Horton e o Mundo dos Quem

01/10/2008 | Categoria: Críticas

Estúdio Blue Sky cria fábula sobre o preconceito baseada em história do contista Dr. Seuss

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

A Santíssima Trindade da animação computadorizada contemporânea inclui três pequenas empresas norte-americanas, cada uma delas distribuída por um grande estúdio. Contrapondo os nomes dessas empresas à analogia cristã, teríamos a Pixar (Disney) no papel do Pai e a PDI (DreamWorks) como o Filho. Já a nova-iorquina Blue Sky (Fox) entraria na equação como o Espírito Santo dos desenhos animados atuais. O conceito encaixa com perfeição: a Blue Sky é a mais enigmática e menos conhecida das três, além de tem menos prestígio. “Horton e o Mundo dos Quem” (Horton Hears a Who!, EUA, 2008) consiste em uma tentativa esforçada da empresa para assumir uma posição mais consistente no universo dos filmes de longa-metragem para crianças.

A falta de prestígio técnico da Blue Sky, que tem no cineasta brasileiro Carlos Saldanha um dos principais expoentes, está mais ligada às narrativas requentadas dos seus filmes que à qualidade da animação em si. As produções mais conhecidas da empresa – a franquia “A Era do Gelo” – possuem um público largo e fiel, e o personagem do esquilinho alucinado faz crianças e adultos do mundo inteiro cair na gargalhada. Apesar disso, a Blue Sky ainda não conseguiu emplacar um longa-metragem inteiramente bem-sucedido, daqueles que alcançam aclamação unânime da crítica e uma bilheteria acima dos US$ 200 milhões. Daí o projeto ambicioso de “Horton e o Mundo dos Quem”, que reelabora pela primeira vez, numa animação computadorizada, o universo fantástico de Dr. Seuss, o mais conhecido (e amado) autor de livros infantis dos Estados Unidos.

Dirigido pelos estreantes Jimmy Hayward (animador veterano da Pixar, aqui pela primeira vez no comando de um longa) e Steve Martino, o filme é uma parábola contra o preconceito. Conta a história de Horton, um elefante sensível de orelhas enormes – qualquer semelhança com o “Dumbo” da Disney não é mera coincidência – que trabalha como instrutor infantil para animais da selva e vive feliz. Certo dia, ele imagina ter ouvido uma voz vindo do interior de uma flor. Investigando, acaba descobrindo uma cidade inteira de bichos microscópicos, construída sobre um grão de poeira. Temendo pela sorte da comunidade, Horton decide levar a flor para o topo da montanha mais alta da selva, onde os animais aparentemente invisíveis poderão ficar a salvo de ameaças do reino animal (“uma pessoa é sempre uma pessoa, não importa o tamanho”).

Horton consegue estabelecer um diálogo com o prefeito da cidade dos seres microscópicos, através de um sistema improvisado de alto-falantes, mas ambos têm problemas para convencer seus pares sobre a existência da outra parte. Na jornada, o elefante enfrenta ainda a ameaça de uma irada mamãe-canguru, para quem nenhuma voz pode ser levada em consideração se não vier de alguém visível. Como de hábito, a aventura do elefante inclui um par de seqüências de ação estilo montanha-russa, lições de moral (inclusive sobre preservação da natureza) e um clímax previsível. Trata-se de uma produção típica da Blue Sky, em que o ponto forte da produção não está na história, excessivamente derivativa, mas nos personagens excêntricos – não seria exagero ver alusões à sexualidade ambígua de alguns personagens, como o protagonista e o filho do prefeito de Quemlândia.

A qualidade da animação é muito boa. Se não chega aos requintes de excelência alcançados pela concorrente Pixar em “Ratatouille” (2007), a Blue Sky faz um excelente trabalho com cores e texturas difíceis de reproduzir em computador, como a água. Dentro deste aspecto técnico, o design de Quemlândia ganha destaque especial. O universo surreal de Dr. Seuss ganhou uma personificação visual impressionante em todos os níveis, incluindo as criaturas vivas (perceba como a aparência da raça que habita a cidade microscópica é semelhante aos desenhos do livro original de 1954), a arquitetura com toques orientais e o trabalho com cores fortes, quentes e básicas. A seqüência que mostra Horton dentro de um campo de flores é outro ponto forte.

O trabalho de edição, favorecido pela curta duração, também é digno de nota, já que intercala a ação dramática em dois universos distintos com muita clareza e sem perder a dinâmica acelerada, uma característica dos trabalhos da Blue Sky. Convém não esquecer, ainda, que o público-alvo de “Horton e o Mundo dos Quem” é formado por crianças de idade inferior àquelas a quem se destinam os filmes da Pixar e da PDI. Para os adultos, isto pode significar um enredo previsível demais, resultado certamente esperado pelos produtores do longa. O truque é simples: quando a trama parecer meio boba ou enfadonha, concentre-se nas crianças que vêem o filme. A reação delas vai lhe mostrar que este trabalho é mais eficiente do que parece.

A edição nacional do DVD, da Fix Filmes, traz o filme com enquadramento original preservado (widescreen anamórfico), boa qualidade de áudio (Dolby Digital 5.1) e um monte de extras. Há comentário em áudio dos diretores, cenas excluídas, um curta metragem (com o personagem Sid, de “A Era do Gelo”) e um documentário em nove partes enfocando todas as etapas da produção.

– Horton e o Mundo dos Quem (Horton Hears a Who!, EUA, 2008)
Direção: Jimmy Hayward e Steve Martino
Animação (vozes de Jim Carrey e Steve Carell)
Duração: 88 minutos

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