Hora do Show, A

01/10/2003 | Categoria: Críticas

Spike Lee produz o mais violento – e mais inteligente – libelo anti-racista da carreira

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Contraditório, exagerado, polêmico, obsessivo. Qualquer um desses adjetivos descreve bem a fama do diretor novaiorquino Spike Lee, um dos mais radicais cineastas da atualidade. Envolvido desde o início da carreira com a causa negra e com movimentos políticos nos EUA, o diretor pavimentou uma carreira respeitável com filmes ousados como “Faça a Coisa Certa”, um dos mais violentos libelos anti-racistas já produzidos na América do Norte. Acredite: “A Hora do Show” (Bamboozled, EUA, 2000) consegue ir ainda mais longe na violência do discurso.

Não foram poucos os que acharam que Spike Lee exagerou. Pressentindo a polêmica do décimo-quinto filme do cineasta negro desde o princípio, muitos estúdios de Hollywood disseram não ao projeto. O roteiro passou de mão em mão e somente a pequena New Line, da sempre corajosa Miramax (curiosamente, a mesma produtora da futura e milionária trilogia “O Senhor dos Anéis”), topou a parada. Mesmo assim, para fazer o filme, Spike teve que contar com a boa vontade dos atores e acabou tendo que reduzir o orçamento para menos de US$ 10 milhões. Como era uma obra de tom experimental, ele optou também por filmar todas as imagens com câmeras digitais, que são mais baratas, já que o fato do equipamento prescindir da película reduz a zero os custos com revelação de negativos. Essa decisão se reflete na qualidade técnica: o filme tem imagem levemente granulada, sem profundidade e com uma palheta de cores fracas, meio lavadas.

Só que esse detalhe pouco importa no resultado final. A força de “A Hora do Show” está na violência do discurso, na reflexão alucinada que o diretor nos obriga a realizar durante os 135 minutos da obra. Spike Lee está à margem de Hollywood porque se recusa a fazer o jogo dos estúdios cinematográficos. É um cineasta engajado e militante. Seu novo filme incomoda porque não põe respostas fáceis na boca do espectador. Spike Lee expõe o problema racial, opina sobre ele, toma uma posição e obriga o espectador a fazer o mesmo.

O enredo de “A Hora do Show” pode parecer simples no primeiro momento, mas passa longe disso. Tudo começa quando uma rede de TV vê o ibope dando traço. Desesperado por uma atração que atraia anunciantes, o executivo da rede (Michael Rapaport) faz uma ameaça velada ao roteirista Pierre Delacroix (Damon Wayans), um negro culto, que estudou em Harvard e é considerado o gênio criativo da equipe. Ele quer um programa para atrair a audiência dos negros.

Irritado com o jogo de intrigas e poder nos bastidores da emissora, Pierre bola um plano para ser demitido. Ele cria um programa inspirado nos espetáculos mambembes estilo black face que existiam nas primeiras décadas do século XX, onde os atores pintavam o rosto de preto para fazer o papel de negros. Muitas obras da fase inicial do cinema foram feitas com base nesse estilo. O programa carrega explicitamente no texto politicamente incorreto, reforçando o estereótipo do negro preguiçoso.

Para estrelar o programa, o roteirista põe a dupla de vagabundos que sapateia em troca de moedas na frente do prédio da TV, liderando uma trupe de coadjuvantes. O cenário? Uma plantação de melancias no sul dos EUA, justamente a região mais racista do país. Em resumo, é tudo de um exagero atordoante. Delacroix aposta, claro, num fracasso retumbante, mas o que ocorre é o contrário. E o megasucesso inesperado joga tudo de cabeça para baixo.
A tese encampada por Lee tem inspiração direta do trabalho do historiador Donald Boogle. Na década de 1990, ele publicou um estudo, intitulado “Toms, Coons, Mulattoes, Mammies & Bucks – An Interpretative History of Blacks in Americans Films” (algo como “Uma História Interpretativa dos Negros nos Fimes Americanos”), para provar que Hollywood continuava tão racista quanto no início do século. Pela tese de Boogle, os negros só têm vez na indústria do entretenimento se estiverem encaixados em um dos estereótipos tradicionais. O atual discurso politicamente correto, para o pesquisador, apenas maquiou e suavizou o racismo, jogou-o embaixo do tapete.

Dessa vez, a metralhadora verbal de Spike Lee não poupa ninguém. Ele não está falando apenas da TV, claro: é o meio artístico como um todo que lhe interessa. Lee ainda aproveita para jogar na cara dos ‘brothers’ que os negros contribuem para perpetuar o preconceito, quando aceitam passivamente o papel secundário que a indústria do entretenimento reserva para eles. O tom permanente de ironia politicamente incorreta ainda é reforçado pela interpretação irritada de Damon Wayans, que acerta no tom agressivo do protagonista Delacroix.

Do ponto de vista técnico, o filme de Spike Lee é irregular. O desenvolvimento dos personagens não é muito claro e há quem se confunda ao tentar seguir o raciocínio tortuoso do roteirista de TV. Mas tudo isso acaba funcionando a favor da idéia orginal, porque justo no momento em que o espectador começa a se sentir confortável, o cineasta imprime uma reviravolta radical nos rumos da trama e na maneira de agir de cada personagem.

A fúria irônica dos primeiros 90 minutos se esvai depois que o programa faz sucesso. Nesse momento, o ritmo do filme muda radicalmente e o espectador experimenta a sensação de estar tão perdido quanto o protagonista. No final do filme, quase documental, o cineasta dispensa as palavras e martela com força sua tese na mente do espectador. Pode-se concordar ou não com a obra, mas uma coisa é certa: a ousadia e a coragem de sujeitos raros como Spike Lee fazem falta em Hollywood. Mais filmes como esse e o cinema norte-americano poderia, quem sabe, voltar a ser visto como uma forma artística válida. O DVD tem apenas o filme, sem qualquer extra.

– A Hora do Show (Bamboozled, EUA, 2000)
Direção: Spike Lee
Elenco: Damon Wayans, Savion Glover, Jada Pinkett-Smith, Michael Rapaport
Duração: 135 minutos)

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