Hotel Ruanda

08/12/2005 | Categoria: Críticas

História verídica sobre massacre no país africano rende filme tenso, emocionante e bem realizado

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

De certa forma, as guerras tribais que assolam o continente africano, de tempos em tempos, têm um componente ainda mais assustador e repugnante do que o Holocausto. O massacre que custou a vida de seis milhões de judeus, durante a II Guerra Mundial, foi durante todo o conflito um rumor que o mundo não sabia ao certo se era verdade. Não é o caso da guerra civil que explodiu em Ruanda, em 1994. Câmeras de TV registraram o massacre de 800 mil membros da tribo Tusti, cometido pelos rivais da tribo Hutu. As nações ocidentais sabiam de tudo, mas preferiram silenciar e não intervir. Esta é a denúncia que “Hotel Ruanda” (Hotel Rwanda, Inglaterra/Canadá/Itália/África do Sul, 2004), o filme de Terry George, deseja fazer. E consegue.

“Hotel Ruanda” não documenta o massacre, mas usa-o como pano de fundo para a história de um homem: o gerente de hotel Paul Rusesabagina (Don Cheadle). Paul ficou conhecido, após a guerra civil terminar, como o Oskar Schindler africano – uma descrição perfeita. Ele foi responsável direto pelas vidas de 1.200 tutsis, que hospedou durante algumas semanas dentro do hotel de quatro estrelas que gerenciava na capital do país, Kigali. Às custas de subornos a autoridades militares, amizades influentes e telefonemas desesperados, Rusesabagina conseguiu erguer uma barreira invisível em torno do hotel Des Mille Collines, transformando-o em um campo de refugiados improvisado.

Paul é um homem prático. Sempre arrumado e organizado, ele sobrevive e salva inocentes do massacre fazendo aquilo que sabe melhor: sendo um gerente de hotel, negociando a cada situação, blefando quando necessário, sabendo quando sorrir e quando rosnar, quando falar grosso e quando fazer reverência. “Hotel Ruanda” é bom cinema, que tem seus pontos fortes na construção dos personagens, ainda que escorregue aqui ou acolá em clichês desse tipo de drama humanitário que Hollywood adora premiar. Não é à toa que Don Cheadle, um excelente ator que jamais havia tido a sua chance grande, abocanhou uma indicação ao Oscar, fato conseguido também por Sophie Okonedo, que interpreta Tatiana, a esposa do gerente. Tatiana e toda a família dela são membros da tribo tutsi, enquanto Paul Rusesabagina é hutu.

O filme dramatiza muito bem a situação e tem personagens bem desenvolvidos, a exemplo do coronel Oliver (Nick Nolte), oficial da ONU que está no país com uma tropa diminuta, mas não consegue manter a paz e recebe a dura missão de explicar ao tutsi que os países ocidentais não têm intenção de mandar ajuda. Melhor ainda é o general Augustin Bizimungo (Fana Mokoena), o corrupto chefe de polícia de Kigali, um homem que pode ser amistoso e generoso, desde que seja devidamente bajulado. O roteirista Keir Pearson visitou Ruanda, viu o massacre e aprendeu a lição. Ele consegue traduzir as complexas causas do conflito sem a necessidade de criar diálogos muito longos, o que tiraria o ritmo do longa-metragem.

Mesmo com mais de duas horas, “Hotel Ruanda” consegue manter a tensão durante toda a duração e é um excelente exemplo do caos que toma uma cidade durante uma guerra. Em vários momentos, o espectador sente que Rusesabagina está isolado, que a proteção do hotel é na verdade inexistente e que tudo não passa de um grande blefe, mas esse é o horror da guerra – as pessoas não pensam com clareza, a violência nubla as mentes de carrascos e vítimas, e o mundo parece não ter mais dignidade. Ainda que termine da forma mais banal e melodramática possível, “Hotel Ruanda” cumpre o papel de denunciar a omissão do Primeiro Mundo em um dos mais horríveis genocídios dos anos 1990 – uma prova de que crimes contra a Humanidade, como o Holocausto, não estão relegados a um passado distante, como muita gente parece querer acreditar.

Há um diálogo fortuito, no meio do filme, que explicita a verdadeira intenção de Terry George em “Hotel Ruanda”. Ele é travado entre Rusesabagina e Jack (Joaquin Phoenix), cinegrafista estrangeiro de TV que está hospedado no hotel e tenta documentar o massacre. Jack acabou de filmar cenas dantescas de integrantes de milícias hutu matando tutsis a facadas, e pede desculpas a Paul por tê-lo deixado ver aquilo. “Não se desculpe, estou feliz porque as imagens serão vistas por milhões de pessoas no Ocidente, que virão interromper a matança”, responde Paul. “Acho que não”, reflete Jack. “Ninguém vai vir. Depois de ver as mortes na TV, as pessoas vão jantar”. Se você não se sentir um pouco culpado depois de ouvir essa verdade, é melhor marcar uma consulta com o médico mais próximo.

O DVD da Imagem traz o filme com imagem cortada nas laterais (fullscreen 4×3) e som Dolby Digital 5.1. Entre os extras, dois documentários chamam a atenção, um enfocando os bastidores da produção e outro mostrando o retorno do verdadeiro Paul Rusesabagina aos locais onde a ação do filme se passa. Galeria de fotos e trailer completam o disco.

– Hotel Ruanda (Hotel Rwanda, Inglaterra/Canadá/Itália/África do Sul, 2004)
Direção: Terry George
Elenco: Don Cheadle, Sophie Okonedo, Nick Nolte, Joaquin Phoenix
Duração: 121 minutos

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