Homem-Aranha 2

08/01/2005 | Categoria: Críticas

Sam Raimi valoriza o roteiro e consegue criar filme eletrizante e engraçado

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★½

“Homem-Aranha 2” (Spider Man 2, EUA, 2004) confirma algo que o público já desconfiava, depois do primeiro filme da franquia, dos dois “X-Men” e de “Hulk”: a Marvel definitivamente encontrou a fórmula para produzir boas aventuras no cinema baseadas nas histórias em quadrinhos. O segredo do sucesso não tem nada de mágica; baseia-se em simplicidade na narrativa e bons roteiros. O cineasta Sam Raimi sabe disso. Em “Homem-Aranha 2”, ele age com sabedoria e evita colocar o foco em cima dos efeitos especiais. Raimi valoriza os personagens. Sabe que eles são a alma de filmes bacanas. Assim, ataca os pontos fracos do filme anterior, reforça o que há de melhor na franquia e entrega um longa-metragem, no mínimo, eficiente.

Para começar, Raimi conhece a fundo o super-herói que tem em mãos. Um dos fatores responsáveis pelo sucesso do Aranha sempre foi a juventude. Peter Parker (Tobey Maguire, ainda melhor do que no filme anterior) é jovem, com tudo o que isso tem de bom e de ruim; esbanja energia, vive um dilema existencial básico do ser humano (Shakespeare o resumiu com uma das frases mais clássicas da literatura: “ser ou não ser, eis a questão”) de maneira bem juvenil, e tem uma índole meio rebelde. É desajeitado, mas não tenta fazer graça. E ama. Do jeito bobo e adorável que todo adolescente entende muito bem.

O diretor aproveitou a conexão entre personagem e platéia para construir uma primeira metade de filme primorosa. Há muito humor nos 60 minutos iniciais de “Homem-Aranha 2”. A primeira aparição do herói, por exemplo, tem um objetivo tão prosaico quanto engraçado: entregar uma pizza. Noutra cena, talvez a melhor do filme, o Aranha pega um elevador com um yuppie engravatado e passa por momentos constrangedores. São esquetes cômicos de ótima qualidade, com timing perfeito. O roteiro, que teve as mãos de pelo menos quatro bons escritores, entre eles o romancista premiado Michael Chabon e o veterano Alvin Sargeant, é dinâmico e constrói sem pressa o conflito interno do Aranha, sem jamais esquecer que ele é um jovem. Parker quer amar Mary Jane (Kirsten Dunst) ardentemente. Mas tem medo de que a sua identidade secreta a deixe em perigo.

Eventualmente, e isso não é segredo nenhum para quem viu os trailers, isso acontece, pelas mãos de um novo vilão: Doutor Octopus (Alfred Molina, ótimo). Ele é o alter ego enlouquecido do cientista nuclear Otto Octavius, que desenvolveu uma máquina capaz de criar um sol artificial, e bolou tentáculos de metal com vida própria para manipular as incríveis energias vindas desse artefato. Na primeira experiência, contudo, algo sai errado e a mulher do cientista morre, deixando-o ensandecido e com os braços mecânicos grudados permanentemente à espinha. O perturbado Harry Osborn (James Franco), que culpa o Aranha pela morte do pai (no filme anterior), se aproveita disso e põe os dois, herói e vilão, em rota de colisão.

Sam Raimi imprime ao enredo o mesmo ritmo veloz do primeiro filme da série. As aparições do herói, na primeira metade do longa, são poucas e rápidas. Do ponto de vista técnico, Raimi corrige pequenas imperfeições, fazendo com que as ações de Aranha ocorram quase sempre à noite; o diretor também abusa de planos fechados e evita utilizar a câmera parada, fazendo-a voar junto com o herói. Juntas, as duas decisões escondem os problemas da computação gráfica, e permitem que o uso de personagens digitais resulte mais convincente. Raimi ainda mantém um toque levemente cartunesco nos movimentos do Homem-Aranha, o que dá ao longa-metragem um certo ar de desenho animado.

Até mesmo a escolha do vilão é acertada, pois ele tem conflitos semelhantes aos do herói (ele também ama!), o que cria um paralelo interessante. Os confrontos entre Octopus e o Aranha são eletrizantes e muito bem realizados visualmente. Vale registro a estupenda cena em que os dois se enfrentam em cima de um metrô desgovernado. É uma seqüência de prender o fôlego, e que reserva a primeira grande surpresa do enredo (acredite, existem várias, à medida que o filme se aproxima do final). A personalidade do cientista louco também é desenvolvida da maneira correta – complexo, mas não tanto assim, para não confundir a platéia. Octavius é um homem atordoado pela perda da mulher que era a verdadeira âncora de sua vida. Isso fica claro em uma pequena, mas importante cena de diálogo entre Peter Parker e o cientista.

Na verdade, Sam Raimi só não acerta o alvo em cheio porque cede a uma tentação que se esgueirava desde o primeiro trabalho. De certa forma, “Homem-Aranha 2” parece ser dois filmes em um. Enquanto a metade inicial elabora uma aventura em tons farsescos, a parte final prefere abandonar a comédia e mesclar as obrigatórias cenas de ação com romance clássico. Aí, “Homem-Aranha 2” deixa de ser a máquina bem lubrificada de antes e enferruja um pouquinho, tornando-se meio solene, até sério demais. A criatividade dos roteiristas parece inclusive que ficou mais rarefeita, porque até mesmo algumas locações do primeiro filme (um prédio que pega fogo em uma cena de transição, o porto de Nova York no duelo final) são repetidas sem cerimônia.

Tudo bem, isso não é nada que atrapalhe tanto assim. Aposto que muita gente na platéia vai adorar saber que a identidade secreta do herói é revelada para um monte de gente. Agora, se algum personagem importante está entre essas pessoas, aí você não vai descobrir lendo esse texto. É melhor assistir ao filme e conferir sozinho. “Homem-Aranha 2” tem deslizes, mas os acertos compensam as falhas com folga e o filme vale plenamento o preço da locação.

Inclusive pelos extras. Ao contrário do fraco material que acompanhou o primeiro filme, o DVD de “Homem-Aranha 2” vem lotado de extras. Para começar, o disco 1 traz o filme com corte widescreen original (elmbre-se de que a Columbia mutilou o primeiro longa no Brasil), som Dolby Digital 5.1 Surround, dois comentários em áudio (Sam Raimi, Tobey Maguire e produtores no primeiro, equipe técnica no segundo), e mais quatro pequenos documentários apresentados primeiro na web, no site oficial do filme.

O disco 2 excede as espectativas. Além dos 12 web-documentários restantes, um super making of de 120 minutos cobre todos os aspectos das filmagens. Há ainda um segmento de 12 minutos dedicados a esmiuçar algumas seqüências em formato multi-ângulo, trailers (inclusive do game baseado no filme) e até clipes musicais. Pacote completo.

– Homem-Aranha 2 (Spider-Man 2, EUA, 2004)
Direção: Sam Raimi
Elenco: Tobey Maguire, Alfred Molina, Kirsten Dunst, James Franco
Duração: 128 minutos

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