Homem que Odiava as Mulheres, O

28/09/2007 | Categoria: Críticas

Richard Fleischer tenta entrar na mente de um serial killer em filme de narrativa clínica, quase psiquiátrica

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Cidade de Boston (EUA), 1962. Se um turista recém-chegado desse uma simples caminhada pelas ruas, veria uma cena bizarra e tomaria um susto. A maioria esmagadora das mulheres da cidade usava os cabelos pintados de louro. Encontrar uma morena, ou mesmo uma negra de cabelos naturais, era tarefa quase impossível. O turista, abobalhado, perguntaria: que tipo de moda exótica faria somente as mulheres daqui tomarem atitude tão excêntrica, já que assa mania loura não existia em qualquer outro lugar? A resposta: não era moda, era medo. Medo de um assassino em série. O chamado “Estrangulador de Boston”, que a polícia acreditava ter estuprado cerca de 300 mulheres em dois anos, só atacava morenas.

Esta informação curiosíssima, que num filme normal seria explorada com bastante generosidade, aparece com discrição e austeridade em “O Homem que Odiava as Mulheres” (The Boston Strangler, EUA, 1968), longa-metragem de Richard Fleischer que conta a história do criminoso. A verdade é que, embora esteja inserido no subgênero extremamente popular dos thrillers que tratam de caçadas a serial killers, a produção tem muito pouca relação com seus “parentes”. A narrativa elaborada por Fleischer tem atmosfera fria, clínica, cirúrgica. A câmera acompanha os personagens à distância, sem buscar um envolvimento emocional mais forte, sem procurar o melodrama, como ocorre geralmente no gênero.

A chave para entender a abordagem original é conhecer um pouco do passado do cineasta. O crítico Luiz Carlos Merten observa que antes de se tornar diretor de cinema, Richard Fleischer estudou Medicina, com a intenção de se especializar em Psiquiatria. Pois bem, “O Homem que Odiava as Mulheres” parece mesmo um filme dirigido por um psiquiatra. A ação é lenta, meticulosa. Os dois personagens principais – o detetive-chefe da investigação (Henry Fonda) e o criminoso (Tony Curtis) – são mostrados longamente em seus respectivos cotidianos. O primeiro é tudo aquilo que o intérprete projetava fora da tela: um homem pacato, correto, bonzinho. O segundo não fica muito distante. É pai carinhoso e marido paciente. Mas mata. Com a abordagem clínica que conduz, Fleischer tenta reproduzir o processo mental do assassino, mostrando-o mais como vítima (de uma doença mental) do que como criminoso.

Do ponto de vista técnico, o filme é um deleite. Fleischer dá atenção maiúscula aos detalhes, abusando de closes e tomadas fechadas. Ele dá atenção especial aos procedimentos investigativos, acompanhando pacientemente o trabalho dos detetives, e evita mostrar os crimes de forma muito gráfica, preferindo as elipses. Grande destaque vai para o trabalho de montagem, que utiliza com abundância anormal o recurso do split-screen (telas divididas), quase sempre nos momentos em que o assassino está agindo ou em que as vítimas dele estão sendo descobertas. Além disso, o terceiro ato – que mostra Albert De Salvo (Tony Curtis) já encarcerado – é especialmente fascinante, embora possa desagradar aos espectadores que prefeririam conferir o clássico jogo de gato-e-rato entre polícia e bandido.

O DVD nacional saiu na série Fox Classics. É simples, não tem extras e a qualidade de imagem (widescreen anamórfica) e áudio (Dolby Digital 2.0) é ótima.

– O Homem que Odiava as Mulheres (The Boston Strangler, EUA, 1968)
Direção: Richard Fleischer
Elenco: Henry Fonda, Tony Curtis, Murray Hamilton, Sally Kellerman
Duração: 116 minutos

| Mais


Assine os feeds dos comentários deste texto


3 comentários
Comente! »