Homem-Aranha 3

26/09/2007 | Categoria: Críticas

Excesso de vilões e subtramas paralelas atrapalha o ritmo da terceira aventura do aracnídeo

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Antes mesmo do lançamento de “Homem-Aranha 2”, o terceiro título da franquia milionária já tinha data confirmada para estrear. Naquela época – primeiro semestre de 2004 – a principal especulação girava em torno de quem seria o vilão de “Homem-Aranha 3” (Spider-Man 3, EUA, 2007). Sam Raimi, cineasta já confirmado na cadeira de diretor, dizia querer usar o Homem-Areia, obscuro bandido de gibis antigos, mas não confirmava nada. Ou quase nada, pois afirmava ter uma certeza: Venom, simbionte alienígena poderoso e com muita popularidade entre os jovens, não tinha chance de emplacar um lugar no filme. Para Raimi, a violência irracional do personagem não lhe permitiria explorar os conflitos psicológicos que conferiam humanidade e drama aos antagonistas das duas primeiras aventuras cinematográficas do aracnídeo.

Três anos depois, eis que Venom integra o trio de vilões que ameaça mandar o Aranha para a aposentadoria no terceiro longa. É natural que os fãs se perguntem o que mudou durante este intervalo, na cabeça de Sam Raimi. Na verdade, não mudou nada. A presença do Venom é apenas o mais óbvio dos muitos indícios de que a franquia do Homem-Aranha, galinha dos ovos de ouro para Marvel e Columbia (estúdios que detêm os direitos do personagem), deixou em definitivo de ser área em que a criatividade vem à frente dos lucros, tornando-se um terreno onde produtores mandam e o diretor obedece – algo que é sempre péssimo sinal. A conclusão lógica que advém daí é que os criadores deste filme estavam mais preocupados em cuidar da cadeia milionária de marketing que envolve o herói do que em elaborar para ele um produto cinematográfico de qualidade.

“Homem-Aranha 3” é bem mais do que um filme – é um veículo programado para vender milhões de dólares em produtos associados (bonecos, cadernos escolares, lancheiras, álbuns de figurinhas). Este olho gordo do estúdio responsável pela série provoca um sério revés de qualidade no aspecto puramente cinematográfico da franquia, neste terceiro exemplar. O maior problema, apontado por dezenas de críticos em todo o mundo, é o excesso de personagens e subtramas. Com tanta gente disputando espaço na história, Sam Raimi acabou fazendo gigante desengonçado, um filme extremamente longo que, paradoxalmente, jamais consegue alcançar boa qualidade dramática. Ao todo, temos 14 ou 15 personagens importantes, todos interpretados por bons atores, mas alguns deles utilizados em apenas uma ou duas cenas (inclusive rostos conhecidos como Theresa Russell, que faz a esposa do Homem-Areia, e James Cromwell, o capitão da polícia e pai de Gwen Stacy, nova paquera do herói).

O fio condutor da história deveria ser a crise do Aranha, provocada pela superexposição na mídia depois que virou uma celebridade. Deveria, mas não é. Até que a crise pessoal se manifeste, o filme gasta uns 90 minutos apresentando novos personagens e estabelecendo elos e conflitos entre eles. Raimi até tenta explorar nuances psicológicas, ao mostrar o nascimento dos três super-vilões, mas não tem tempo para ir fundo no drama de cada um. Todos lidam com frustrações e problemas que os impelem ao crime, mas esses conflitos são mostrados de forma simplista. O Duende Verde (James Franco) se divide entre a amizade com Peter Parker (Tobey Maguire) e a dor por considerá-lo culpado pela morte do pai. Flint Marko (Thomas Haden Church) é um bandido pé-de-chinelo que, atormentado por não poder criar a filha pequena, vira vítima de um acidente bizarro que lhe dá a habilidade de transmutar o corpo em areia. O Venom… esse merece um parágrafo à parte.

