Homem Elefante, O

28/06/2006 | Categoria: Críticas

Filme de David Lynch trata a trágica história de um doente deformado com rigor formal e objetividade

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Emocionante sem ser melodramático. A definição encaixa como uma luva no clássico “O Homem Elefante” (The Elephant Man, EUA/Inglaterra, 1980), filme que colocou o nome do diretor David Lynch no mapa. A narrativa seca e objetiva, que recusa o estilo normalmente experimental e abstrato do diretor, deveria ser considerada um exemplo para cineasta iniciantes. É notável que, apesar de ter em mãos material verídico com grande potencial para virar um dramalhão da pesada, o cineasta tenha feito um filme de grande rigor formal e objetividade, contando a história trágica do inglês John Merrick de maneira simples e contida.

Lynch ainda era um iniciante quando foi contratado pelo comediante Mel Brooks para dirigir o filme, baseado nos diários do médico Frederick Treves. O doutor foi o homem que descobriu, na Inglaterra vitoriana do século XIX, a existência de Merrick. O pobre sujeito é considerado, até hoje, o caso mais grave de uma rara doença, chamada neurofibromatose múltipla, já registrado. A doença faz com que os membros do corpo, especialmente a cabeça, cresçam em proporções anormais. No caso de Merrick, a doença era tão grave que 90% do corpo apresentava deformações, e o peso da cabeça era tão descomunal que ele não podia dormir deitado, pois se o fizesse morreria sufocado. Só por isso, você já pode imaginar quão infeliz foi a existência do rapaz.

Há uma seqüência, aparentemente banal, que é a chave para compreender a abordagem do diretor que depois faria “Cidade dos Sonhos”. Nela, um emocionado Frederick Treves (Anthony Hopkins) conversa com a esposa Anne (Hannah Gordon) e questiona seu próprio comportamento em relação ao paciente, comparando-se com o comerciante que mantinha o homem deformado em cativeiro, antes de ele ser descoberto pelo médico. “Não estamos ambos exibindo-o como num circo?”, lamenta Treves. Sim ou não? Lynch não tira conclusões, apenas expõe os fatos, da maneira mais objetiva possível. As conclusões ficam a cargo de cada espectador.

De certa forma, a reflexão é uma armadilha. Não há dúvida de que Frederick Treves é um homem bem-intencionado, bem como não se discute que ele foi responsável por dar a John Merrick uma vida mais digna e confortável, levando-o para um hospital de ponta em Londres. Antes de Treves, Merrick vivia em um subterrâneo infestado de ratos, sendo exibido em shows de aberrações na periferia e sofrendo espancamentos regulares. Depois do médico, ganhou um quarto decente, roupa e comida, além de carinho e sinceridade. “Posso cuidar de você, mas não curá-lo”, anuncia Treves, sem hesitar, quando o paciente lhe pergunta se um dia poderá ser um homem normal.

No entanto, a nova existência de Merrick, chamado de “Homem Elefante” por causa da aparência bizarra, está longe de ser sossegada. Assim que o caso é divulgado pelos jornais, o doente passa a receber presentes e visitas de membros da aristocracia inglesa. E é precisamente esse assédio que tortura Treves. O médico acha que a curiosidade é obscena, apenas uma outra faceta do mesmo impulso irracional que levava bêbados a pagar para entrar no circo e se espantar com a face deformada do homem. Seriam duas faces diferentes do fascínio humano pelo grotesco, algo que Treves considera abominável. Por outro lado, o médico compreende que a exposição é a única forma de garantir algum conforto para a existência miserável de John Merrick.

Aliás, um elemento que valoriza esplendidamente o filme é a maneira como Merrick foi retratado: um homem sensível e inteligente, com alma de artista, que compreende perfeitamente o paradoxo da sua condição. O ator John Hurt tem grande mérito nesse retrato sensível do doente, pois foi capaz de dotá-lo de personalidade afável e educada, mesmo representando por trás de uma pesada máscara que o obrigava a passar até doze horas por dia na sala de maquiagem. John Merrick é um homem refinado, inteligente e sensível, e expressa isso através do tom de voz, dos olhos e da expressão corporal; trata-se de um trabalho maiúsculo de interpretação.

David Lynch explora o problema da condição de Merrick com rigor formal impressionante. Visualmente, o longa-metragem é belíssimo, fotografando a Londres do século XIX como um filme expressionista alemão, repleto de contrastes radicais e sombras pesadas. A maquiagem de John Merrick, por outro lado, é incrivelmente realista, e ganha ainda mais impacto porque o diretor retarda a aparição do doente durante 20 minutos, atiçando a curiosidade do espectador.

Aliás, a primeira vez em que Treves encontra Merrick é um dos momentos mais belos do filme: a câmera de Lynch se aproxima lentamente do rosto chocado do médico, até que, no exato momento em que pára, uma lágrima escolhe do olho de Anthony Hopkins. É um momento muito bonito e nem um pouco piegas, bem como o final, capaz de levar muita gente às lágrimas sem forçar a barra ou parecer melodramático. Em resumo, “O Homem Elefante” é um grande filme sobre, nas palavras de David Lynch, “uma bela alma aprisionada num corpo horrível”.

Há uma história de bastidores sobre “O Homem Elefante” que demonstra o respeito da equipe que fez o filme. O comediante Mel Brooks, principal produtor da obra e responsável pela escolha de Lynch para dirigi-la, pediu que seu nome fosse retirado dos créditos oficiais, porque temia que o público, ao ver o nome dele os letreiros, pensasse que se tratava de uma comédia e não encarasse a produção com a seriedade que ela exigia. Isso também explica porque a abordagem de David Lynch é tão objetiva, sem recorrer aos rebuscamentos típicos da carreira futura do diretor.

O único momento em que Lynch filma como Lynch é a abertura, um pesadelo expressionista que mostra uma mulher gritando e sofrendo um ataque de elefantes. Membros desavisados da platéia podem até ver alguma sugestão sexual na seqüência, que o filme trata como um sonho recorrente de John Merrick, algo perfeitamente explicável para um paciente da sua condição.

O filme foi lançado no Brasil em duas edições distintas. O disco encartado em uma revista não tem extras, mas em compensação a qualidade da imagem (com enquadramento original, wide 2.35:1, mantido) é boa. O som (Dolby Digital 2.0) é razoável. A edição da Universal tem imagem idêntica, som melhor (DD 5.1) e um documentário (25 minutos).

– O Homem Elefante (The Elephant Man, EUA/Inglaterra, 1980)
Direção: David Lynch
Elenco: Anthony Hopkins, John Hurt, Anne Bancroft, John Gielgud
Duração: 124 minutos

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