Houve Uma Vez Dois Verões

22/12/2004 | Categoria: Críticas

Filme de praia de Jorge Furtado captura cotidiano dos adolescente brasileiros

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

À primeira vista, “Houve Uma Vez Dois Verões” (Brasil, 2002) parece um filme bobo, convencional, sem nada que chame muito a atenção. Talvez tenha sido exatamente essa a intenção de Jorge Furtado, diretor e roteirista responsável pela produção. Conhecido como parceiro inseparável de Guel Arraes, tanto nos projetos televisivos como nos longas-metragens para o cinema, o gaúcho alçou vôo solo pela primeira vez em uma produção barata, um filme de praia que tenta capturar o cotidiano banal dos adolescentes gaúchos e atinge a mira com perfeição.

Chico (André Arteche) é um jovem de 16 anos que freqüenta a praia nos meses de férias. Ele tem um amigo inseparável, Juca (Pedro Furtado, filho do diretor), com quem vive jogando fliperama e curtindo o sol de verão. Em um dia solitário, Chico encontra Roza, com Z mesmo (Ana Maria Mainieri), uma garota que está juntando grana para viajar à Austrália, mas que pode se tornar a primeira grande paixão da vida dele. Ocorre que o relacionamento é apenas um começo de uma série de aventuras e contratempos que o rapaz vai viver nos meses seguintes.

Jorge Furtado é um cineasta tagarela. Os filmes dele são baseados em diálogos, e têm aquele ritmo veloz da televisão, algo que a gente também encontra nos filmes de Guel Arraes. Furtado filma rápido e com pouco dinheiro. Fez “Houve Uma Vez Dois Verões” em apenas 23 dias, munido de uma única câmera digital. A escassez de equipamento é compensada com bons diálogos, mas dá ao filme um visual de limitação evidente. As imagens são azuladas, frias, sem profundidade. Não há tomadas panorâmicas e nem movimentos de câmera. O longa-metragem é cru, passa um sentimento de urgência evidente. Se esses detalhes causam certo estranhamento na platéia, também contribuem para dar ao filme um ar meio documental, que casa bem com a proposta do cineasta.

Jorge Furtado quis fazer um filme de praia. Só isso. Um filme que, segundo ele, fosse honesto em apresentar a vida dos adolescentes brasileiros da maneira que ela realmente é, sem firulas. A boa notícia é que funciona. O roteiro é bacana, e tem diálogos simples e leves, que passam até mesmo a sensação de tédio que todo adolescente conhece muito bem. Quando a paixão surge na vida de Chico, ela é uma bomba atômica que o deixa cego para tudo, até mesmo para os estranhos hábitos de Rosa – e todo rapaz ou garota, novamente, sabe muito bem como as paixões de adolescência são violentas.

O sofrimento de Chico é comovente, com uma pitada de humor que alivia a barra da platéia, fazendo-a observa tudo com ar de cumplicidade e sem angústias. Além disso, a condução da trama carrega o espectador a lugares inesperados. Se o elenco novo não é perfeito, também não faz feito; Jorge Furtado entende do riscado, sabe falar sobre o mundo jovem com autoridade, e as palavras e expressões que saem das cabeças de Chico, Rosa e Juca passam a sensação de veracidade. Não soam artificiais.

Curto, eficaz e extremamente barato, “Houve Uma Vez Dois Verões” aponta para uma saída que o cinema brasileiro pode, e deve, perseguir com afinco. Se o som não é perfeito (em alguns diálogos fica bem difícil compreender a entonação das palavras) e a imagem tem problemas, o longa-metragem combate isso com vitalidade, humor e lucidez. Para assistir em casa, no DVD, é ainda melhor, pois essas limitações ficam menos evidentes. Há um documentário curto (10 minutos) de bastidores, e doze músicas completas para ouvir.

– Houve Uma Vez Dois Verões (Brasil, 2002)
Direção: Jorge Furtado
Elenco: André Arteche, Ana Maria Mainieri, Pedro Furtado, Júlia Barth
Duração: 75 minutos

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