Homem de Palha, O

04/08/2005 | Categoria: Críticas

Lúgubre e atmosférico, filme de Robin Hardy é cult para admiradores do cinema de horror

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

A definição mais comum de cult movie diz que eles são filmes que atraíram pouco público na época do lançamento original, muitas vezes obtendo uma recepção fria ou negativa, e ao longo dos anos foram revalorizados. Um dos longas-metragens que melhor se encaixa nessa definição é “O Homem de Palha” (The Wicker Man, Inglaterra, 1973), produção barata de terror filmada na Inglaterra, em 1971, que teve um pequeno e tumultuado lançamento, dois anos depois. O filme passaria despercebido, se não fosse o esforço de alguns dos envolvidos na produção, como o legendário ator Christopher Lee. Assim, com o tempo, “O Homem de Palha” gerou uma autêntica comunidade de devotos de uma película lúgubre, atmosférica e muito interessante.

“O Homem de Palha” poderia ser descrito como um choque entre um livro de Agatha Christie com a atmosfera conspiratória de “A Profecia”. O longa-metragem do diretor Robin Hardy narra os detalhes da investigação do desaparecimento de uma adolescente em uma minúscula ilha da Escócia. Tal investigação é promovida por um inspetor de polícia, o sargento Neil Howie (Edward Woodward), homem de conduta moral rígida e fé cristã inabalável.

Desde as belas imagens aéreas do trajeto de Howie até Summerisle, o espectador já pode sentir a sensação de isolamento. Os estranhos créditos sugerem um lugar esquecido pelo mundo, sensação acentuada pela música atonal. Esta é a maior qualidade do filme: a atmosfera, a sensação permanente de solidão, de que algo está errado. A recepção dos moradores a Howie é fria. O oficial não demora a perceber que todos na ilha, inclusive a própria mãe da garota desaparecida, estão mentindo. Além disso, os moradores não fazem nenhum esforço para esconder de Howie os bizarros rituais da religião pagã que seguem – basta dizer que a religião celebra o pênis como símbolo da vida e prega o amor livre.

Howie fica horrorizado, mas decide investigar o caso a fundo. Ele suspeita que a adolescente desaparecida possa ter sido assassinada em um ritual de sacrifício comandado por alguém dentro da ilha, uma suspeita que é apenas reforçada quando ele conhece o proprietário das terras e líder da comunidade, Lorde Summerisle (Christopher Lee). O filme segue os lances dessa investigação sempre sob o ponto de vista espantado do sargento, até que uma inteligente reviravolta proporciona um final surpreendente e original.

Não há cultos satânicos ou assassinatos na película, que capricha especialmente na cuidadosa concepção visual, com o uso de cores fortes e paisagens naturais, bem ao gosto dos anos 1970. A fotografia, melhor ainda, sugere a presença da menina desaparecida, mesmo sem mostrá-la (fotos e objetos da garota estão sempre sendo focalizados durante as cenas, às vezes em segundo plano). Um certo clima hippie pode ser sentido, devido à presença de alguns números de música medieval. Existem pelo menos duas seqüências de dança em que moradores dançam nus, e o desfile pagão que acontece perto do final parece uma procissão da Idade Média, com homens e mulheres mascarados dançando alegremente. A cena lembra um pouco o final de “O Sétimo Selo”, de Ingmar Bergman.

“O Homem de Palha” fica entre um filme policial e um exemplar de horror não-convencional. É muito boa a construção do personagem de Edward Woodward, que se torna agressivo devido à atitude defensiva que assume, por não compreender a lógica que rege as vidas dos habitantes da ilha. Dentro desse contexto, a curiosa cena em que a filha do dono do pub local dança nua no quarto vizinho ao policial, tentando seduzi-lo, faz sentido, embora pareça um tanto deslocada por acontecer cedo demais.

Essa sensação de deslocamento provocada pela cena da dança, contudo, tem uma explicação. Na montagem original do filme, que tinha 117 minutos, a seqüência ocorria durante a segunda noite do sargento Howie na ilha, quando ele já estava claramente perturbado pelos resultados das investigações. Devido à troca de comando dos estúdios British Lion, que produziam a película, os produtores do longa-metragem decidiram encurtá-lo à revelia do diretor. A reedição eliminou 30 minutos da duração e acabou por provocar alterações importantes, como a troca da posição da cena de dança na montagem final.

Muitas das alterações realizadas nessa reedição podem ser observadas assistindo-se ao excelente documentário que acompanha o DVD nacional, chamado “O Enigma do Homem de Palha” (35 minutos). O filme, feito em 2001, traz entrevistas de todos os envolvidos na produção e relata muitas mudanças efetuadas na reedição, inclusive reproduzindo algumas das cenas cortadas. É possível perceber que, na montagem original, “O Homem de Palha” seria melhor, ainda mais lúgubre e atmosférico.

O DVD contém ainda sinopse e biografias em texto dos atores. A versão do filme, que tem o formato de imagem original (widescreen anamórfico) e áudio Dolby Digital 5.1, é a mais curta, de 87 minutos. Os brasileiros perdem a edição mais longa do filme disponível em DVD, com 12 minutos a mais. Essa edição está incluída em um segundo disco no DVD norte-americano, lançado pela Anchor Bay. Vale ressaltar, entretanto, que as novas cenas da chamada Versão do Diretor, montada originalmente para lançamento em DVD na Inglaterra, foram retiradas de uma fita VHS comum, o que faz com que a qualidade do material extra esteja claramente inferior ao restante do filme.

– O Homem de Palha (The Wicker Man, Inglaterra, 1973)
Direção: Robin Hardy
Elenco: Edward Woodward, Christopher Lee, Britt Ekland, Ingrid Pitt
Duração: 87 minutos

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