Para solucionar o problema da falta de humanidade que via no vilão extraterrestre, Raimi o utiliza de dois modos diferentes. No primeiro, a meleca que se move como uma aranha doida potencializa a crise pessoal de Parker, como uma metáfora inteligente para o aflorar do lado negro e agressivo do herói. Depois, arruma para o alien um hospedeiro invejoso, o fotógrafo Eddie Brock (Topher Grace), que disputa com Parker um emprego no jornal. Pois é, nem nas horas de folga o aracnídeo tem moleza. Além da ameaça de ficar sem trabalho, tem que lidar com a própria vaidade e também com a frustração da namorada Mary Jane (Kirsten Dunst), que não consegue um emprego decente. Para complicar as coisas, aparece uma gatinha rival, Gwen Stacy (Bryce Dallas Howard). Preocupado em dotar cada personagem de sentimentos, motivações, desejos e ansiedades, Raimi gasta bastante tempo acompanhando-os. É aí que comete o erro fatal. Tanto cuidado com as pessoas o deixa sem condições de trabalhar nas ligações entre elas, unindo todas as tramas paralelas em uma só história coerente e fluida. Isto jamais ocorre.

Os problemas são visíveis. No melhor filme da franquia, “Homem-Aranha 2”, o envolvimento emocional da platéia com o problema de Peter Parker era total. As cenas de ação, como a brilhante luta no metrô, tiravam o fôlego não apenas por causa dos ótimos efeitos em CGI, mas também por explorar o potencial dramático do adolescente por trás da máscara. Aqui, a qualidade dos efeitos especiais avançou a um patamar ainda mais impressionante (observe com atenção o nascimento do Homem-Areia, mais emocionante pedaço do filme), mas nenhum momento, mesmo os mais alucinantes (o resgate de Gwen quando uma grua ameaça destruir um prédio em Manhattan), é capaz de causar reações eletrizantes nos espectadores. Sem tempo para trabalhar as transições entre as cenas, Raimi deixa o ritmo do filme irregular, cheio de sobressaltos, com lacunas perceptíveis. Desta forma, o clímax chega sem qualquer preparação. De repente, estamos no meio de uma batalha que, logo percebemos, será o grande momento de definição do filme. Não há como conter um suspiro de decepção.

Obviamente, “Homem-Aranha 3” não é de todo ruim. Existem ótimos momentos cômicos isolados, como a frustrada tentativa de Parker ao pedir Mary Jane em casamento (excelente participação do ator Bruce Campbell, chapa de Raimi desde o começo de carreira). Os efeitos em CGI, com abundante uso de dublês digitais, freqüentemente cola a câmera nos vôos alucinantes do herói, provocando uma sensação de montanha-russa que é muito bem vinda. Por outro lado, aquele que deveria ser o mais importante momento do filme – o ponto culminante da influência de Venom no Aranha – acaba se transformando numa piada longa demais, quando Peter Parker se transforma numa espécie de Freddie Astaire gótico (“Oxe, o cara virou emo!?!?!”, exclamou o rapaz sentado ao meu lado no cinema, quando viu a franjinha de um Parker que rebola como a Gretchen). Raimi perde o timing cômico, faz a piada durar mais do que deveria e impele a platéia a olhar para o relógio, se perguntando quando o filme vai voltar.

Mais do que excesso de personagens e tramas, talvez a franquia do Homem-Aranha esteja sofrendo mesmo é de excesso de marketing. O número de vilões é o melhor exemplo disto. A rigor, não há qualquer justificativa cinematográfica aceitável para a utilização de três vilões num só filme. O motivo é puramente financeiro: quanto mais personagens, mais a Marvel vai faturar com a venda de bonecos e memorabilia para fãs. Como a empresa gastou a fortuna de US$ 300 milhões na produção, o que a transformou no longa-metragem mais caro da história, um retorno financeiro generoso era absolutamente necessário. É possível que o mesmo raciocínio também explique a entrada de Venom em cena, uma vez que o vilão predileto de Raimi, o Homem-Areia, sempre foi obscuro nos gibis, enquanto o Venom faz grande sucesso entre os jovens leitores de quadrinhos. É uma pena ver uma franquia antes tão criativa dominada por interesses financeiros, mas o jogo do cinema é assim mesmo.

O DVD duplo, da Sony, é ótimo para fãs. O disco 1 tem o filme com alta qualidade de imagens (widescreen anamórficas) e áudio (Dolby Digital 5.1), com dois comentários unindo diretor e equipe. O disco 2 tem um documentário em onze partes, diário de filmagens e erros de gravação.

– Homem-Aranha 3 (Spider-Man 3, EUA, 2007)
Direção: Sam Raimi
Elenco: Tobey Maguire, Kirsten Dunst, Thomas Haden Church, Topher Grace
Duração: 140 minutos

| Mais


Assine os feeds dos comentários deste texto


Um comentário
Comente! »