Hulk

20/01/2006 | Categoria: Críticas

Filme de Ang Lee apresenta técnica de montagem revolucionária e transforma o gigante esmeralda num herói trágico

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★½

A passagem do Hulk pelos cinemas não foi exatamente arrasadora, como a trajetória do gigante esmeralda no deserto de Mojave (EUA). O filme provocou muita polêmica. Alguns fãs odiaram o tom adulto, cerebral e até lento, para os padrões dos filmes de ação norte-americanos, que o cineasta Ang Lee imprimiu ao projeto. Muita gente, contudo, adorou o resultado, classificando “Hulk” (EUA, 2003) como um raro longa de super-herói capaz de agradar mais aos adultos do que aos adolescentes. Eu estou nesse segundo grupo.

O longa-metragem vinha sendo esperado com muita ansiedade depois da confirmação de Ang Lee no comando do projeto. Lee sempre foi um diretor versátil, fazendo filmes que esquadrinhavam a decadência do casamento (“Tempestade de Gelo”) ou filmando uma aventura de artes maciais com tons épicos (“O Tigre e o Dragão”). Digam o que quiserem os detratores, mas uma façanha Ang Lee conseguiu: transformou um dos filmes mais caros de 2003 (US$ 120 milhões) em uma película com toques pessoais, coerente com a temática da obra que o cineasta vem produzindo.

Para começar, Lee fez um filme claramente calcado no “Homem-Aranha” de Sam Raimi, mostrando o nascimento do herói. Outra opção, essa mais arriscada, foi de retirar do Hulk qualquer traço de heroísmo. O gigante verde é uma criatura irracional, selvagem, incapaz de atos que exijam qualquer tipo de reflexão. O Hulk de Ang Lee é uma força da natureza, que destrói tudo e todos que se põem em seu caminho. Uma metáfora para o lado animal que existe em todos nós. Nesse sentido, é um personagem trágico. Lee acerta ao acentuar esse caráter quase shakespeariano do gigante verde.

O verdadeiro tema de “Hulk” parece ser, de fato, as relações familiares deterioradas numa sociedade em que a neurose por trabalho é dominante. Essa visão de incredulidade diante da decadência da família ocidental está presente em outros trabalhos de Ang Lee e parece muito lógica, vindo de um sujeito criado em Taiwan. Não parece surpresa, portanto, que o verdadeiro vilão do filme – não um vilão no sentido tradicional – seja um workaholic que, não por mera coincidência, vem a ser justamente o pai de Bruce Banner (Eric Bana).

Banner é um cientista que pesquisa maneiras de como a radiação gama pode regenerar tecidos. Ele é ajudado por Betty Ross (Jennifer Connelly), com quem vive uma paixão mal-resolvida. Banner tem traumas de infância que voltam à tona quando o pai dele reaparece. Ao mesmo tempo, um acidente no laboratório faz com que absorva a radiação gama que pesquisa. Mas isso, ao contrário do que se poderia esperar, não o mata. Pelo contrário: lhe dá o poder (ou a maldição) de se transformar num gigante indestrutível, quando fica com raiva.

A lentidão com que a teia de relações entre os personagens vai sendo tecida, aliada à demora para que a criatura verde seja revelada, enfureceu muitos fãs, mas mostra-se uma decisão acertada. Na primeira parte da película, Ang Lee aproveita para desenvolver uma nova maneira de narrar o longa visualmente. Ele percorre várias imagens em cascata, simulando a maneira como um leitor de quadrinhos corre os olhos entre os desenhos impressos em uma página. O efeito de montagem é agil e extremamente criativo.

Quando o Hulk aparece, o filme finalmente vira um longa de ação – e não decepciona. A seqüência em que o gigante esmeralda luta contra tanques do exército norte-americano, sob o sol escaldande do deserto, é uma das mais impressionantes já vistas no cinema de ação. O Hulk dentro de cada espectador sorri satisfeito ao assistir tamanha demonstração de fúria e força bruta. A interação entre o elemento digital (o Hulk propriamente dito) e os tanques reais também é muito bem feita.

Rumo ao final, o filme acaba escorregando apenas quando tenta colocar obstáculos no caminho do verdão. Os polêmicos cães Hulk são uma tentativa de defrontar o gigante com uma força de igual calibre. Eles são até aceitáveis, mas o confronto final, com um novo supervilão, parece forçado e estridente demais para um filme que primou, até ali, pela discrição. De qualquer forma, “Hulk” examina o mundo dos quadrinhos com olhos de adultos, e o faz com absoluta competência. E isso não é pouco.

O DVD nacional do filme é duplo e, como já é tradicional nesses casos, traz uma série de documentários. No disco 1, além do filme, você pode acessar pequenos featurettes para ver os bastidores de determinadas cenas. No disco 2, três documentários se destacam: um sobre o conceito de montagem, outro que mostra a criação do Hulk digital e o último enfocando os bastidores. Há, além disso, cenas detalhadas (a briga contra os cães) e outras excluídas.

– Hulk (EUA, 2003)
Direção: Ang Lee
Elenco: Eric Bana, Jennifer Connelly, Nick Nolte, Sam Elliot
Duração: 137 minutos

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