Homem Bicentenário, O

25/03/2005 | Categoria: Críticas

Chris Columbus simplifica temas complexos de livro de Isaac Asimov em filme apenas eficiente

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★½☆☆

Chris Columbus está longe de ser um cineasta talentoso. Ele é apenas um diretor que preenche todos os requisitos de operário-padrão de Hollywood, com um detalhe que lhe fez galgar uma carreira importante – ele é homem-chave na franquia “Harry Potter”, tendo dirigido os dois primeiros longas – no mercado cinematográfico: uma queda acentuada para simplificar temas ricos e complexos. Foi isso o que ele fez em “O Homem Bicenterário” (Bicentennial Man, EUA, 1999), transformando uma instigante história de ficção científica de ressonância filosófica em um drama eficiente, mas aquém das possibilidades que o tema prometia.

A história, que se baseia em um livro do renomado escritor Isaac Asimov (também autor de “Eu, Robô”), é simples de seguir. O personagem principal não é humano, mas robô: trata-se de Andrew, um ser mecânico que é adquirido, em 2005, por uma família nos EUA, para servir como utensílio doméstico – uma espécie de versão futurista de uma empregada que tem capacidade para durar, no mínimo, quatro gerações. Só que Andrew demonstra, desde o início, uma curiosidade insaciável para tentar compreender a lógica do ser humano (o raciocínio, os sentimentos).

Vivendo com uma família que o trata como se fosse um humano, Andrew logo desenvolve algo muito semelhante ao livre arbítrio, embora continue totalmente fiel às três leis da robótica de Asimov, algo que o filme se encarrega de fornecer exemplos a todo momento, como o instante em que o robô salta de uma janela mesmo sabendo que está fazendo algo errado, simplesmente porque é solicitado para isso por um humano.

Na primeira metade do filme, Andrew é o ator Robin Williams com uma pesada armadura de alumínio. O robô vive no porão, onde aprende a construir relógios complexos. Até aqui, o filme justifica plenamente sua premissa: as situações são inteligentes e abordam de maneira simples e, ao mesmo tempo, complexas, o tema que Asimov quis abordar, que é a tentativa de compreender onde começa, de fato, a singularidade humana de um ser inteligente. Em outras palavras, aquilo nos faz humanos.

Essa primeira parte da película é ótima. A própria profissão de Andrew, que eventualmente lhe transforma em um robô rico, é uma ironia finíssima. Ao construir relógios, ele fundamentalmente vive “manipulando” o tempo, embora o tempo seja uma grandeza que ele não consegue compreender, como ser imortal que é. Andrew não dorme e não envelhece. Talvez essa seja a melhor (e mais trágica) piada do filme, pois resume muito bem a lição que Columbus quis passar com a obra.

Na segunda metade, Andrew percebe que desenvolveu um raciocínio inteiramente humano, e começa a sentir falta de companhia. Isso significa entrar em contato com a família que lhe acolheu nos primeiros anos de existência, descobrir seus descendentes e desenvolver gradualmente uma amizade que pode descambar para algo mais profundo – algo imaterial, como amor, que um robô, como Andrew, teoricamente não conseguiria sentir.

Estão aqui, nessa parte, os maiores problemas do filme. Robin Williams, em interpretação contida, mostra a excelência habitual ao mesclar drama e comédia com sutileza, mas o conflito do robô Andrew é suavizado e simplificado sucessivamente, em cenas que parecem não ter coragem de abordar todo o rico potencial do tema para discutir conceitos como o tempo, o amor e o preconceito.

De alguma forma, fica difícil até mesmo classificar “O Homem Bicentenário” como uma ficção científica, uma vez que a maioria das seqüências acontece em interiores que lembram demais o mundo em 2005. Nesse sentido, o filme tem falhas graves – é impossível imaginar que, dentro de 200 anos, o homem ainda assista a TV em aparelhos semelhantes aos que temos hoje. Columbus não soube ou não teve dinheiro para desenvolver um futuro que fosse aceitável em termos tecnológicos, como Steven Spielberg fez em “Minority Report”.

Aliás, o próprio Spielberg já abordou o mesmo arco emocional do robô Andrew em outro personagem: o pequeno andróide David, garotinho robótico que é a figura central de “A.I.” e protagonista de uma saga intrincada na busca de humanidade. Spielberg também enfrentou problemas em fazer funcionar o complexo tema de seu filme, mas alcançou um resultado bem mais satisfatório do que Columbus.

“O Homem Bicentenário” é o tipo de filme que renderia um ótimo DVD, ainda que sua qualidade como cinema fosse questionável. Infelizmente, o fracasso nas bilheterias jamais incentivou a Buena Vista a produzir um disco decente. O DVD contém o filme (corte original em formato 1.18:1, quase em tela cheia, e som Dolby Digital 5.1), um trailer e um pequeno featurette com entrevistas do diretor e do elenco. Nada além do trivial.

– O Homem Bicenterário (Bicentennial Man, EUA, 1999)
Direção: Chris Columbus
Elenco: Robin Williams, Embeth Davidtz, Sam Neill, Oliver Platt
Duração: 132 minutos

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