Homem-Aranha, O

25/01/2008 | Categoria: Críticas

Primeira aventura de Peter Parker empolga jovens e adultos, com cenas de ação bem feitas e ritmo contagiante

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

“O Homem-Aranha”, o filme, é muito mais do que um fenômeno de bilheterias. Para os fãs do super-herói dos quadrinhos, a simples emoção de vê-lo transformado em ser de carne, osso e efeitos digitais já gerou mais do que simples satisfação de impulsos mercadológicos. Mas “O Homem-Aranha” é mais do que isso: é um filme bem resolvido e interessante para espectadores de todas as idades. Com personagens bem construídos, diálogos inteligentes e cenas de ação de tirar o fôlego, o filme de Sam Raimi é um clássico instantâneo do cinema de aventura. Ele já pode ser considerado, junto a “Super-Homem” (1978) e a “Batman – O Retorno” (1992), um sério concorrente ao cetro de melhor longa inspirado em quadrinhos já feito em Hollywood.

A inspiração óbvia da fita dirigida por Raimi é, sem dúvida, o primeiro longa do Homem-de-Aço, sempre usado como parâmetro para filmes que envolvem gibis. Como em “Super-Homem”, a primeira aventura do Aranha focaliza o nascimento do herói, com todas as inadequações sociais e demonstrações desajeitadas dos super-poderes que isso implica. Como no longa inspirador, o Homem-Aranha propriamente dito demora mais de uma hora para surgir na tela. Assim, o filme não sofre do mal que a maioria esmagadora dos filmes de aventura padece: as cenas de ação são econômicas. É uma aula de direção. Ao retardar a entrada em cena do herói uniformizado, Sam Raimi valoriza esses momentos. E eles são gloriosos. Ver o Homem-Aranha se balançando entre os prédios de Nova Iorque como um acrobata turbinado é uma delícia. É para prazeres assim que o cinema existe!

As semelhanças com “Super-Homem”, aliás, vão bem além da simples coincidência. Existem aspectos realmente idênticos, além de inúmeras referências escondidas ao filme do filho de Krypton. Alguns exemplos: a escalação de um ator vencedor de Oscar para o papel de parente mais próximo do herói (Marlon Brando em 1978 e Cliff Robertson, vencedor do prêmio em 1969, por Charlie, em Homem-Aranha); os dois heróis ganham os nomes de repórteres (Lois Lane em 1978, J. Jameson em 2002); ambos são órfãos de pai e mãe; ambos são convidados pelos arqui-vilões para se juntarem a eles em carreiras criminosas. As homenagens são inúmeras.

A maior diferença entre os dois títulos, porém, é ao mesmo tempo o grande trunfo de “O Homem-Aranha”: Peter Parker é um adolescente, o mesmo público que vai lotar os cinemas para vê-lo. Os primeiros 60 minutos são hiper-bacanas, um dos melhores momentos de filmes para adolescentes dos últimos anos. Neles, ficamos conhecendo Parker, um aluno aplicado e nerd assumido, saco de pancadas dos valentões e desprezados pelas gostosinhas de plantão. A vida dele muda quando uma aranha geneticamente modificada o pica, durante uma aula. Depois de uma noite de febre e pesadelos, ele acorda bem diferente. Ganhou músculos, sua miopia desapareceu. Logo, Parker descobre que as mudanças vão bem além disso.

O aparecimento desconcertante das teias, a descoberta da força física e da capacidade de escalar paredes, os primeiros vôos desajeitados, tudo isso faz o filme ganhar rapidamente a simpatia do espectador. Paralelamente, ficamos conhecendo o cientista Norman Osborne, que vai virar o vilão Duende Verde durante o teste mal-sucedido de um gás tóxico; o filho dele, o mal-amado Henry Osborne (James Franco); e a vizinha de Parker, Mary Jane Watson, paixão da vida do nosso herói, uma garota meio ambiciosa, meio avoada, que cansa de levar grito do padrasto.

Pausa para falar dos atores: Tobey Maguire no papel de Peter Parker é o maior de todos os acertos. Ele tem cara de adolescente frágil e um corpo perfeito para o tipo de proeza física que o Aranha consegue fazer – parece parece um acrobata, com musculatura definida mas não exagerada. Além disso, possui algum talento dramático. Kirsten Dunst, a Mary Jane, também está bem, parecendo meio insegura, com uma beleza latente mas um tanto indefinida. Willem Dafoe, no papel de Norman Osborne, faz o que se espera de um ótimo e injustiçado veterano.

Já Sam Raimi confirma o que já se sabia desde “Darkman – Vingança Sem Rosto”, o longa B de super-herói que criou há muitos anos: foi talhado para fazer esses filmes. Raimi faz uma opção arriscada ao investir na construção dos personagens, retirar de cena todos os outros vilões do roteiro original e apostar apenas no Duende Verde. Pondo de lado a ação desenfreada, Raimi valoriza a montagem, acerta no ritmo de aceleração crescente e fecha a aventura com uma lição de moral bacana, mas sem cair na pieguice.

É preciso ressaltar, também, o trabalho do veterano técnico de efeitos especiais, John Dykstra. Ele ficou com a responsabilidade de criar as cenas em que o Aranha passeia entre os altos edifícios da Big Apple e fez um trabalho maravilhoso, usando uma técnica relativamente simples, divida em duas etapas. Na primeira, Dykstra filmou ginastas se balançando e saltando em argolas e captou esses movimentos com sensores eletrônicos, colocados em vários pontos dos corpos dos atletas. Essas informações foram jogadas no computador e serviram para construir um homem virtual que se movia como o Aranha.

Para criar o ambiente aéreo de Nova Iorque, onde o Aranha iria passear, foi usada outra técnica, a fotogrametria. Para isso, os técnicos passaram semanas fotografando Nova Iorque do alto. Depois, juntou-se no computador uma grande quantidade dessas fotografias, unindo todas elas num grande cenário virtual em três dimensões, uma espécie de cidade dentro do computador. Por fim, foi só vestir o ser digital com o uniforme do Aranha e botá-lo para se balançar entre os prédios virtuais.

Uma outra opção correta foi estilizar os movimentos do herói, sem investir demais no hiper-realismo. Assim, quando salta das paredes, se dependura nas teias e bate nos bandidos, o Homem-Aranha faz movimentos realmente inspirados nos insetos, dobrando exageradamente os joelhos e usando os impulsos impossíveis das pernas para descrever grandes arcos aéreos. Esse efeito deixa as cenas com um ar levemente irreal, cartunesco, quase como se estivéssemos assistindo a um desenho animado. Como todos esses acertos, Sam Raimi fez um filme empolgante, para adolescentes de todas as idades.

Já o DVD pode não ser tão empolgante assim, se você fizer questão de ter o corte original do filme em mãos. O formato da tela é fullscreen, o que corta as imagens lateralmente (uma opção da Columbia, devido à preferência da maioria dos consumidores por esse formato). Em compensação, o disco é duplo e vem com comentários em áudio de Sam Raimi, testes de cena e alguns documentários. Nada excepcional, mas material de boa qualidade.

– O Homem-Aranha (Spider-Man, EUA, 2002)
Direção: Sam Raimi
Elenco: Tobey Maguire, Willem Dafoe, Kirsten Dunst, James Franco
Duração: 121 minutos

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