Highlander – O Guerreiro Imortal

04/02/2005 | Categoria: Críticas

Estética kitsh dos anos 1980 marca aventura insossa e repetitiva em DVD comum

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★½☆☆

Os anos 1980 são intrigantes. É provável que nenhuma outra época do século XX tenha uma assinatura visual tão evidente, berrante e constrangedora quanto os benditos anos 1980. Se você tiver alguma dúvida, aí vão alguns ícones culturais do período para refrescar a memória: na música, Michael Jackson, Duran Duran, Cindy Lauper, Bon Jovi. Na moda, cabelos arrepiados, maquiagem exagerada, basqueteira para fora da calça. Nos videoclipes, “Thriller”. No cinema, “Blade Runner” e a estética no néon. E, claro, “Highlander – O Guerreiro Imortal” (EUA, 1986). A aventura que transformou o francês Christopher Lambert em astro de Hollywood fez sucesso e é, até hoje, lembrada com saudade por fãs de aventuras cheias de testosterona.

O lançamento do filme em DVD até que não foi cercado de poma e circunstância. O disco da Universal é simples, com imagem original widescreen e som potente Dolby Digital 5.1, mas só isso. Nada de documentários ou comentários em áudio. Talvez porque “Highlander” seja, no fundo, apenas uma boa idéia que ganhou uma versão razoável para a telona e, depois, uma infinidade de seqüências que praticamente repetiram o primeiro filme, com variações mínimas e novos vilões.

Saudosistas dos anos 1980m (sim, eles existem) costumam dizer que “Highlander”, o primeiro, é um grande filme de aventura. Não é. O filme sequer procura dar um tratamento criativo, original, aos velhos arquétipos das histórias mitológicas, que fornecem a fundação de 99% dos filmes de aventuras em Hollywood. Há um herói, Connor MacLeod (Lambert, um ator muito fraco), guerreiro imortal nascido na Escócia que acaba expulso da tribo, em 1537, após uma batalha em que sofre um ferimento mortal e, milagrosamente, se recupera.

O herói encontra um mentor, também Highlander – ou seja, imortal como ele – na pessoa de Juan Ramirez (Sean Connery), um espanhol com 2,4 mil anos de idade que lhe ensina a lutar espadas com perícia. E ele vai precisar: a lenda dos Highlander diz que todos os integrantes da raça precisam lutar entre si até que apenas um permaneça vivo. Para matar um imortal, é preciso outro ser da mesma raça. E isso só ocorre quando a vítima tem a cabeça decepada.

Herói e mentor ganham a companhia, é claro, de um vilão: Kurgan (Clancy Brown) é russo, malvado, e o mais poderoso e forte dos Highlander. O herói tem, ainda, interesses românticos, nas duas linhas narrativas que o filme acompanha: no século XVI, é a bela Heather (Beatie Edney); no século XX, a perita em antiguidades Brenda Wyatt (Roxanne Hart). A história é simples e muito previsível. O diretor Russell Mulcahy dá conta do recado, fazendo com eficiência uma alternância entre os dois momentos históricos dos Highlander.

O problema, na verdade, está na falta de criatividade do roteiro. Os personagens são rasos. Não existe nenhum tipo de explicação racional para os Highlander. E existe um furo gigantesco, um verdadeiro rombo, que jamais é explicado: por que cargas d’água Connor MacLeod nasceu, cresceu até uma certa idade (cerca de 30 anos) e, depois, parou de envelhecer? Qual a razão de Ramirez, por sua vez, ter aparência mais velha, se ambos são igualmente imortais e possuem a extraordinária capacidade de não envelhecer? O filme não explica. Problemas idênticos existem à vontade, e quem se dispuser a analisar o roteiro com mais atenção não vai ter problemas para encontrá-los.

Para completar, há o toque kistch e inconfundível dos anos 1980 no roteiro. Repare nos penteados abomináveis, e no figurino inacreditavelmente brega do vilão, em Nova York. Há quem acredite que as canções do Queen, que dividem a trilha sonora com discretas e pouco inspiradas intervenções sinfônicas de Michael Kamen, são um ponto forte. Mas nem isso: o Queen estava em fase de declínio, e as músicas são pesadas demais, com aquela bateria eletrônica horrenda (outro símbolo dos anos 1980!), sem dar espaço para os devaneios melancólicos de Freddie Mercury que salvavam a música da banda. Em resumo, aqui está um exemplo típico de filme supervalorizado que não tem o que dizer em pleno século XXI.

– Highlander – O Guerreiro Imortal (EUA, 1986)
Direção: Russell Mulcahy
Elenco: Christopher Lambert, Roxanne Hart, Clancy Brown, Sean Connery
Duração: 116 minutos

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