Horror em Amityville

04/01/2006 | Categoria: Críticas

Remake de filme macabro de 1979 é verdadeira metralhadora de sustos sem enredo consistente

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★☆☆☆

Não existe teste melhor, para um filme de horror, do que uma exibição em cinema com sala cheia. As reações da audiência são subjetivas, mas coletivamente dizem mais a respeito do filme do que qualquer observação pessoal. As pessoas ficam agitadas ou em silêncio? Prestam atenção ou ficam dispersas? As garotas agarram o braço do namorado e tapam os olhos com as mãos? No caso específico desse gênero, as respostas a essas perguntas indicam a eficiência, ou não, de uma obra. Via de regra, um bom filme é aquele que levanta, de quando em quando, um murmúrio coletivo, mas na maior parte do tempo mantém as pessoas quietas, atentas e com os dedos crispados em constante tensão. “Horror em Amityville” (The Amityville Horror, EUA, 2005) é um exemplo de filme que não causa nada disso, a despeito dos sustos abundantes que prega no espectador.

A produção é uma refilmagem do longa-metragem de 1979, lançado no Brasil como “Terror em Amityville”. O projeto é uma cria da Platinum Dunes, produtora do cineasta Michael Bay, que tem se especializado em remakes de filmes obscuros (ou não) de horror feitos na década de 1970. A produtora foi responsável, entre outros, pelo mais recente “O Massacre da Serra Elétrica”. Assim, depois de fazer uma visita ao filão dos filmes com assassinos sádicos empunhando machadinhas, a Platinum Dunes agora põe as mãos em outro filão lucrativo: o filme de casa mal-assombrada. E entrega um produto de estilo idêntico, embora o homem no comando da produção seja outro, o iniciante Andrew Douglas.

“Horror em Amityville” começa com uma mentira que retira a credibilidade do projeto: uma tela negra com a frase “baseada em fatos reais”. O recurso, usado para meter medo nas pessoas da maneira mais fácil, tenta fazer o público acreditar que os eventos mostrados na tela realmente aconteceram. Não é bem assim. Os fatos narrados no livro do escritor Jay Anson, em que o casal George e Kathy Lutz contam os eventos que viveram durante uma temporada de 28 dias na casa, não têm nenhum tipo de comprovação científica.

O tal livro vendeu muito, virou best seller e transformou a sinistra mansão na casa assombrada mais famosa do mundo. Mas o filme de 2005 recria completamente esses eventos. Nesse sentido, o longa original de 1979 era muito mais fiel ao relato dos Lutz, que por si só já era bastante suspeito. O roteirista Scott Kosar, responsável pela nova versão, não fica contente apenas em criar novas cenas que são inteiramente fictícias, como o episódio que envolve uma baby-sitter das crianças Lutz. Ela chega até mesmo a elaborar uma extravagante teoria, chupada dos filmes da série “Poltergeist”, para explicar as assombrações que habitam a mansão.

Não há dúvida de que o diretor Andrew Douglas fez o dever de casa direito. Aficionados do cinema de horror vão reconhecer referências a alguns clássicos do gênero (algumas explícitas, outras nem tanto), como “O Iluminado”, o que mostra que ele foi fundo na pesquisa do subgênero que mostra eventos sobrenaturais em casas assombradas por espíritos malignos. Mas de que serviu esse esforço? Não serviu para nada, se a mais óbvia lição não foi aprendida: os melhores filmes de horror capricham na atmosfera sombria, preferindo sugerir a mostrar em detalhes, e sabem dosar os sustos, para valorizá-los.

Não é o que acontece em “Horror de Amityville”. O filme tem apenas 90 minutos, mas é uma verdadeira metralhadora de sustos. Douglas conhece todos os truques para fazer um espectador pular na cadeira: cortes rápidos, súbitas alterações de volume na trilha sonora e por aí afora. E usa todos eles sem nenhuma cerimônia, martelando susto após susto após susto, sem pausa para respirar. O resultado dessa técnica é que o melhor momento da projeção acontece logo nos primeiros 10 ou 15 minutos, quando ainda é possível ver as pessoas tensas, de olhos arregalados (ou fechados). Mas são tantos sustos que, aos poucos, a audiência vai acostumando, até que os momentos assustadores viram rotina e não assustam mais ninguém.

A história? Bem, o longa-metragem começa com um prólogo, mostrando os acontecimentos de uma noite de novembro de 1974, quando um rapaz matou os pais e quatro irmãos a tiros de rifle, dentro da mansão. Depois, narra o período de 28 dias em que George (Ryan Reynolds) e Kathy (Melissa George) viveram no lugar, com os três filhos dela. Os eventos se passam em 1975, mais ou menos um ano após o prólogo, e ninguém precisa esperar muito para tomar o primeiro susto, uma vez que Andrew Douglas revela, logo na primeira noite da família Lutz dentro da mansão, o fantasma de uma criança que se torna “amiga” da filha mais nova de Kathy. A partir daí, você já sabe, é susto atrás de susto.

A ambientação do filme é correta. O filho mais velho de Kathy, por exemplo, usa em boa parte do longa-metragem uma camiseta com a estampa do álbum de estréia do Kiss, sendo que o disco havia sido lançado no ano anterior. Além disso, a sinistra arquitetura da mansão – que parece o rosto de um demônio, com duas janelas triangulares formando um amedrontador par de olhos no primeiro andar, e uma porta larga parecendo uma boca pronta para engolir a família inteira – ajuda a dar medo.

Esses detalhes funcionam a favor do filme, mas são estragados pela insistência do diretor em inserir imagens aterrorizantes (homens descarnados de rostos monstruosos que vomitam sangue, pessoas com rostos de demônios, fantasmas, vultos, objetos de movendo sozinhos) em praticamente todas as cenas. É um erro que deixa evidente a fragilidade do roteiro de Scott Kosar, pois o texto não inclui seqüências para desenvolver os personagens. Além disso, da forma como foi montado, o filme isola os Lutz dentro de uma mansão, e não proporciona qualquer contexto social à família. Todos esses são erros sérios para quem procura, além de sustos, uma história dentro do filme.

Todos sabem que quando a platéia se envolve com os personagens, os sustos ficam mais eficientes. Mas quem é, afinal, George Lutz? No início do filme ele diz que é empreiteiro, mas como um empreiteiro pode trabalhar sozinho e no porão da própria casa? E quanto a Kathy? Ela não trabalha? Por que a mãe dela tem aversão ao marido, como fica evidente quando ele atende a um telefonema da sogra? Por que as crianças não vão à escola? Todas essas perguntas permanecem em aberto, ao final do filme. E nenhum filme que deixa tantas perguntas sem respostas merece ser chamado de bom.

O DVD nacional é um lançamento da Buena Vista. A qualidade técnica é boa: imagem com enquadramento correto (wide 2.35:1) e som de boa qualidade (Dolby Digital 5.1 em inglês e português). Como extra, uma galeria de cenas cortadas com comentários do diretor.

– Horror em Amityville (The Amityville Horror, EUA, 2005)
Direção: Andrew Douglas
Elenco: Ryan Reynolds, Melissa George, Jesse James, Jimmy Bennett
Duração: 90 minutos

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