Ilusão Perdida

26/09/2005 | Categoria: Críticas

Devastação e paranóia do pós-guerra fornecem cenário improvável a simpática comédia romântica

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Eis uma curiosidade que mostra como a vida em meados do século XX era diferente. Ao contrário do que muita gente pensa, ostentar um nome de prestígio em Hollywood não deixou ninguém de fora da II Guerra Mundial. Uma razoável quantidade de grandes diretores norte-americanos e ingleses, como John Ford e Alfred Hitchcock, foi convocada e trabalhou no conflito, registrando em documentários o horror das trincheiras e campos de concentração. O projeto do cineasta George Seaton talvez tenha sido o mais original de todos: filmar o ambiente na Alemanha do pós-guerra como pano de fundo verdadeiro de uma história de amor fictícia. O resultado foi “Ilusão Perdida” (The Big Lift, EUA, 1950), uma improvável e simpática comédia romântica que tem a devastação e a paranóia de uma Berlim semi-destruída como cenário.

Para isso, o cineasta contou com a colaboração da Força Aérea dos EUA, que permitiu a equipe de filmagem na verdadeira cidade e colocou militares em todos os papéis secundários do filme. Seaton usou apenas quatro atores profissionais, que formam dois casais – eles são sargentos norte-americanos, elas garotas alemãs – vivendo na Berlim de 1947. Devastada pela guerra, a capital alemã ainda tentava reerguer a maior parte das construções, destruídas pelos bombardeios de dois anos antes. Além disso, estava dividida em quatro setores militares, cada um controlado por um país vencedor da guerra (EUA, França, