “Herói” tem cenas de luta fantásticas, coreografias impressionantes, edição impecável e um apuro visual rigoroso, mas perde na comparação com seu filme-gêmeo, no que se refere à porção “diálogos”. “Herói” é mais épico, mais silencioso e deixa mais espaço para que o espectador sofra junto com os personagens, mas não explica de forma lógica algumas de suas atitudes.

Assim como o épico oriental de Ang Lee, “Herói” se baseia em reviravoltas inteligentes e triângulos amorosos inesperados, mas a narrativa segue de forma diferente. Zhang Yimou é, nesse sentido, mais oriental do que Ang Lee, porque privilegia sensações, com doses cavalares de poesia visual, ao invés de palavras. Por isso, seu filme tem narrativa é mais esquelética, o que deixa as cenas sem ação meio lentas. O choque das duas coisas – a lentidão dos diálogos e a hipervelocidade das seqüências de luta – cria um híbrido desequilibrado. Existe uma sensação permanente, que acompanha o espectador, de que algo está faltando para deixar o filme completo.

O enredo se passa há cerca de mil anos, quando a China era uma enorme região divida em sete reinos. O pano de fundo explica que o rei da província de Qin (Daoming Chen), mais ao norte, está no meio de uma ofensiva militar para dominar todos os outros sob um único império. Por causa disso, Qin é odiado e faz inimigos mortais em vários territórios inimigos. Quando “Herói” começa, ele está recebendo no palácio um guerreiro sem nome (Jet Li) que anuncia ter dado cabo dos três mais perigosos assassinos que tentavam matar Qin. O imperador, então, pede ao estranho que explique como conseguiu exterminar três adversários tão poderosos.

O filme segue em flashback. Ele é dividido claramente em cinco partes distintas, e a elegante (como sempre) fotografia de Christopher Doyle (colaborador de Wong Kar-Wai e grande mestre no uso das cores) privilegia cinco tonalidades de cores diferentes para cada trecho. A abertura (azul) e os confrontos do guerreiro sem nome com os assassinos são mostrados em tonalidades diferentes (branco, verde, vermelho), bem como o epílogo (preto). A estética visual é deslumbrante. Tudo é lindo, inclusive as lutas. Há duas que merecem menção como algumas das mais belas que o cinema oriental já foi capaz de filmar, uma sob chuva e outra em uma floresta, em um dia de outono.

Esse brilhante uso de cores, porém, possui uma função narrativa muito complexa para ser compreendida de forma instantânea pelo espectador. Elas fazem sentido se você está consciente das associações emocionais atribuídas pelo diretor à paleta de cores: vermelho (paixão), azul (amor), verde (juventude), branco (verdade) e preto (morte). Mas se você não está por dentro desse quadro, vai achar tudo lindo e meio oco, vazio.

Algumas pessoas podem argumentar que Zhang Yimou aperfeiçoou o que Steven Soderbergh fez em “Traffic”. Talvez, mas Soderbergh não escolheu suas cores aleatoriamente. O recurso tem dupla função do filme norte-americano. Primeiro, ajuda o espectador a ter uma maneira visual de saber qual das três histórias narradas simultaneamente ele está acompanhando. Segundo, cada cor reflete o ambiente de uma narrativa (o calorento deserto mexicano é amarelo, uma cor quente; o distante mundo familiar de Washington é azul, uma cor fria; e as paletas esfuziantes de San Diego, uma cidade praiana, são intermediárias). Em “Herói”, esses conceitos são mais abstratos e, por isso, difíceis de capturar. E nenhum filme deve necessitar de uma crítica para ser compreendido. Um longa-metragem, qualquer um, deve se bastar.

Afinal, toda essa extravagância visual funciona, você pode perguntar? Sim, funciona – mas só até certo ponto. Em determinado momento, a mistura de filosofia com artes marciais cansa um pouco e dá a certeza de que Zhang Yimou não fez nada além de seguir, de maneira excessivamente laudatória, os passos de Ang Lee, apresentando para o Ocidente o jeito chinês (devidamente suavizado e globalizado) de fazer cinema. “Herói”, de qualquer forma, se beneficiou dos dois anos necessários para encontrar uma distribuição internacional. A distância entre este lançamento e o de “O Tigre e o Dragão” deu ao longa um sabor de novidade.

O DVD brasileiro tem quatro faixas de áudio em formato Dolby Digital 5.1, formato original de imagem (widescreen 2.35:1) e três extras: um pequeno documentário de bastidores, uma conversa do astro Jet Li com Quentin Tarantino (aliás, um extra bobo que pouco acrescenta ao pacote, já que Tarantino nada tem a ver com o filme) e um pacote de storyboards de quatro cenas importantes.

– Herói (Hero, Hong Kong/China, 2002)
Direção: Zhang Yimou
Elenco: Jet Li, Tony Leung, Maggie Cheung, Zhang Ziyi
Duração: 99 minutos

| Mais


Assine os feeds dos comentários deste texto


Um comentário
Comente! »