Homem Urso, O

13/01/2007 | Categoria: Críticas

Documentário de Werner Herzog sobre ambientalista morto por animais é original, complexo e fascinante

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

Algumas pessoas que levam vidas extraordinárias (no sentido de incomuns) e têm consciência disso costumam dizer que suas histórias renderiam bons filmes. O ativista ecológico Timothy Treadwell conhecia o ditado e resolveu, ele mesmo, providenciar um relato de sua convivência com os ursos selvagens do Alasca. Durante 13 anos, Treadwell passou verões acampados em locais proibidos, comungando da vida selvagem dos animais ferozes e apresentando-se como protetor deles. Filmou muitas horas desses momentos fantasmagóricos em que contemplava a possibilidade do próprio desaparecimento, no meio dos animais. Ironicamente, acabou mesmo morto a dentadas por um dos ursos que tentava proteger, em outubro de 2003. A vida dele é o tema do fascinante documentário “O Homem Urso” (Grizzly Man, EUA, 2005), um dos melhores, mais originais e menos conhecidos filmes de 2005.

O projeto original do documentário nasceu do Discovery Channel. O canal ecológico de TV descobriu que Treadwell, tratado pela mídia nos EUA como uma folclórica piada humana, havia gravado quase 100 horas de vídeo digital, durante os últimos cinco verões que passara junto aos enormes ursos cinzentos do Alasca. Os produtores conseguiram acesso à maior parte desse material e passaram as fitas ao cineasta alemão Werner Herzog. A decisão se mostraria perfeita, pois Treadwell encarnou o tipo de personagem que Herzog se especializou em biografar: um homem vivendo à margem da sociedade, em um mundo romantizado, verdadeiro local de cruzamento de três fronteiras invisíveis: mundo selvagem X civilização, natureza X cultura, e sanidade X loucura.

O maior mérito do filme é a maneira crua e direta como documenta o drama pessoa de um indivíduo extremo, um drama que Herzog jamais cai na tentação de explicar (e, com isso, simplificar). Treadwell viveu em uma zona limítrofe. Era um pária até mesmo entre os ativistas ecológicos, e muitos dos que o conheceram – inclusive alguns entrevistados no filme – o consideravam louco. O documentário, porém, recusa esse e todos os outros rótulos possíveis. Narrado em tom sóbrio pelo próprio Herzog, o filme não tenta julgar a maneira irresistivelmente melodramática como Treadwell via a própria vida. Apenas a apresenta, com todo o vigor e complexidade de uma vida conturbada e contraditória. O resultado é tão fascinante quanto perturbador.

O retrato que emerge de Treadwell nos 100 minutos de filme percorre uma gama completa de emoções, fazendo jus ao homem extremo que ele foi – um sujeito excêntrico que flutuava entre a raiva e a felicidade, entre a risada e a agonia, entre a histeria e a irresponsabilidade. Há um grande número de flagrantes antológicos em “O Homem Urso”. Treadwell nomeia cada urso da ilha, reconhece-os de longe, aproxima-se até acariciar-lhes o pêlo, filma-os lutando, chora amargamente pelos que morrem. A cena mais esclarecedora é aquela em que treme de prazer histérico ao filmar uma fêmea defecando; depois, ele enfia os dedos no monturo, regozijando-se por tocar algo que “estava dentro dela agorinha”. É o mais próximo que Treadwell consegue chegar da transcendência, do amálgama com a cultura desses animais. Ele queria ser não um intruso, mas um participante ativo e fundamental do mundo dos ursos.

Resumir ou explicar a vida de Timothy Treadwell poderia ser algo fácil de fazer, mas Herzog evita tirar conclusões, e com isso preserva toda a riqueza controversa daquele homem. Não se trata, aqui, de psicologizar a vida do ativista, buscando as razões do comportamento dele. O cineasta entrevista amigos, ex-namoradas, parentes, mas não vai muito fundo na pesquisa, exatamente para evitar o que poderia parecer uma tentativa de explicar as atitudes de Treadwell. Herzog filma tudo com frieza, sublinhando certas partes com uma narrativa fria e cortante, fazendo comentários eventuais, mas mantendo distância do biografado. Ele não é simpático a Treadwell, nem o hostiliza. Mostra-o como foi. Narra suas ações, às vezes simpáticas e emocionantes, outras vezes irresponsáveis e malucas.

O fio condutor da narrativa, que se revela aos poucos, é o lado quixotesco de Treadwell, o modo romantizado como via a si mesmo. É fascinante perceber, por exemplo, como o rapaz construiu, durante anos a fio, uma narrativa absolutamente ficcional sobre sua própria vida no meio dos ursos. Treadwell se via como o protetor solitário dos animais contra os visitantes, um Tarzã do Alasca. Nas 100 horas de vídeo que filmou, contudo, ele só documentou um único encontro com turistas, além de ter passado várias temporadas na reserva dos ursos acompanhado por namoradas (que quase nunca deixava aparecer diante da câmera, para não quebrar a imagem construída de si mesmo, tido como um eremita meio louco). Ou seja, Timothy Treadwell filmou um “documentário de ficção” sobre si mesmo, coisa que Herzog apresenta de maneira absolutamente exemplar.

Essa faceta de cineasta de Treadwell é mais um ingrediente que se soma ao mistério que foi a vida do rapaz. Herzog chega a mostrar que as pessoas ao redor de Timothy o viam de maneiras divergentes, mas sempre como um homem pitoresco, um pária de quem era bom manter certa distância. Por exemplo, os nativos do Alasca, representados no documentário pelo diretor do museu natural da região, explicam que Treadwell não era bem visto pelos ecologistas porque desrespeitava regras básicas de conduta entre os animais, aproximando-se irresponsavelmente deles (de fato, o protagonista acampava escondido dentro da reserva dos ursos, caso contrário era expulso pela guarda florestal). Essas coisas enriquecem ainda mais a narrativa. Quem era Treadwell, afinal? Por que agia assim? Isso, o filme não explica. Ainda bem, pois dessa forma o diretor alemão preserva o mistério fundamental da existência humana.

Sinceramente, eu não gosto de fazer comentários pessoais sobre os filmes a que assisto, mas “O Homem Urso” é tão diferente, tão intenso, que quebrar essa regra pode ajudar você, leitor, a ter uma idéia do impacto que ele pode ter diante da platéia. Eu assisti ao documentário acompanhando, num misto de fascinado e perturbado, a trajetória única de Treadwell. Depois de vê-lo, à noite, não consegui dormir. Passei a madrugada em claro, ruminando sobre o filme, o rosto loiro insistentemente voltando à mente como um fantasma.

O que mais me impressionou, de fato, foi poder ter acesso aos devaneios mais íntimos de um desconhecido. Sabe aqueles momentos em que você sonha acordado, imaginando ser um astro do rock ou um jogador de futebol fazendo um golaço na final da Copa do Mundo? São os momentos mais íntimos que uma pessoa pode ter, momentos que ninguém deveria ter acesso. No caso de Treadwell, ele próprio providenciou os meios para que nós, espectadores, pudéssemos vê-lo despido de todas as máscaras sociais. Impressionante mesmo, o que faz do filme uma experiência profundamente tocante.

O DVD da Califórnia Filmes não tem extras. Além disso, peca por mutilar as imagens, cortando-as nas laterais (fullscreen), algo que, considerando a natureza amadora da maior parte das imagens registradas, não é assim tão importante. O som é apenas OK (Dolby Digital 2.0).

– O Homem-Urso (Grizzly Man, EUA, 2005)
Direção: Werner Herzog
Documentário
Duração: 100 minutos

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