Hiroshima Meu Amor

05/09/2006 | Categoria: Críticas

Filme revolucionário de Alain Resnais tenta casamento arrojado entre cinema e literatura

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★½

É difícil reproduzir, em pleno século XXI, o terremoto que “Hiroshima Meu Amor” (Hiroshima Mon Amour, 1959, França/Japão) causou no meio cinematográfico. Primeiro longa-metragem assinado pelo diretor Alain Resnais, o filme foi saudado internacionalmente como uma inovação estilística sem paralelos, e o primeiro casamento bem-sucedido entre as linguagens da literatura e do cinema. Por conta desta última característica, tem perfil bem diferente do habitual; não conta uma história linear, realizando experimentos arrojados que são algo entre teatro e literatura. Se os filmes de até então faziam prosa, este aqui fazia poesia.

Embora tenha ganhado detratores famosos (Pauline Kael, maior crítica de língua inglesa da época, detestou a obra), “Hiroshima Meu Amor” deixou uma marca profunda no cinema e permanece, até hoje, como uma tentativa corajosa levar para as telas o discurso mais poético, mais abstrato da literatura clássica. No contexto histórico em que se encaixa, o filme deixou muitos frutos importantes. Influenciou decisivamente, por exemplo, na criação do estilo fragmentado de montagem – o jump cut, que despreza a continuidade temporal – pelos demais cineastas da nouvelle vague francesa, cujo marco inicial é exatamente este trabalho de Resnais.

O projeto é descendente direto do famoso curta-metragem do diretor, “Noite e Neblina”, sobre os campos de concentração nazistas da Segunda Guerra Mundial. Foi por causa deste filme curto, de 30 minutos, que Resnais foi convidado para dirigir algo que tivesse como tema a bomba atômica que devastara Hiroshima. O financiamento seria feito por organismos dos dois países, e a única exigência é que houvesse, na história, algum elemento de ligação entre a França e o Japão. Resnais então chamou a escritora Marguerite Duras, a quem admirava ardorosamente, e propôs a ousadia: bolar um romance entre uma mulher francesa e um homem japonês, tendo como pano de fundo a bomba de Hiroshima.

Os primeiros 10 minutos lembram bastante o estilo documental de “Noite e Neblinas”: imagens da devastação e das conseqüências nefastas da bomba (prédios destruídos, cadáveres, bebês deformados), acompanhadas de música e de uma narração objetiva informando estatísticas oficiais da destruição. Depois, o filme dá uma guinada de 180 graus e passa a narrar a história de amor impossível entre uma atriz francesa (Emanuelle Riva) e um arquiteto japonês (Eiji Okada). Dois personagens sem nome, casados com outros (a quem nunca vemos). Os dois se encontram por acaso em Hiroshima, onde ela filma um longa “sobre a paz”, e se apaixonam.

Ambicioso, Resnais elabora uma narrativa lenta e atmosférica para tentar realizar uma narrativa duplamente híbrida. Ele deseja contar uma história que tenha, ao mesmo tempo, um caráter íntimo e individual (a paixão entre amantes), mas também coletivo e universal (a memória da bomba). Para isso, se alterna entre dois tempos cronológicos, o presente (em Hiroshima) e o passado (na pequena aldeia francesa de Nevers). Isto ocorre porque a paixão incandescente dispara nela uma série de lembranças do amor proibido com um soldado alemão, durante a grande guerra. As lembranças, ou a impossibilidade delas, são o tema principal.

A abordagem de Resnais faz com que o filme seja constituído por longos monólogos da mulher, relembrando o passado e ligando-o ao presente através de flashbacks desconcertantes que, implicitamente, demonstram como a história – dos indivíduos e, por conseguinte, do mundo – está constantemente se reescrevendo. Essas reminiscências descortinam aos poucos o ensinamento que resume a narrativa: o tempo é implacável, e mesmo as situações-limite da condição humana – a explosão da bomba atômica, em nível coletivo, ou a paixão avassaladora que sacudiu a então adolescente francesa pelo inimigo, em nível pessoal – são apagadas da memória com o passar do tempo. Até o esquecimento é esquecido. É inevitável.

No longa-metragem, como em diversos outros de Resnais, é a mulher quem conduz a narrativa. O homem atua como uma espécie de psicanalista, falando muito pouco, mas provocando as lembranças e misturando-se ao turbilhão de dor que envolve a mulher. O resultado é lindo, pura poesia, cinema maiúsculo, mas não é para todos – para quem deseja uma história convencional, pode parecer longo e enfadonho. Por isso, saiba onde está se metendo antes de encarar um filme tão diferente.

O DVD lançado no Brasil pela Aurora é espetacular. Além de encarte colorido de 24 páginas contendo uma longa crítica do especialista José Haroldo Pereira, mais entrevista com a roteirista Marguerite Duras, há dois extras saborosos: um depoimento do crítico Luiz Carlos Merten (6 minutos) e um documentário feito na França (31 minutos), além de trailer. Literalmente, um tesouro para colecionadores.

– Hiroshima Meu Amor (Hiroshima Mon Amour, 1959, França/Japão)
Direção: Alain Resnais
Elenco: Emanuelle Riva, Eiji Okada
Duração: 87 minutos

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