Identidade

18/03/2004 | Categoria: Críticas

Duelo de atores talentosos empresta credibilidade ao suspense sobrenatural, cujo roteiro só derrapa na última meia hora

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

“Identidade”, o novo filme de James Mangold (de “Garota, Interrompida”) possui uma premissa tão gasta, tão clichê, que é capaz de afastar muita gente interessada em assistir a bons filmes. Quem costuma dar uma olhada no resumo da trama e decidir se vai ou não ver o filme em questão pode muito bem torcer o nariz. À primeira vista, “Identidade” dá a impressão de ser uma película de terror adolescente, como “Sexta-feira 13” ou “Halloween”. Não é o caso (ainda bem). Mesmo assim, infelizmente, cinéfilos menos informados poderiam perder um exercício de estilo inteligente, com produção bem cuidada e um grupo de atores acima da média.

A trama de “Identidade” é, de fato, uma releitura atualizada de um velho livro de Agatha Christie, chamado “O Caso dos Dez Negrinhos”. O romance, por sinal, é até citado por um dos personagens do filme, embora a escritora inglesa não apareça nos créditos. Aliás, nem precisava, porque do começo do século XX para cá, Hollywood tratou de banalizar esse tipo de enredo com produções em cascata, quase todas de nível abaixo da média. O livro de Agatha Christie põe dez pessoas isoladas em uma mansão e que começam, uma a uma, a ser assassinadas. No caso do filme, a mansão vira um motel de beira de estrada, em uma noite de tempestade.

Obviamente, a ambientação da história utiliza clichês do filme de suspense tradicional (a escuridão, trovões, lugares desertos) para gerar medo, tanto nos personagens quanto no espectador. No entanto, esses clichês são utilizados criativamente pelo diretor. O motel barato que serve de cenário, por exemplo, foi calculadamente baseado no legendário Bates Motel, de Hitchcock (em “Psicose”) – uma citação bem-vinda. Os personagens, por sua vez, possuem todos uma motivação bastante clara para se reunirem ali. Eles estão reunidos por puro acaso; pelo menos pensam assim. A tempestade isolou o grupo na estrada, deixando o motel como único lugar em que podem passar a noite.

Eles são um motorista (John Cusack) de uma estrela de cinema decadente (Rebecca de Mornay), um policial (Ray Liotta) escoltando um assassino condenado (Jake Busey), uma prostituta de mudança (Amanda Peet), um casal de noivos (Cléa DuVall e William Lee Scott), uma família com uma mulher acidentada e um atendente bizarro (John Hawkes). Um a um, os dez começam a morrer. Entre brigas e desconfianças mútuas, os dez começam a se conhecer melhor – ou melhor, nós, espectadores, começamos a conhecê-los um pouco melhor. E está aí o maior mérito do filme.

O diretor James Mangold, no primeiro trabalho de suspense da carreira, constrói uma teia de intrigas da melhor qualidade, utilizando um artifício simples, que Hitchcock adorava usar: cada personagem conhece algo sobre um outro que os demais desconhecem, e somente os espectadores são apresentados a todo o quadro. Em outras palavras, descobrimos pouco a pouco que cada uma das dez vítimas em potencial tem algo a esconder dos colegas e, portanto, poderia ser o assassino misterioso. O cineasta ainda brinca com os diferentes suspeitos que surgem no decorrer da trama, numa homenagem quase explícita aos livros da “Dama do Suspense”.

Do lado de cá da telona, o espectador acompanha o desenrolar da noite fatídica conhecendo mais fatos de que todos os personagens. Não se pode esquecer, por exemplo, que a abertura ágil e eficiente do filme ilustra as situações que levaram cada personagem a parar no motel. Sendo assim, sabemos desde os primeiros 10 minutos de projeção que um elemento sobrenatural desconhecido exerce um papel central na história. Apenas os espectadores sabem disso; os personagens passam dois terços da trama desconfiando uns dos outros, sem imaginar que uma força desconhecida age por trás de todos. Essa força, aliás, parece estar de alguma forma conectada ao destino de um misterioso serial killer, cujo psiquiatra convoca uma reunião de emergência, durante a mesma noite dos acontecimentos do motel, para tentar evitar a execução do sujeito, marcada para o dia seguinte.

Parece complicado? Bem o filme se encarrega de narrar a história em bases bastante plausíveis, durante mais ou menos uma hora. A conclusão da trama, nos últimos 20 minutos, infelizmente não segue a mesma inteligência e escorrega para uma explicação um tanto forçada, que tem tanto de surpreendente quanto de infeliz. De qualquer modo, comandado com mão firme por um cineasta ágil e econômico e contando com um elenco de boa qualidade (a dupla Cusack-Liotta definitivamente não entra em qualquer barca furada), “Identidade” surge como uma ótima surpresa para os fãs de suspenses sobrenaturais de qualidade. Se você se encaixa nesse perfil, dê um jeito de assistir a “Identidade”. Esse gênero, afinal, só costuma dar bons frutos de ano em ano.

– Identidade (Identity, EUA, 2003)
Direção: James Mangold
Elenco: John Cusack, Ray Liotta, Amanda Peet, John C. McGinley, Jake Busey, John Hawkes, Clea DuVall, William Lee Scott, Rebecca De Mornay, Alfred Molina
Duração: 90 minutos
Censura: 16 anos

| Mais


Assine os feeds dos comentários deste texto


Um comentário
Comente! »