Huckabees – A Vida É Uma Comédia

25/07/2005 | Categoria: Críticas

Comédia alucinada de David O. Russell segue estilo surpreendente do roteirista Charlie Kaufman

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Albert é um poeta e ativista ambiental que acredita em coincidências como sinais de algum evento místico. Depois de esbarrar por três vezes consecutivas com um refugiado sudanês vestido de porteiro de hotel, em plena metrópole norte-americana, o rapaz fica convencido de que o acontecimento deve simbolizar algo importante para a sua vida. Por isso, decide procurar uma dupla de investigadores, intitulados “detetives existenciais”, a fim de descobrir o que se esconde por trás de tal coincidência. Essa é a trama que dá partida ao bizarro “Huckabees – A Vida É Uma Comédia” (I Heart Huckabees, EUA/Alemanha, 2004), peripécia cinematografica cometida pelo cineasta David O. Russell, talentoso e irreverente diretor responsável pela sátira de guerra “Três Reis”.

Russell é o mais célebre seguidor das tramas tresloucadas do célebre roteirista Charlie Kaufman. De fato, Kaufman foi o sujeito que estabeceleu esse novo gênero de filme (poderíamos chamá-lo de “comédias dramáticas surrealistas com toques de metalinguagem”) como sucesso, em 1999, com “Quero Ser John Malkovich”. Russell faz parte do time criativo que rodeia o roteirista: escalou como ator o diretor Spike Jonze (de “Malkovich”) na brilhante sátira “Três Reis”, e até fez uma ponta como ator no filme seguinte da parceria Jonze + Kaufman, “Adaptação”. Em “Huckabees”, ele tenta refletir sobre algumas das questões mais antigas a serem discutidos pela Filosofia: quem somos nós, humanos? De onde viemos? Para onde vamos?

Se a tentativa dá certo ou não, fica ao gosto do espectador. “Huckabees” é o tipo de filme que se ama ou se odeia, e é difícil ficar no meio termo. É um filme verborrágico, repleto de diálogos, com muitos personagens que se ligam das maneiras mais disparatadas ou absurdas, e tem muitos momentos de riso fácil, às vezes acompanhados de tiradas instigantes sobre as questões filosóficas acima citadas. Um dos detetives existenciais contratados por Albert, por exemplo, tem uma teoria segundo a qual tudo, no universo, está ligado por conexões invisíveis, e exemplifica a sua teoria usando um cobertor.

O elenco de “Huckabees” é um dos pontos fortes do longa-metragem. Albert, o protagonista, é interpretado por Jason Schwartzman (de “Três É Demais, filme de Wes Anderson, autor cuja influência também é possível perceber em “Huckabees”). Durante o filme, Albert faz amizade com um bombeiro, Tommy (Mark Whalberg). Os dois detetives, marido e mulher, são Bernard (Dustin Hoffman, com um penteado estilo anos 1960 hilariante) e Vivian (Lily Tomlin). A francesa Isabelle Huppert aparece com destaque no papel de Caterine, uma espécie de guru de auto-ajuda que vem a ser, na verdade, a maior rival do casal de detetives. Há ainda Jude Law e Naomi Watts, fazendo um casal da moda – ele um empresário, dono da loja Huckabees do título, e ela modelo de TV – que pode, ou não, estar conectado aos problemas de Albert. Isso se você acreditar na teoria do casal de detetives, sim?

“Huckabees” é um verdadeiro moto-contínuo de idéias. A impressão que se tem é que David O. Russel passou os cinco anos que separam este projeto de “Três Reis”, seu filme anterior, juntando pedaços de piadas, gags, teorias existencialistas, frases bacanas, diálogos espertos, e depois deu um jeito de enfiar tudo num só longa-metragem. Como nos filmes escritos por Charlie Kaufman, há muitas surpresas e lances desconcertantes, além de grandes cenas de comédia (o jantar na casa da família do refugiado do Sudão é especialmente engraçado). Faz falta, no entanto, um fio condutor mais firme, que una todas as cenas em um enredo mais suave, mais fácil de seguir e menos pretensioso. Sim, pretensioso. Por trás de toda a descontração e o clima de improviso, existe uma vontade nítida do filme: ser levado a sério.

Na época do lançamento nos EUA, Russell afirmou que a idéia central para o longa-metragem havia surgido após os ataques de 11 de setembro, em Nova York. O diretor diz que as pessoas passaram os três ou quatro meses seguintes mergulhados em longas discussões a respeito de temas profundos, como a origem do universo e o sentido da vida – e foi o clima frenético e alucinado dessas conversas, diz Russell, que ele quis captar. Se essa foi a idéia, o diretor acertou na mosca: frenético é a palavra exata para descrever “Huckabees”. Mas um pouco mais de despretensão não faria mal a ninguém.

O lançamento em DVD é da Fox. O corte da imagem (widescreen) foi preservado, e a trilha de áudio Dolby Digital 5.1 tem qualidade boa. E há muitos extras, entre eles um documentário (34 minutos), um featurette com entrevistas extras (5 minutos), cenas excluídas (quatro, com um total de 18 minutos), erros de gravação (3 minutos), comerciais de mentira das empresas envolvidas no filme, um clipe musical (Jon Brion) e até comentário em áudio, reunindo o diretor e os atores Jason Schwartzman e Mark Whalberg.

- Huckabees – A Vida É Uma Comédia (I Heart Huckabees, EUA/Alemanha, 2004)
Direção: David O. Russell
Elenco: Jason Schwartzman, Dustin Hoffman, Lily Tomlin, Mark Whalberg
Duração: 106 minutos

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