Ilha, A

25/11/2005 | Categoria: Críticas

Filme de Michael Bay parte de premissa interessante sobre clonagem de humanos, mas cai no lugar comum

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★½☆☆

A melhor coisa de “A Ilha” (The Island, EUA, 2005) é o meticuloso panorama do futuro, que fornece o contexto em que a história se passa e é apresentado ao espectador nos primeiros 45 minutos. Um olhar mais atento revela, no entanto, que a pior coisa do filme de Michael Bay (“Pearl Harbor”) é o mesmo panorama futurista. A sensação geral que emana é que o longa-metragem jamais consegue ultrapassar o status de cópia de luxo de outros filmes e exibir idéias originais. Ou seja, não passa de uma colagem bem-feita de conceitos retirados de outras produções de ficção científica, principalmente “TXH-1138”, estréia de George Lucas nos cinemas. Cacos de “Minority Report” e “Matrix” também podem ser encontrados no filme de Michael Bay.

Ainda assim, existem qualidades nesses primeiros 45 minutos de projeção. O enredo propõe, como ponto de partida, uma discussão interessante sobre um assunto que promete render muita polêmica nos próximos anos: a utilização de técnicas de clonagem para desenvolver órgãos e tecidos humanos (fígado, coração, rins, medula óssea), de forma a permitir transplantes sem risco de rejeição. O filme de Michael Bay leva a idéia um passo a frente ao imaginar um futuro sombrio, em que clones de milionários viveriam trancafiados em uma espécie de estufa subterrânea, esperando pelo momento de ceder órgãos para seus proprietários.

A sociedade dos clones, contudo, não sabe de nada disso. Eles pensam que são humanos normais, vivendo em ambiente fechado devido à contaminação nuclear de quase todo o planeta. Eles comem, dormem, trabalham, fazem ginástica, vão a boates e esperam por um único futuro possível: o dia em que serão sorteados na Loteria e, então, transportados para uma ilha paradisíaca, único lugar livre de contaminação, para finalmente viver ao ar livre. Essa idéia promissora, porém, é progressivamente estragada pelo uso quase literal de idéias de filmes mais ambiciosos e por uma dieta abusiva de explosões, tiros e destruição.

A trama do filme é centrada em um casal, Lincoln Six Echo (Ewan McGregor) e Jordan Two Delta (Scarlett Johansson). Ele descobre a verdade sobre a estufa de clones na mesma noite em que ela, por quem sente uma afeição maior do que o normal (os clones não conhecem os conceitos de amor e sexo), é sorteada para ir à Ilha. Como sabe que a amada vai morrer, Lincoln decide arriscar tudo para tentar uma fuga aparentemente impossível.

Após a apresentação dos personagens e do contexto em que vivem, “A Ilha” se transforma em um filme típico de Michael Bay, com explosões ensurdecedoras, muita destruição e uma sinfonia caótica de imagens editadas em velocidade supersônica; ou seja, vira um filme-pipoca típico de Hollywood. Se você costuma medir a qualidade de um filme pela quantidade de carros e prédios arrebentados em explosões e acidentes impossíveis, vai gostar da segunda parte de “A Ilha”, já que o cineasta tem um orçamento de US$ 122 milhões para torrar.

Nada do que é visto nessas intermináveis seqüências de destruição, porém, é novidade. A primeira perseguição de automóvel, por exemplo, é uma cópia de “Matrix Reloaded”. Além disso, Michael Bay tem a mania de editar como se estivesse fazendo um clipe para a MTV, e não sustenta nenhuma tomada na tela por mais de dois segundos. Assim, picada em pedacinhos, a destruição fica insossa e inverossímil. Em 2005, Steven Spielberg entendeu a idéia e, usando poucos cortes, fez muito melhor em “Guerra dos Mundos”.

Antes de partir para a correria desenfreada da segunda parte, “A Ilha” já havia ficado a desejar no quesito originalidade. À medida que o filme vai transcorrendo, e o mundo dos clones vai sendo apresentado, o espectador com alguma bagagem cinematográfica vai perceber que a equipe criativa de Michael Bay trabalhou com preguiça e, ao invés de criar regras e conceitos visuais inéditos para a comunidade futurista, preferiu compor um mosaico de referências de outras obras de ficção científica, algumas delas muito recentes.

