Homem Duplo, O

06/06/2007 | Categoria: Críticas

Animação adulta oferece aterrorizante viagem para dentro de uma mente paranóica e quimicamente alterada

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★½

Philip K. Dick era, além de um dos melhores escritores de ficção científica que já habitaram o planeta, também um paranóico de carteirinha. A sensação de estar sendo vigiado e perseguido, típica de quem sofre de esquizofrenia, batia especialmente forte nele, e era ainda por cima amplificada pelo uso abundante de benzedrina e outras drogas estimulantes. O instigante e estranho thriller experimental “O Homem Duplo” (A Scanner Darkly, EUA, 2006), dirigido por Richard Linklater com base em um dos romances mais autobiográficos que Dick escreveu, oferece ao espectador uma aterrorizante viagem para dentro de uma mente quimicamente alterada, e tão paranóica quanto a do escritor.

Dick é, desde sempre, um dos mais populares escritores de ficção na comunidade cinematográfica. Diversos livros que ele escreveu foram transformados em filmes, quase sempre com bons resultados (“Blade Runner – O Caçador de Andróides”, “Minority Report”, “O Vingador do Futuro”). Nenhum desses títulos, contudo, jamais conseguiu transpor para o celulóide com fidelidade a atmosfera de angústia, tensão permanente e paranóia que suas histórias possuem no papel. Neste sentido, “O Homem Duplo” pode ser considerado o longa-metragem mais fiel ao universo que o escritor criou. De quebra, é um excelente filme.

Curiosamente, a origem da história de “O Homem Duplo” vem de um conhecido episódio da vida de Dick. Em certo momento dos anos 1970, na fase em que mais abusava de estimulantes para poder evitar o sono e escrever sem parar, o escritor começou a acreditar que estava sendo vigiado pelo FBI e pela KGB. Não demorou muito para que sua mente paranóica distorcesse ainda mais esta percepção, e Dick logo foi levado a crer que ele próprio estava sendo pago pelo FBI para vigiar a si mesmo. Bizarro, não? Pois com base nessa loucura, ele imaginou uma trama ficcional e escreveu o livro que deu origem ao filme.

O protagonista é o detetive anti-drogas Fred (Keanu Reeves). Ele é um agente infiltrado num grupo de drogados e faz parte da força-tarefa que tenta deter a expansão de uma droga nova e letal, chamada Substância D. Fred recebe a missão de prestar atenção especial em Bob Arctor, um dos membros do grupo que investiga, pois a polícia suspeita que ele possa ter ligações com os altos escalões de traficantes. Ocorre que Fred e Bob Arctor são a mesma pessoa, embora o próprio policial, com a percepção bastante alterada pelo consumo exagerado de drogas, não tenha inteira consciência disso. A partir daí, o filme mergulha mais e mais na mente distorcida do sujeito, tornando a experiência do espectador tão fascinante quanto assustadora.

A direção brilhante de Linklater filtra toda a história pelos olhos de Fred/Bob, causando na platéia a mesma sensação de desorientação, angústia e tensão que o agente/viciado experimenta. Linklater é auxiliado nesta tarefa pela técnica da rotoscopia, que encobre o elenco com camadas digitais de tinta, acrescentando novas cores e objetos cênicos às seqüências, de forma que o filme vira uma animação nervosa, causando um efeito de ressaca bem adequado ao clima do filme. Em termos visuais, “O Homem Duplo” segue a linha do anterior “Waking Life” (2001).

A técnica casa perfeitamente com a proposta de imersão na mente de um viciado, como pode ser constatado na seqüência inicial, em que uma alucinação causada pela droga faz Charles (Rory Cochrane) imaginar-se coberto por uma população de baratas. Outra grande sacada tornada possível pela rotoscopia é a existência da roupa especial utilizada pelos agentes infiltrados, uma espécie de macacão que faz a fisionomia de quem o usa mudar constantemente, tornando impossível a identificação do policial em questão. Sem a cobertura de tinta digital, “O Homem Duplo” até poderia ser feito, mas certamente não seria tão eficaz, nem tão nervoso.

Além disso, Linklater reuniu o elenco perfeito para viver o grupo de doidões: Robert Downey Jr, Winona Ryder e Woody Harrelson, todos com histórico abundante de envolvimento com drogas na vida real. O primeiro, em especial, se destaca com uma performance histriônica de ranger os dentes, como faria um viciado em crack de verdade: cheio de tiques nervosos, ele fala metralhando as palavras, revirando os olhos, e imaginando os maiores disparates como se fossem verdades inquestionáveis. Perfeito. Keanu Reeves apenas faz cara de quem não está entendendo nada, e é o bastante, já que o personagem realmente não saca bulhufas do que está ocorrendo.

“O Homem Duplo” é o tipo de filme que carrega consigo as marcas registradas tanto do autor do romance que o originou quanto do diretor. É verborrágico e extremamente dialogado, como toda a obra de Linklater, e apresenta claramente as obsessões de Philip K. Dick com memória, percepção cognitiva e estados cerebrais alterados. Todas essas características são cozinhadas juntas em uma trama difícil de acompanhar – na verdade a história é simples, mas como a vemos através dos olhos turvos de Fred/Bob Arctor, tudo parece complicado, nervoso e incompreensível.

A dica é curtir o visual sofisticado e a atmosfera paranóica durante os primeiros dois atos, e ficar 100% ligado na última meia hora, quando a trama dá uma guinada radical. Isto ocorre a partir de certo acontecimento que não deve ser mencionado, mas que fica evidente na atmosfera, que passa a ser triste daí em diante. É quando o filme abandona o ponto de vista do agente chapado e passa a observar tudo a partir de um olhar externo, cheio de comiseração e melancolia. Muito bom.

O DVD da Warner traz o filme com boa qualidade de imagem (widescreen anamórfica) e áudio (Dolby Digital 5.1). Os extras são bons, com um documentário de bastidores em duas partes (46 minutos no total) e comentário em áudio reunindo Linklater, Keanu Reeves e uma das filhas de Philip K. Dick. O documentário tem legendas em português, mas o comentário não.

– O Homem Duplo (A Scanner Darkly, EUA, 2006)
Direção: Richard Linklater
Elenco: Keanu Reeves, Winona Ryder, Robert Downey Jr, Woody Harrelson
Duração: 100 minutos

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