Homens que Não Amavam as Mulheres, Os

22/08/2010 | Categoria: Críticas

Primeiro longa da trilogia sueca resgata tradição do thriller, com personagens sólidos cuja investigação de um caso banal abre caminho para a discussão de aspectos sombrios da natureza humana

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Uma tradição da literatura policial popular é o uso da estrutura narrativa como uma maneira de investigar aspectos sombrios da condição humana e/ou da vida em sociedade. Escritores pulp dos anos 1930, como Raymond Chandler e Ross Macdonald, aprenderam rapidamente que não dava para abordar esse tipo de assunto de forma direta sem afugentar a maior parte dos leitores. Esses escritores aprenderam a usar tramas de desaparecimentos e assassinatos misteriosos como desculpa para explorar, no subtexto e na atmosfera proto-existencialista, temas mais sérios e complexos. Foi dessa literatura que surgiu o film noir, um dos mais importantes subgêneros cinematográficos do cinema. “Os Homens que Não Amavam as Mulheres” (Män som hatar kvinnor, Suécia, 2009) é herdeiro dessa tradição.

A primeira parte de uma trilogia baseada na obra do romancista sueco Stieg Larsson recebeu, de críticos e fãs oriundos de todas as partes do mundo, comparações com a franquia “O Código Da Vinci”. Embora o paralelo seja compreensível, já que o filme nasceu de um fenômeno literário parecido (os livros de Larsson, ex-jornalista investigativo que morreu de enfarte antes de ver publicadas suas tentativas de ganhar algum dinheiro com literatura popular baseada em sua profissão anterior, foram os primeiros a superar a barreira de um milhão de exemplares vendidos para leitores digitais), a comparação é injusta. Aliás, injusta com os livros e com os filmes: Larsson é melhor escritor do que Dan Brown, e “Os Homens que Não Amavam as Mulheres” é adaptação cinematográfica bem mais consistente do que as aventuras detetivescas de Robert Langdon, levadas à tela grande por Ron Howard.

O grande trunfo do filme sueco, na verdade, é o retorno à já citada tradição da literatura policial popular de antigamente. A trama se sustenta sozinha e gera um bom thriller, mas o que realmente move o interesse da platéia são os personagens sólidos e fascinantes, que o veterano (e obscuro) diretor Niels Arden Oplev desenvolve sem pressa durante todo o primeiro ato. Ao final deste trecho do filme, quando a investigação empreendida pelo jornalista Mikael Blomkvist (uma clara versão ficcionalizada do próprio Stieg Larsson, interpretada por Michael Nykvist) e pela hacker Lisbeth Salander (Noomi Rapace) começa finalmente a engrenar, já estamos fisgados. Ambos são seres humanos interessantíssimos, e o mergulho que nos proporcionam nos meandros escuros da alma humana consiste no verdadeiro foco de interesse da história. Como nos melhores noirs das décadas de 1930 e 1940, damos um passeio no inferno sem ao menos perceber isso.

A estrutura narrativa gira em torno de um falso protagonista. Mikael acaba de ser condenado a três meses de cadeia por publicar uma reportagem desmascarando as práticas corruptas de um industrial sueco – uma reportagem cujo conteúdo ele não consegue provar. Antes de cumprir a pena, porém, Mikael recebe uma proposta insólita de trabalho: investigar o desaparecimento da sobrinha de um milionário recluso (Sven-Bertil Taube) que mora numa ilha. A moça sumiu quase 40 anos antes, e indícios levam o tio rico a crer que algum membro da própria família Vanger – uma das mais ricas e tradicionais da Suécia – foi responsável pelo crime.

Antes de contratar Mikael, o milionário tomou a precaução de investigá-lo, tarefa que foi conduzida por Lisbeth. Ela é a verdadeira protagonista do filme. Aos 24 anos, anti-social até a medula, com corpo frágil repleto de piercings e tatuagens, a moça tem aquela beleza exótica de pós-adolescente que tenta a todo custo se enfeiar para afastar outras pessoas e se isolar, curtindo as dores de alguma ferida na alma. Lisbeth invade o computador de Mikael, faz seu trabalho, e continua monitorando-o secretamente depois de concluir o serviço. O filme desenvolve com consistência esses dois personagens e trata de aproximá-los sem pressa, enquanto a investigação enreda as vidas pessoais de ambos em uma espiral de violência que inclui perversões sexuais, corrupção em larga escala e até mesmo neo-nazismo, oferecendo um panorama nada auspicioso da Europa do século XXI.

Embora a investigação realmente demore a engrenar, não dá para culpar o diretor Niels Arden Oplev por isso. Além de manter-se fiel à trama do romance, ele só o faz para dar tempo e espaço para os personagens de Lisbeth e Mikael se desenvolverem. As interpretações dos dois atores ajuda. Nykvist personifica um jornalista de meia-idade, estressado e sem vida pessoal, com naturalidade. E Noomi Rapace carrega o filme para outro patamar de excelência com uma magnífica caracterização da lacônica Salander, entregando uma das mais densas e interessantes interpretações femininas já vistas em um filme policial.

De resto, Oplev ganha pontos extras pela ótima escolha do elenco secundário (o advogado repugnante que monitora Salander é particularmente digno de menção). Mesmo filmando com muita rapidez e sem verbas largas para caprichar nos cenários, ele mantém corretamente o pulso acelerado do filme com uma combinação de planos fechados e simétricos (que valorizam os rostos dos atores) e cortes rápidos, sem abusar da ação física e da velocidade estroboscópica que caracteriza os thrillers norte-americanos. Em resumo, ótimo filme.

O DVD simples e sem extras tem o selo da Imagem Filmes e traz o filme com imagem cortada nas laterais (widescreen anamórfica na proporção 1.78:1, ao invés do formato original 2.35:1) e áudio em seis canais (Dolby Digital 5.1).

– Os Homens que Não Amavam as Mulheres (Män som hatar kvinnor, Suécia, 2009)
Direção: Niels Arden Oplev
Elenco: Noomi Rapace, Michael Nykvist, Peter Andersson, Sven-Bertil Taube
Duração: 152 minutos

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