Homens de Preto

29/09/2008 | Categoria: Críticas

Barry Sonnenfeld empacota comédia e aventura de alta categoria em um filme infanto-juvenil perfeito

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★½

Se todo blockbuster lançado pelos grandes estúdios norte-americanos fosse igual a “Homens de Preto” (Men in Black, EUA, 1997), a indústria cinematográfica seria muito mais respeitada. O longa-metragem de Barry Sonnenfeld empacota comédia e ação de alta categoria em um filme infanto-juvenil perfeito, uma aventura divertida e despretensiosa sobre o cotidiano de uma agência secreta do Governo dos EUA, responsável pelo controle dos extraterrestres que vivem disfarçados no planeta. Além do roteiro esperto, que insere com a maior naturalidade piadas sensacionais em meio a seqüências de correria desenfreada, o filme apresenta um excelente trabalho de maquiagem e efeitos especiais, capaz de tornar críveis uma galeria praticamente infinita de ETs com todo tipo de aparência. Utilizados com eficiência e discrição, os efeitos não chamam a atenção para si, deixando que o mais importante – a história – flua naturalmente.

Na realidade, o projeto nasceu dos gibis de Lowell Cunningham, roteirista independente de quadrinhos, e foi convenientemente atrasado por quatro anos (1992 a 1996) para que Barry Sonnenfeld pudesse assumi-lo. Steven Spielberg, cuja produtora Amblin cuidou da concepção e do planejamento, queria obter o mesmo tipo de humor soturno que Sonnenfeld havia conseguido aplicar na adaptação cinematográfica de “A Família Addams”. Foi um daqueles casos de conspiração cósmica a favor do projeto. O resultado final, além de ser diversão saborosa para todas as idades, arrasou nas bilheterias (US$ 589 milhões ao redor do planeta) e foi decisivo nas carreiras de todos os envolvidos. Transformou Will Smith em astro, colocou Tommy Lee Jones entre os atores de maior prestígio em Hollywood e deu créditos para que Sonnenfeld pudesse torrar US$ 100 milhões no projeto seguinte – pena que o fracasso retumbante de “As Loucas Aventuras de James West”, em 1999, quase destruiu a carreira dele.

Tanto sucesso aconteceu porque o filme não tem uma única nota fora do lugar. Os acertos começam já na abertura, com uma brilhante seqüência sem cortes acompanhando, em câmera subjetiva, o vôo de uma libélula. Ao final dos créditos, o bicho se choca com o vidro de um carro (a reação do motorista, que exclama a frase “Malditos insetos!”, faz referência hilariante ao que está por vir). O automóvel pertence à polícia e intercepta uma caminhonete que leva mexicanos ilegalmente aos EUA. O que os policiais não sabem é que um dos chicanos é, na verdade, um alienígena disfarçado, algo que só é descoberto quando uma equipe dos Homens de Preto aparece no local. Após o confronto quase terminar em tragédia, o agente K (Lee Jones) percebe que precisa de um novo parceiro, mais jovem e mais ágil.

Ele vem na pele de J (Smith), jovem e atlético policial em Nova York. A primeira missão da dupla acaba sendo também uma das mais difíceis já enfrentadas pela agência: a invasão da Terra por um gigantesco inseto espacial. Escondido sob a pele de um caipira (Vincent D’Onofrio), o ET rouba um artefato importante de outra raça intergaláctica, que ameaça destruir o planeta se não reaver o objeto. É o pretexto perfeito para que Sonnenfeld abarrote o filme com traquitanas tecnológicas impagáveis (como o bastão apagador de memória), desenvolva uma dinâmica impecável entre os dois protagonistas (a química entre o lacônico Tommy Lee Jones e o tagarela Will Smith é absolutamente perfeita) e crie cenas brilhantes de humor e ação física (o interrogatório do cachorro, o parto alien, a corrida no túnel, a perseguição ao ET com um mini-revólver).

Como se não fosse o bastante, Barry Sonnenfeld e o roteirista Ed Solomon também brincam com teorias conspiratórias, partindo do conceito de que os extraterrestres vivem bem na frente dos nossos narizes, só que disfarçados. Eles desenvolvem essa premissa com muita habilidade. Em determinada cena, por exemplo, descobrimos que as atividades da agência são financiadas pelos royalties de inventos extraterrestres, como o velcro. Em outra, ficamos sabendo que alguns dos astros pop mais conhecidos do mundo são, na verdade, alienígenas vivendo disfarçado – a seqüência envolvendo Sylvester Stallone e Michael Jackson é impagável. E essa aproximação dos conceitos de ETs e celebridades é brilhante. Afinal, na prática, quantos de nós não sente que as celebridades vivem em outro mundo?

Os disfarces elaborados para os ETs esbanjam criatividade, e algumas das melhores tiradas de humor aparecem justamente nos momentos em que o novato – que representa o ponto de vista da platéia no enredo – descobre sobre a origem extraterrestre de pontos turísticos famosos, invenções importantes da humanidade ou celebridades. O maior trunfo do filme, porém, é o perfeito entrosamento entre os dois atores principais. Tommy Lee Jones, mais ranzinza do que o habitual, é o contraponto perfeito para um hiperativo Will Smith. A piada envolvendo o tamanho das armas dos dois atores resume a situação de maneira ímpar. Os dois se entenderam tão bem que, na hora de realizar a inevitável continuação, Barry Sonnenfeld trouxe a dupla mais uma vez, algo que contraria radicalmente o final (na medida!) deste filme aqui. Enfim, este é um longa-metragem sem falhas, que oferece diversão inteligente para toda as idades. Coisa rara.

Um dos primeiros e mais celebrados lançamentos em DVD da Columbia, “Homens de Preto” vem num disco simples abarrotado de extras. O filme em si tem o enquadramento preservado (widescreen anamórfico) e áudio OK (Dolby Digital 5.1). Um dos extras mais interessantes é o comentário em áudio em dez seqüências, que traz a silhueta dos atores e do diretor na parte de baixo da tela. Há um vídeo musical, dois trailers, cinco cenas cortadas, exploração multi-ângulo de uma cena (a corrida no túnel), galerias de storyboards incluindo comparações com a cena final, um making of promocional (7 minutos) e um pequeno documentário (23 minutos), além de menus animados caprichados. Pena que não existem legendas.

– Homens de Preto (Men in Black, EUA, 1997)
Direção: Barry Sonnenfeld
Elenco: Tommy Lee Jones, Will Smith, Linda Fiorentino, Vincent D’Onofrio
Duração: 99 minutos

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