Homem do Oeste, O

10/05/2009 | Categoria: Críticas

Belo e amargurado, último oeste de Anthony Mann antecipa o fim do gênero em duas décadas

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★½

O diretor Anthony Mann ganhou reconhecimento internacional, na década de 1950, pela série de oito filmes (cinco deles faroestes) realizados em parceria com o ator James Stewart. Críticos da época atribuem a Mann o papel de renovador do gênero, por construir personagens menos heróicos e mais realistas do que os John Ford e Howard Hawks, os dois cineastas que serviam de referência para o que melhor se produzia no estilo. Em 1958, sem Stewart, Mann se despediu do gênero com um belíssimo e amargurado longa-metragem que, numa injustiça típica da crítica conservadora dos EUA, foi espinafrado injustamente: “O Homem do Oeste” (Man of the West, EUA, 1958).

Como era praxe naquela época, a produção foi reabilitada pela turma jovem da revista Cahiers du Cinema. A publicação francesa lançava naquele instante a conhecida teoria do autor (que vislumbrava na figura do diretor, e não do produtor, o verdadeiro artesão dos filmes), reabilitando cineastas norte-americanos que desfrutavam de prestígio zero dentro da própria pátria, como Nicholas Ray. A voz que se levantou em favor do trabalho de Anthony Mann foi a de ninguém menos que Jean-Luc Godard. Entusiasmado, o futuro grande iconoclasta do cinema independente escreveu que “O Homem do Oeste” redefinia aquilo que conhecíamos como filmes, e que Mann era o maior inovador do cinema desde Griffith.

Exageros à parte, Godard foi um dos poucos a antever a importância do filme de Anthony Mann. Na época, quando o western estava no auge, não foram muitos os cinéfilos a perceber a iminência de um declínio estrondoso na popularidade do gênero. Hoje, quando visto em retrospectiva, fica fácil contextualizar a importância crucial de “O Homem do Oeste”, talvez o primeiro filme autoconsciente deste fato. O longa foi o primeiro faroeste a incorporar, dentro da própria trama, o tom de lamento pela crise definitiva do faroeste, uma crise que culminaria com a morte do gênero em Hollywood, duas décadas depois. O trabalho antecipou o trabalho de Sam Peckinpah em filmes como “Meu Ódio Será Sua Herança” (1969) e “Pat Garrett e Billy The Kid” (1973), sendo também uma espécie de antepassado de “Os Imperdoáveis” (1992).

O enredo gira em torno de Link Jones (Gary Cooper), taciturno vaqueiro que viaja de um vilarejo na fronteira do Texas com o México para contratar uma professora para as crianças do lugar. Largado por engano na vastidão do deserto junto a uma cantora de cabaré (Julie London) e um trapaceiro (Arthur O’Connell), ele é obrigado a reviver um passado nada agradável de assaltante de bancos e se reunir à antiga gangue do tio que o criou (Lee J. Cobb) para efetuar um assalto ambicioso. Anthony Mann recicla mais uma vez seu protagonista predileto (o homem amargurado que tenta fugir de um passado condenável), em uma trama que enfoca, mais uma vez, embates entre ex-amigos que agora se encontram em lados distintos da lei (curioso notar que este tipo de embate também será uma constante na obra de Peckinpah).

Como se sabe, em filmes anteriores o diretor já vinha se dedicando a desconstruir mitos do Velho Oeste, como o xerife Wyatt Earp (em “Winchester 73”). Aqui, ele vai além e ataca a mitologia da época por inteiro, ao mesmo tempo em que lamenta, amargurado, o seu fim. O perfil da gangue de malfeitores é construído como um triste comentário sobre isso. Eles são homens proscritos, que vivem à margem da civilização, isolados em um rancho a 150 quilômetros de distância da cidade mais próxima. O velho líder do grupo, inclusive, alimenta o plano megalomaníaco de assaltar um grande banco – e é justamente a execução deste plano que envolve o retorno forçado de Link Jones às atividades ilegais.

Mestre em utilizar os cenários e paisagens naturais como forma de sublinhar os temas e a vida interior dos personagens, Mann executa esta ação de maneira sublime em “O Homem do Oeste”, criando composições visuais de beleza extraordinária. O melhor exemplo está no tiroteio travado entre três personagens em uma cidade-fantasma (que cenário poderia ser melhor para expressar visualmente o tema do declínio do Velho Oeste para personagens que não se dão conta disso?), perto do fim do filme – os planos gerais, quase sempre usando as três dimensões da imagem, exprimem toda a tensão experimentada pelos participantes da briga. Além disso, o derradeiro confronto acontece em um cenário de tirar o fôlego, com um participante postado no topo de um enorme desfiladeiro de pedras e outro em um descampado deserto pedregoso, tudo emoldurado por gritos fantasmagóricos que ecoam indefinidamente. É sensacional.

No fim das contas, “O Homem do Oeste” é um western de atmosfera fúnebre e depressiva, que tem um protagonista muito distante do protótipo do herói clássico, e está pontuado de seqüências estranhas, que o transformam num filme completamente atípico. Tome o exemplo do confronto entre Link e o primeiro Coley (Jack Lord), em que surra o segundo – o maior defeito do longa, aliás, é a artificialidade das cenas de ação – e arranca todas as peças de roupa dele, uma por uma, como vingança pelo strip tease forçado que a vítima tinha obrigado a cantora, protegida de Link, a fazer antes. Só por antecipar os chamados western crepusculares, “O Homem do Oeste” já seria um marco obrigatório na cinematografia do gênero. Como belo filme que é, então, torna-se um longa essencial.

Lançado nos EUA em DVD simples, pela MGM, o filme saiu no Brasil em formato digital pela Continental. O disco tem imagem OK (widescreen anamórfica) e áudio razoável (Dolby Digital 1.0).

– O Homem do Oeste (Man of the West, EUA, 1958)
Direção: Antony Mann
Elenco: Gary Cooper, Julie London, Lee J. Cobb, Jack Lord
Duração: 100 minutos

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