Homem Errado, O

08/04/2008 | Categoria: Críticas

Hitchcock dramatiza seu pior pesadelo em um dos mais sérios, angustiantes e sombrios que realizou

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Quando tinha cinco anos, Alfred Hitchcock passou por uma experiência traumatizante, que influenciou decisivamente em toda a sua carreira como cineasta. Após uma traquinagem, o diretor inglês foi levado pelo pai à delegacia do bairro onde a família morava. O chefe da família falou com o delegado, que deu um tremendo susto no pequeno Hitchcock, trancando-o numa cela por cinco minutos. O episódio mexeu profundamente com a consciência do menino, e o medo de ser preso o acompanharia pelo resto da vida. Por causa desse trauma, quase toda a obra de Hitchcock seria composta por variações do mesmo tema: um personagem é acusado por um crime que não cometeu, e precisa provar sua inocência. Se algum psicólogo tivesse que provar a importância que os traumas de infância têm na vida de uma pessoa, Hitchcock seria um exemplo perfeito.

Dentre todos os filmes que o inglês realizou, “O Homem Errado” (The Wrong Man, EUA, 1956) é aquele que aborda mais diretamente o tema. Partindo pela primeira vez de uma história real, e seguindo-a com uma fidelidade quase documental, Hitchcock dramatizou seu pior pesadelo. Não por acaso, “O Homem Errado” é um dos mais sérios, angustiantes e sombrios trabalhos do mestre do suspense. Como um artista que tenta expurgar um pecado, arrancando à força um trauma inconsciente de dentro de si, o cineasta seguiu pontualmente os eventos reais que inspiraram o filme, sem tentar lapidar o drama ou ressaltar os aspectos de suspense da história. Na prática, trata-se de um drama pesado, cuja ausência de senso de humor soa como uma nota dissonante na obra do diretor inglês.

O protagonista é o contrabaixista da banda de um dos clubes de jazz mais elegantes de Nova York. O perfil de Manny (Henry Fonda), porém, não poderia ser mais distante do boêmio típico. Ele não bebe, não fuma, ama a família e dá duro para que a mulher e os dois filhos tenham do bom e do melhor. Sua ética pessoal é tão imaculada que Manny sequer cede à tentação de fazer pequenas apostas em cavalos – ele tem o estranho passatempo de anotar os palpites no jornal para checar, no dia seguinte, se teria ganhado dinheiro em caso de apostas de verdade. Certa noite, porém, ao voltar do trabalho, Manny é preso. Ele tem a mesma aparência física de um ladrão que vem assaltando lojas e casas comerciais do bairro. Reconhecido por testemunhas, o músico acaba na cadeia, enquanto a vida de toda a família se encaminha para a ruína total.

A abordagem de Hitchcock foi bem diferente do habitual. Testemunhas e policiais envolvidos com o caso real, ocorrido alguns anos antes, interpretaram a si próprios. Hitchcock evitou filmagens em estúdio e levou a equipe para locações reais, fazendo questão de fazer as cenas de prisão dentro da cela onde o verdadeiro Manny havia estado. Também adotou, pela primeira vez, uma iluminação em chave escura, repleta de sombras em abundância, como nos filmes noir – uma decisão que reforça a atmosfera pesada e angustiante da história. O roteiro segue os acontecimentos reais tão de perto que, no terceiro ato, há uma falha: Manny e a mulher estão mergulhados em problemas diferentes, e um enfraquece o outro. Anos depois, Hitchcock confessaria a Truffaut que havia detectado o defeito dramatúrgico, mas simplesmente não tivera coragem de mudar o roteiro, porque isto significaria se afastar do caso real.

A interpretação de Henry Fonda, absolutamente natural no papel, é um dos grandes trunfos da produção. O ator, então um dos maiores astros de Hollywood, consegue a proeza de desaparecer completamente por trás da expressão atônita de incompreensão do pobre trabalhador honesto, que não compreende as implicações das acusações que recebe. Além disso, Hitchcock exibe a habitual elegância na composição de cenas inesquecíveis, como o momento em que a ficha cai para Manny (e o mundo roda à sua volta), a espiada pelo vão da porta de ferro da cela (conseguida com o uso criativo de uma lente grande-angular, que deixa o centro da imagem bem apertado) e o inesquecível momento da revelação do verdadeiro culpado, com uma solução visual simples e engenhosa.

O DVD simples, da Warner, segue o padrão dos outros filmes de Hitchcock lançados pela distribuidora. A qualidade de imagem (widescreen 1.66:1 anamórfica) e áudio (Dolby Digital 2.0) é boa. Um trailer e um pequeno documentário (21 minutos) vêm como extras. O featurette, legendado, traz críticos analisando o filme, comentários de Peter Bogdanovich e entrevista com o diretor de arte que trabalhou na produção.

– O Homem Errado (The Wrong Man, EUA, 1956)
Direção: Alfred Hitchcock
Elenco: Henry Fonda, Vera Miles, Anthony Quayle, Harold J. Stone
Duração: 105 minutos

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