Homem Sem Passado, O

16/10/2008 | Categoria: Críticas

Finlandês Aki Kaurismäki filma mais uma bela história que focaliza gente vivendo vive à margem da sociedade

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

A cena mais importante de “O Homem Sem Passado” (Mies vailla menneisyyttä , Finlândia, 2002) acontece logo no princípio. Depois de ser severamente espancado por ladrões, o personagem principal (Markku Peltola) está em coma, num hospital finlandês. Ele é observado por médicos. De repente, os batimentos cardíacos cessam. Os homens de branco logo saem do quarto e deixam o cadáver sozinho. Sem qualquer explicação científica, o sujeito se levanta e arranca os eletrodos do corpo. Desorientado, veste as roupas e deixa o hospital. Trata-se de um momento bastante singular, porque é o único instante de toda a história em que o diretor Aki Kaurismäki elimina, de forma explícita e deliberada, o realismo. Afinal, o homem de rosto coberto por bandagens estava clinicamente morto. O que poderia explicar a ressurreição?

A resposta é a chave para que se possa compreender as intenções do diretor. A cena, de certa forma, vai além – encapsula o ponto nevrálgico de toda a obra do finlandês, dono de uma filmografia farta e pouco conhecida além das fronteiras da Europa. Os protagonistas de Kaurismäki são sempre rejeitados pela sociedade, gente que vive à margem da civilização. Em “O Homem Sem Passado”, o diretor propõe a mais radical projeção ficcional desta marginalidade, desta invisibilidade social. Do ponto de vista legal, seu protagonista não existe. Ele não tem documentos e nem memória. A imagem do rosto coberto por bandagens não lembra “O Homem Invisível”, de James Whale, por acaso. Ao acordar no hospital, o “homem sem passado” está literalmente afastado da vida em sociedade. O resto do filme vai mostrar o que a obra de Kaurismäki sempre mostra: a tentativa deste homem de retornar à convivência social.

Em um melodrama normal, o seguimento da história mostraria o sujeito desmemoriado lutando para recuperar sua individualidade. Não em um filme de Kaurismäki. O diretor não está interessado em melodrama. Por isso, seu personagem não demonstra qualquer curiosidade em saber quem era, antes do episódio. O passado não significa nada. Ele olha para a frente. Tudo o que lhe resta é a possibilidade de construir uma nova vida. Como não tem dinheiro, roupas ou documentos, ele ruma para o submundo. Aluga um velho container a um vigia corrupto, consegue roupas e comida no Exército da Salvação, arranja um subemprego na organização não-governamental, e inicia um relacionamento romântico com uma mulher de meia-idade que trabalha lá (Kati Outinen). Aos poucos, vai construindo para si uma nova vida, inteiramente alheio a quem era antes do espancamento. Quando finalmente consegue um emprego como soldador, é obrigado a abrir uma conta num banco. Aí… bom, aí é melhor você conferir por si mesmo.

“O Homem Sem Passado” é o mais importante filme de Aki Kaurismäki. Além de ser o que melhor expressa o tema de interesse do diretor – a vida dos marginais, dos invisíveis sociais – é, ainda, o que conquistou mais notoriedade entre os cinéfilos, por ter ganhado o Prêmio do Júri em Cannes (a atriz Kati Outinen também venceu na França). A história simples, honesta e direta do homem desmemoriado é contada no estilo ascético que marcou a carreira do cineasta. Ele mantém a câmera fixa, à distância, filmando tudo em longos planos gerais, o que sugere um distanciamento moral da situação dramática proposta. Não há música ambiente e os diálogos são curtos, enxutos, resumindo-se ao mínimo necessário para que a platéia entenda a trama.

A estética impassível também é repetida no tratamento visual, com as cores azul e branco predominando, junto a texturas ásperas de concreto e cimento. Tudo isso aproxima a obra de Kaurismäki do trabalho de diretores reconhecidamente frios, como Robert Bresson e Yazujiro Ozu. O estilo, repleto de longos silêncios, pode incomodar espectadores mais acostumados ao cinema mainstream dos Estados Unidos e da Europa, mas favorece a reflexão sobre o tema e as situações dramáticas sugeridas pelo diretor. O senso de humor levemente surreal, característico do finlandês, também marca presença. Kaurismäki arremata tudo com um final caloroso e singelo, como bem pouco coisa que já filmou. Belo filme.

O longa-metragem foi lançado no Brasil em DVD pela Imagem Filmes, mas é bastante raro. O disco simples mantém o enquadramento original preservado (widescreen 1.85:1 letterboxed) e possui áudio em dois canais (Dolby Digital 2.0).

– O Homem Sem Passado (Mies vailla menneisyyttä , Finlândia, 2002)
Direção: Aki Kaurismäki
Elenco: Markku Peltola, Kati Outinen, Juhani Niemelä, Kaija Pakarinen
Duração: 97 minutos

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