Homem que Matou o Facínora, O

07/07/2008 | Categoria: Críticas

Sombrio, faroeste tardio de John Ford lamenta fim do gênero e destaca importância do marketing pessoal no mundo de hoje

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

O diretor italiano Sergio Leone, um dos fãs mais ilustres de John Ford, era categórico quando solicitado a nomear o maior filme concebido pelo ídolo. Em meio a tantas obras-primas, a honra pertencia a “O Homem que Matou o Facínora” (The Man Who Shot Liberty Valance, EUA, 1962), dizia Leone, porque somente neste faroeste tardio Ford havia apreendido com lucidez e comiseração o conceito de pessimismo, que ele próprio considerava fundamental para aproximar o Cinema da vida. Não é raro encontrar cinéfilos que compartilhem da opinião do diretor que lançou Clint Eastwood. Você pode até preferir outro filme de John Ford, mas precisa concordar que “O Homem que Matou o Facínora” foi o último grande filme do cineasta que, para muitos, foi o maior cineasta norte-americano de todos os tempos.

É importante ressaltar que Ford não pôde filmar com boas condições de produção. Em 1962, todos os grandes estúdios já haviam percebido que o faroeste atraía menos público aos cinemas, e o gênero caminhava rapidamente rumo à extinção. Percebendo o fenômeno, a Paramount fechou a torneira orçamentária e obrigou o cineasta a filmar nos estúdios da empresa, em Los Angeles, bem longe do cenário habitual em que Ford gostava de trabalhar (Monument Valley, Utah). Economia de recursos também foi uma das razões por que o diretor, dono de quatro Oscars, teve que filmar em preto-e-branco. Esse clima de pressão, contraditoriamente, acabou beneficiando o longa-metragem, pois tornou o filme inteiro mais sombrio. “O Homem que Matou o Facínora” é considerado, até hoje, um dos primeiros e mais importantes lamentos cinematográficos pelo fim do western.

Mas o filme funciona em muitas outras camadas. É entretenimento da mais alta qualidade, reunindo os dois maiores astros do gênero pela primeira vez (John Wayne era associado aos grandes faroestes de Ford e Howard Hawks, enquanto Stewart fez cinco grande westerns com Anthony Mann). Também é uma dolorosa história de amor e um filme político que trata do nascimento da nação. Mas o tema principal, o mais importante, está expresso em uma das mais famosas frases do imaginário cinematográfico: “Quando a lenda vira fato, imprima-se a lenda”. Grande cineasta, Ford tinha consciência da importância e do impacto desta fala, que constava do roteiro original, e desenvolveu toda a história, narrada em flashback, para culminar com a cena em que a frase é dita, pelo editor do jornal da cidadezinha de Shinbone, com toda pompa e circunstância.

A história da amizade entre o advogado idealista Ranson Stoddard (Stewart) e o bruto vaqueiro Tom Doniphon (Wayne) gira em torno de um tema extremamente moderno: a importância da imagem, do marketing pessoal, no mundo contemporâneo. Stoddard e Doniphon são dois homens de personalidades bem diferentes. Lutam pela mesma mulher (Vera Miles), mas com muito respeito, e unem forças para libertar a cidade do malfeitor Liberty Valance (Lee Marvin). Em tese, num triângulo amoroso em que os dois homens são nobres, a heroína poderia ficar com qualquer um dos dois, mas na prática ela não tem realmente uma escolha. Stoddard teve a chance de construir uma imagem pública; Doniphon, homem analfabeto e rústico, não.

O filme não deixa dúvidas sobre quem Ford gostaria que terminasse com a mocinha. O diretor veterano sempre soube que usaria os dois grandes astros nos papéis principais, mas hesitou sobre quem deveria interpretar o vaqueiro. Acabou entregando o papel ao amigo de longa data, evidenciando o herói com quem ele mesmo se identificava mais. Teve o cuidado, porém, de traçar um perfil bastante positivo para o outro personagem masculino – Stoddard é um sujeito íntegro, sincero e honesto. Ele não tem nenhuma interferência na cadeia de eventos que o transformam em herói da comunidade. Usando com maestria o preto-e-branco, criando composições visuais intensas e elaborando um clímax incomum (certamente influência de “Rashomon”, de Kurosawa), Ford dá à história um tom de tristeza contida, adequado ao tema e que, numa leitura mais profunda, também se ajusta muito bem à idéia do crepúsculo do oeste. Grande filme.

O lançamento nacional carrega o selo da Paramount. Não há extras no disco, mas o filme aparece com boa qualidade de imagem (widescreen 1.66:1 anamórfica) e áudio (Dolby Digital 5.1).

– O Homem que Matou o Facínora (The Man Who Shot Liberty Valance, EUA, 1962)
Direção: John Ford
Elenco: John Wayne, James Stewart, Vera Miles, Lee Marvin
Duração: 123 minutos

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