Hollywoodland – Bastidores da Fama

03/08/2007 | Categoria: Críticas

Baseado em obscuro e misterioso episódio verídico, filme é um neo-noir sem estilização visual

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Pouco depois de o gênero noir dar os últimos suspiros, ainda na década de 1950, cineastas admiradores tardios, talvez inspirados pelos elogios escritos pelos críticos franceses, começaram a assinar obras que faziam referências ao estilo. Durante décadas a fio, homenagear o noir significava criar enredos que abundavam de elementos caros ao gênero (mulheres fatais, detetives particulares), mas sobretudo emulavam o visual soturno: bares esfumaçados, fotografia à base de contrastes claro/escuro, pessoas moralmente ambíguas, muitas passagens noturnas. Em plano século XXI, o noir continua sendo reverenciado, mas agora de maneira diferente.

“Hollywoodland – Bastidores da Fama” (EUA, 2006) é um dos títulos de uma safra que remete ao thriller policial dos anos 1940 sem buscar uma aproximação por meio da estilização visual. O longa-metragem de Allen Coulter revive um obscuro episódio real da história de Hollywood – o misterioso suicídio do ator George Reeves, profissional medíocre e pouco conhecido que ganhou notoriedade por ter sido o primeiro sujeito a vestir a capa do Super-Homem, em um seriado de TV – através dos olhos de um personagem fictício que é puro noir: um detetive particular divorciado, cheio de dívidas, que namora (e toma chifre de) uma aspirante a atriz, e está tomado de remorsos por não conseguir ser bom pai.

Este camarada é Louis Simo (Adrien Brody), profissional de segundo escalão que segue mulheres de meia-idade a mando de maridos desconfiados. Logo após o suicídio do ator, Simo é contratado pela mãe de Reeves (Lois Smith) para investigar melhor o caso, apressadamente encerrado pela polícia. A velhinha não acredita que o filho tenha dado um tiro na cabeça sem motivo aparente. Não demora muito para que o próprio Simo comece a esbarrar em evidências sólidas de assassinato. Entre os suspeitos, a jovem e pouco confiável namorada da vítima (Robin Tunney), uma ex-amante apaixonada (Diane Lane) e um respeitável executivo da MGM (Bob Hoskins).

Desde o início, a ação de “Hollywoodland” avança de maneira vacilante devido à opção de Coulter em mesclar o presente a generosos flashbacks do passado, mostrando toda a vida pregressa de Reeves (Ben Affleck, premiado como melhor ator no Festival de Veneza). Além disso, a narrativa ameaça se fragmentar em histórias diversas, pois além de investigar o suicídio suspeito, o detetive também anda (a contragosto) atrás da esposa de um homem ciumento. Também está às voltas com muitos problemas pessoais: não tem grana, vive às turras com a ex-mulher (Molly Parker) e enfrenta a maior dificuldade para conseguir dialogar com o filho pequeno. Ainda bem que o roteiro de Paul Bernbaum consegue dar conta de todas estas situações, fazendo Reeves desenvolver um interesse especial em Reeves por ver, nele, a mesma faceta auto-destrutiva de si próprio.

Na verdade, “Hollywoodland” explora um filão nascido na obra do excelente escritor policial James Ellroy. O autor norte-americano se especializou em criar ficção de bom nível a partir de episódios reais ocorridos na Los Angeles dos anos 1940-50, misturando personagens fictícios com celebridades verdadeiras da época. Foi o sucesso do thriller intrincado “Los Angeles – Cidade Proibida” (1997), inspirado em livro de Ellroy, que impulsionou cineastas fãs do noir a revivê-lo sob esta fórmula diferente – ou seja, recriando meticulosamente o ambiente, a atmosfera moralmente sórdida da alta sociedade daquela época, sem necessariamente copiar os cacoetes estilísticos.

“Hollywoodland” é a terceira produção da mesma safra que recorre à estratégia narrativa. Os filmes anteriores foram “Dália Negra”, de Brian De Palma, e “Verdade Nua”, de Atom Egoyan. Ambos foram lançados no Brasil com poucos meses de diferença para o thriller de Allen Coulter. Os dois são trabalhos superiores. “Dália Negra” tem a finesse do texto original de Ellroy, além do habitual trabalho espetacular de mise-em-scéne elaborado por De Palma, enquanto “verdade Nua” possui uma ressonância moral importante, na atualidade, por comentar o comportamento deprimente e arrogante de certas celebridades.

Obviamente, isto não quer dizer que “Hollywoodland” seja um filme realmente ruim, porque não é – há boas atuações do elenco, quase todo formado por atores do segundo escalão, e um retrato visceral da luta surda por poder na indústria do cinema. No entanto, o fato de ser o terceiro lançamento de um mesmo filão, com tão pouco tempo de diferença entre eles, acaba por expor além da conta as suas fraquezas, como o medo de pegar pesado nos detalhes sórdidos dos intestinos de Hollywood, e certa artificialidade no modo como se estabelece as ligações entre os personagens.

O DVD, da Buena Vista, tem boa qualidade de imagem (widescreen anamórfica) e áudio (Dolby Digital 5.1), mas não possui extras.

– Hollywoodland – Bastidores da Fama (EUA, 2006)
Direção: Allen Coulter
Elenco: Ben Affleck, Adrian Brody, Diane Lane, Bob Hoskins
Duração: 125 minutos

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