Homem Invisível, O (1933)

26/05/2005 | Categoria: Críticas

Clássico do horror de James Whale possui grandes cenas e efeitos especiais surpreendentes

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

Gêneros menos nobres da literatura, o horror e a ficção científica atraíam gente talentosa, em meados do século XIX, porque certos escritores acreditavam que podiam bolar tramas simples, utilizando elementos desses gêneros, que fossem capazes de discutir problemas éticos e morais realmente importantes. Dessa forma, H.G. Wells escreveu o livro “O Homem Invisível” não como uma mera aventura escapista, mas como uma versão ficcional de uma discussão filosófica a respeito da moral que assombra os filósofos ocidentais desde Platão: se um homem conseguisse se libertar das amarras sociais e pudesse fazer literalmente qualquer coisa sem ser punido, até onde seria capaz de ir?

“O Homem Invisível” (The Invisible Man, EUA, 1933), de James Whale, foi a primeira tradução visual do livro de Wells em Hollywood. Ainda que o roteiro tenha introduzido algumas modificações, como a inclusão de um interesse romântico e de um mentor do protagonista (no filme, esses dois são pai e filha), a situação básica permanece inalterada. Será que os freios sociais que nos impedem de cometer abusos – furtos, estupros, assassinatos – permaneceriam intactos, caso tivéssemos a chance de escapar impunes? H.G. Wells aposta que não. James Whale reafirma essa aposta, e de quebra entrega um filme muito à frente do seu tempo.

Na época da produção, os estúdios Universal já haviam estabelecido uma série de produções baratas de horror como uma de suas marcas registradas. Whale, o diretor, já fizera “Frankenstein” para o estúdio e era considerado o principal nome entre os cineastas dedicados ao tema. Mais refinado e cuidadoso do que o rival Tod Browning, Whale trabalhou com cuidado no texto e escalou o ótimo ator Claude Rains para o papel principal. Rains, que ficaria famoso no papel do corrupto chefe de polícia em “Casablanca”, desenvolveu uma lendária risada maníaca que é um dos maiores trunfos do filme, uma pequena jóia de efeitos especiais.

Em 1933, como é possível imaginar, fazer um filme com um personagem invisível era tarefa hercúlea. Pois Whale não só enfrentou-a como quebrou paradigmas e mostrou algumas das cenas mais impressionantes do cinema de então. A primeira aparição do Dr. Jack Griffin (Rains) sem as ataduras que lhe envolvem o corpo é um momento eletrizante, amplificado pelo talento impresso pelo diretor para envolver o personagem em mistério.

Griffin, afinal, é um sujeito solitário e estranho que adentra uma estalagem no interior da Inglaterra, no meio de uma tempestade de neve, e aluga um quarto. No lugar, ele pretende trabalhar em experiências químicas para ser capaz de ter o próprio corpo visível de novo. Em uma experiência anterior, ele conseguiu a fórmula da invisibilidade, mas o antídoto parece bem mais difícil de conseguir. Ocorre que, com o tempo, Griffin começa a perceber as vantagens de ser invisível e o poder que isso lhe dá. O médico pode caminhar sem ser visto, roubar à vontade e até matar impunemente.

Assistir a “O Homem Invisível”, dentro do contexto dos filmes que eram produzidos na mesma época, é uma experiência fascinante. Naquele momento, a tecnologia de produzir filmes corria a galope, da mesma forma que o desenvolvimento da linguagem cinematográfica dava grandes saltos. Se em “Drácula”, feito apenas dois anos antes, Tod Browning desprezara toda a gama de ruídos de fundo que dava realismo ao longa-metragem, em “O Homem Invisível” James Whale tomou todas as precauções, a começar pelos uivos tenebrosos da nevasca enfrentada pelo homem invisível logo na cena de abertura. A sonorização impecável dá agilidade e ritmo veloz ao filme, feito com uma fotografia preto-e-branca de muitos contrastes, embora não tão radicais quanto no filme do lorde vampiro.

De certa forma, se há algum defeito em “O Homem Invisível”, talvez seja o medo de explorar, em todos os seus detalhes, a discussão moral que o filme proporciona. Em “O Homem Invisível”, o estado de loucura de Jack Griffin é impulsionado pela droga que ele usa para tentar criar o antídoto da invisibilidade, o que é uma pena. Ao fazer isso, o filme justifica as ações malignas do protagonista. Whale era um diretor inteligente demais para fazer isso, de onde se pode tirar uma conclusão simples: a tesoura da censura, muito ativa naquele período, interferiu no desenvolvimento da trama.

O DVD de “O Homem Invisível” é mais uma produção a ser elogiada da Universal. Ele vem recheado de extras. O documentário de David Skal (30 minutos) explora muito bem o contexto do filme e explica sobre a produção dos efeitos especiais. Já o comentário em áudio do historiador Rudy Behlmer é repleto de detalhes sobre o longa-metragem. Ambos os extras são legendados. Há, ainda, uma galeria de fotos e pôsteres. O filme comparece em versão restaurada (há muitos arranhões, infelizmente), em formato original fullscreen e com trilha de áudio no formato Dolby Digital 2.0.

– O Homem Invisível (The Invisible Man, EUA, 1933)
Direção: James Whale
Elenco: Claude Rains, Henry Travers, Gloria Stuart, William Harrigan
Duração: 72 minutos

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