Igual a Tudo na Vida

19/01/2005 | Categoria: Críticas

Woody Allen decepciona e praticamente decalca filme de maior sucesso que já fez

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★½☆☆

Um comediante judeu tímido, inseguro e leitor de Dostoievksi, que analisa os próprios sonhos com a ajuda de um terapeuta, vive sérios problemas conjugais com uma garota distraída e liberal, tendo como pano de fundo as maravilhosas paisagens das pontes e bosques do Central Park, em Nova York. A sinopse acima soa familiar para qualquer cinéfilo que conheça razoavelmente a obra de Woody Allen. Ela descreve muito bem a maior obra-prima do cineasta, “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa”, longa-metragem que lhe deu os Oscar de filme, direção e roteiro. Só que o filme em questão não é esse. É “Igual a Tudo na Vida” (Anything Else, EUA, 2003), uma das raras decepções que o cineasta já cometeu.

Acostumados com o fato de que os filmes mais recentes de Allen costumam reciclar, com pequenas variações, as idéias que ele pôs em celulóide durante toda a sua prolífica e coerente carreira, espectadores e especialistas não deram atenção à semelhança entre os dois projetos. Dessa vez, no entanto, Woody Allen foi mais longe do que simplesmente retrabalhar a persona cinematográfica que criou para si mesmo (o intelectual judeu inseguro, tagarela, hipocondríaco), como já havia feito em outros filmes. O diretor refez sua obra-prima, praticamente cena por cena, utilizando os mesmos personagens, as mesmas locações, os mesmos truques narrativos. A pergunta é a seguinte: um cineasta tem o direito de refilmar uma obra dele e lançá-la sem admitir que se trata de uma refilmagem?

Para perguntas complexas, respostas complexas. “Igual a Tudo na Vida” é um filme de Woody Allen com assinatura óbvia de Woody Allen. Por outro lado, a produção é tão igual (com o perdão do trocadilho) a “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa” que vira, paradoxalmente, o mais diferente filme que ele já fez. Uma bola de gude no meio das pérolas, por assim dizer. De fato, há algo de errado aqui. É esquisitíssimo, por exemplo, que a DreamWorks, estúdio responsável pelo financiamento, tenha montado todo o marketing do filme (trailers, comerciais) sem informar, em momento algum, que se trata de um filme de Woody Allen. Os dois, cineasta e estúdio, estavam em processo de divórcio quando lançaram o longa-metragem. O que leva à seguinte conclusão: ou a DreamWorks se irritou com o plágio dele mesmo, ou Woody sabotou a si próprio por causa de insatisfações com o estúdio. É impossível saber. O fato é que o filme refaz uma obra-prima, cena por cena, sem admitir isso.

Jerry Falk (Jason Biggs) é o comediante inseguro que se apaixona perdidamente por Amanda (Christina Ricci), durante um concerto de jazz de Diana Krall. Ele faz caminhadas diárias pelo Central Park, e descansa nos bancos de praça do lugar, para receber conselhos de David Dobel (Allen), um neurótico de igual estirpe, só que mais experiente. Os lugares são exatamente os mesmos do filme de 1977. A maior diferença para o enredo daquele longa é que, aqui, Jason Biggs interpreta Woody Allen, e o diretor faz o amigo experiente. O diretor faz troça: na segunda cena em que os dois atores contracenam, estão usando a mesma camisa. Soa como se Allen quisesse confirmar que Jerry e David são a mesma pessoa, só que em épocas diferentes.

Como em “Noivo Neurótico”, Jerry Falk também fala diretamente para a câmera. Da mesma forma, a narrativa evita uma ordem cronológica, indo para a frente e para trás no tempo. Woody Allen utiliza tela dividida (split screen) em uma das cenas tecnicamente mais refinadas que já filmou. Praticamente decalca os cenários românticos e nostálgicos de Nova York no outono, já imortalizados no longa de 1977 e em “Manhatan”. Ele até mesmo faz o fotógrafo Darius Khondji (colaborador de David Fincher) usar uma técnica rara de fotografia que “Noivo Neurótico” inaugurou. Em algumas cenas, dois personagens são ouvidos conversando, enquanto a câmera os enfoca a centenas de metros de distância e permanece ligada, enquanto ambos vão se aproximando lentamente até pararem na frente das lentes.

Apesar de todas essas idéias recicladas, um filme de Woody Allen sempre tem pontos positivos. Como de hábito, o cineasta extrai bons desempenhos dos atores, mesmo quando o elenco não tem gente muito talentosa. O segredo de Woody Allen é que ele trabalha com textos longos e gosta de tomadas igualmente longas, sem cortes. Como não podem decorar as falas de forma literal, os atores improvisam seguindo uma linha geral. Assim, os diálogos saem deliciosamente imperfeitos, com pausas e hesitações. Os atores gaguejam, se repetem e às vezes não conseguem completar frases, como na vida real. São raros os cineastas que gostam de filmar com tanta espontaneidade. Mas só isso, em se tratando de Woody Allen, é muito pouco.

O DVD nacional é fraco. Tem imagens cortadas nas lateriais para caber no formato 4 x 3, o que prejudica a fotografia, e áudio em formato Dolby Digital 2.0. Os extras incluem apenas notas de produções e trailer.

– Igual a Tudo na Vida (Anything Else, EUA, 2003)
Direção: Woody Allen
Elenco: Jason Biggs, Christina Ricci, Woody Allen, Stockard Channing
Duração: 108 minutos

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