Hora de Voltar

02/08/2005 | Categoria: Críticas

Zach Braff estréia como ator, roteirista e diretor em filme jovem e inteligente, mas imperfeito

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

Relações familiares problemáticas costumam fornecer bom material para a confecção de filmes que trabalhem na interseção das duas vertentes clássicas da dramaturgia ocidental. Chame esse subgênero de drama cômico ou comédia dramática, o resultado é sempre a utilização do riso para a abordagem crítica, ainda que bem-humorada, dessa célula social que entra no século XXI em crise crescente: a família. Em “Hora de Voltar” (Garden State, EUA, 2004), o roteirista, diretor e ator estreante Zach Braff faz a sua declaração sobre o tema. Seu filme tem o frescor e a espontaneidade de um estreante de talento, embora exiba também uma dose de pretensão que deixa sérias rusgas em um trabalho, antes de tudo, antenado com a geração à qual pertence o autor.

Na cena mais importante de “Hora de Voltar”, o ator desempregado Andrew Largeman (Braff) visita uma cenário improvável, acompanhado de dois amigos. Trata-se de uma pedreira no meio de uma cidade. Trata-se de um buraco rochoso que parece não ter fim, com um antigo barco inativo pendurado em uma das beiradas. Na embarcação vive o vigia do lugar, que tem a família perfeita de Zach Braff: um homem feliz e amoroso, uma mulher bonita e simpática, e um lindo bebê que os dois ninam com carinho insuspeito. A cena funciona como um pequeno resumo do filme inteiro: estranho, único, bonito, que tenta esconder sua pretensão sob humor de ótimo nível, recitado em tom menor e espalhado diálogos recitados com espontaneidade.

Largeman é um rapaz de 26 anos que vive em Los Angeles e retorna à cidade natal, a pequena Garden State, para o funeral da mãe. Já se vão nove anos que ele caiu na vida. E a vida parece não lhe ter feito muito bem. Ao rever os amigos de infância e aparecer numa festa, Largeman fuma maconha, toma um ácido e, à visão de lindas garotas peladas, não consegue fazer muito mais do que revirar os olhos em curiosidade. Estamos diante de um indivíduo frio, distante, apático. Logo vamos saber que o problema dele é que, desde os 10 anos, o rapaz se entope de lítio e outros medicamentos antidepressivos, a mando do odiado e temido pai, Gideon (Ian Holm), que atua também como psiquiatra dele.

O encontro com a esfuziante Sam (Natalie Portman, mais uma vez sensacional) marca o início de um casal aparentemente incompatível que funciona às mil maravilhas. Longe dos remédios pela primeira vez em anos, Largeman se deixa seduzir pela adorável esquisitice da menina, com suas mentiras inofensivas e postura calorosa e emotiva diante da vida. A empatia é forte e imediata. Rende cenas sensíveis, como o enterro do porquinho-da-índia de Sam. E também cenas pretensiosas e desnecessárias, como o histérico momento em que Andrew, Sam e o amigo Mark (Peter Sarsgaard) entram em um hotel, em câmera lenta, enquanto uma canção pop “fofa” ecoa nos alto falantes a todo volume. Pergunta: para quê a câmera lenta? Se não tem função narrativa, não devia estar ali. Ponto.

Há um forte senso de romantismo à moda antiga na maneira como Zach Braff, o diretor, nos apresenta a esses personagens melancólicos e divertidos. Seu filme dialoga com outras obras que dissecam a família norte-americana sob esse mesmo ponto de vista jovem, pop, verborrágico e divertidamente tristonho. Wes Anderson (“Três É Demais”) e Sofia Coppola (“As Virgens Suicidas” ) vêm à mente. Os dois gostam de entrar no mundo das famílias de garotos esquisitos e sensíveis que caminham pelas ruas como antenas de radar procurando um norte. Zach Braff também – e usa trilha sonora agridoce abundante, como seus dois colegas, para sublinhar a ação com mini-videoclipes. Truque típico de diretor jovem, certo?

“Hora de Voltar” bateu ponto nos eventos alternativos do cinema independente norte-americano, como Sundance, e foi muito elogiado. A espontaneidade é uma qualidade flagrante neste filme pequeno, de US$ 2,5 milhões, e o elenco jovem está muito à vontade. Os diálogos são bons, mais densos e profundos do que qualquer arrasa-quarteirão da temporada, embora um pouco desiguais. Observe, por exemplo, a bela seqüência em que a mãe de Sam solicita um abraço a Largeman, enquanto a menina, embaraçada, quase se esconde atrás do sofá; veja como ele se delicia com a chance de um contato físico carinhoso e abraça de verdade a mulher, e não apenas como um ato canhestro a fim de fugir do constrangimento. Há um punhado de grandes cenas minúsculas como essa, quase todas envolvendo Andrew, um personagem realmente sólido.

Por outro lado, a cena que deveria funcionar como o clímax emocional de “Hora de Voltar”, e que ocorre em cima de um trator e embaixo de tempestade, é de uma obviedade flagrante, que não combina com a sutileza da seqüência citada no parágrafo anterior. Há um punhado de momentos assim. OK, é natural. Devemos lembrar que este é o primeiro longa-metragem do rapaz, que mostra desenvoltura com as palavras e uma inteligência acima do normal para desenvolver enredos incomuns. Ele voa abaixo do radar de Hollywood, mas ainda tem dificuldade para perceber o que funciona e o que deveria ser deixado de fora (a cena da camisa igual ao papel de parede do banheiro poderia tranqüilamente sem eliminada, sem prejuízo).

Tudo isso é perdoável em um filme que toca em assunto relevante para a geração do diretor. O que não é perdoável é o desperdício de um ótimo ator veterano, como Ian Holm, que aparece em três curtas cenas (e, na última delas, a decepcionante conversa franca entre pai e filho pela qual aguardamos durante todo o filme, praticamente não encontra argumentos para rebater as palavras ditas pelo filho, algo inadmissível para um personagem de quem é dito ter personalidade forte) e depois some sem deixar vestígios.

Em resumo, “Hora de Voltar” é um filme para jovens, que encontra seu público naqueles que se identificam com o protagonista – e eles não são poucos, e a identificação bate forte, e para essa turma estamos falando de uma pequena obra-prima acima de problemas estruturais – mas ainda se ressente de maturidade. Algo que deve aparecer aos poucos na obra de um diretor/ator/roteirista promissor.

O DVD da Buena Vista tem uma grande quantidade de extras. Um documentário de bastidores (27 minutos) é o item principal do pacote. Dezesseis cenas cortadas (com comentários do diretor), erros de gravação (3 minutos) e dois comentários em áudio (um com Zach Braff e Natalie Portman, e outro com o diretor, o montador, a designer de produção e o fotógrafo) completam o pacote. O filme tem áudio em Dolby Digital 5.1 e imagem com o corte original (widescreen anamórfico).

– Hora de Voltar (Garden State, EUA, 2004)
Direção: Zach Braff
Elenco: Zach Braff, Natalie Portman, Peter Sarsgaard, Ian Holm
Duração: 109 minutos

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