A organização da comunidade de clones é uma cópia quase literal do visionário “THX-1138”. Amor e sexo são proibidos, não há liberdades individuais, os ambientes são limpos e assépticos, os clones usam branco (e os funcionários do lugar, preto). O herói que se rebela contra o sistema, como no filme de George Lucas, também o faz por ter se apaixonado por uma colega. A semelhança é tão grande, inclusive na parte visual, que o diretor de “Star Wars” poderia pensar, se quisesse, em um processo por plágio.

Mas nem só de “THX-1138” vive “A Ilha”. Outros filmes emprestam conceitos ao longa de Michael Bay. O nascimento artificial de clones é uma cópia quase literal de “Matrix” (indivíduos alimentados por tubos e imersos em líquido, acondicionados em grandes cápsulas transparentes). A parte tecnológica da sociedade futurista tem influência evidente de “Minority Report” (os sensores que mapeiam o cérebro de Lincoln Six Echo são semelhantes às aranhas eletrônicas, e o design dos veículos que circulavam pelas ruas da metrópole no filme de Spielberg foi copiado inteiramente).

Um problema ainda mais grave do que a falta de originalidade está no roteiro. Há sérios furos na história bolada pelos roteiristas Caspian Tredwell-Owen, Alex Kurtzman e Roberto Orci. Como explicar, por exemplo, a existência ilegal de um complexo subterrâneo de US$ 120 bilhões, enterrado no deserto do Arizona (EUA), sem que o Governo dos EUA saiba da existência do lugar? E há outra falha pior. Não é fácil explicar o problema sem revelar mais da história do que o necessário, mas o furo está exatamente na chave para compreender “A Ilha”: o pesadelo recorrente de Lincoln, que abre o longa-metragem.

No sonho, Lincoln navega em direção à Ilha em uma grande lancha, na companhia de uma mulher loura, quando é atirado ao mar por desconhecidos que o afogam. As alterações metabólicas do clone durante os pesadelos são percebidas por Merrick (Sean Bean), diretor do complexo, que o chama para uma consulta médica. Ao descrever o sonho, Lincoln desenha uma lancha e escreve uma palavra em latim, língua que não é ensinada aos clones.

O mistério intriga Merrick, que implanta sensores eletrônicos para mapear o cérebro de Lincoln e descobrir a causa do problema, peça-chave na insubordinação deste, que por sua vez dispara toda a ação mostrada pelo longa-metragem. A solução proposta pelo filme para o enigma é tão irreal e descabida que os roteiristas não tentam explicar cientificamente a idéia; ela é simplesmente jogada na mesa de Merrick, que a aceita sem maiores questionamentos – assim como se espera que nós, na platéia, também a aceitemos. Um absurdo.

Sucessivamente, outras situações implausíveis vão se acumulando, a um ponto em que fica difícil, a qualquer pessoa com bom senso, aceitar a realidade que “A Ilha” propõe. Uma dessas situações é a fuga espetacular do complexo subterrâneo, que Lincoln Six Echo e Jordan Two Delta empreendem. O próprio filme já havia mostrado antes que a vigilância eletrônica (referência óbvia ao Big Brother de George Orwell) cobre 100% do lugar, incluindo os quartos e aposentos privativos dos clones. Assim, fica realmente difícil de aceitar que duas pessoas com mentalidade de garotos de 15 anos (todos os clones são treinados para permanecer nessa idade mental, diz o filme) consigam burlar as centenas de seguranças especializados, além das câmeras de vigilância.

Em resumo, “A Ilha” jamais ultrapassa o nível mais elementar do filme-pipoca de Hollywood, que apenas descarrega quantidades exorbitantes de seqüências de ação sem exigir um mínimo de coerência narrativa. Não é um problema de elenco – todos os principais nomes oferecem desempenhos regulares –, mas sobretudo falta de criatividade e tendência à repetição. De fato, a história mostra que não seria atitude inteligente esperar algo mais do que um filme burocrático das mãos de um diretor burocrático. E Michael Bay confirma, mais uma vez, que não vai além disso.

O DVD da Warner é simples. O formato de imagem é preservado (wide anamórfico 16×9), o som é OK (Dolby Digital 5.1) e os extras incluem documentário de bastidores e cenas cortadas.

– A Ilha (The Island, EUA, 2005)
Direção: Michael Bay
Elenco: Ewan McGregor, Scarlett Johansson, Djimon Hounsou, Sean Bean
Duração: 136 minutos

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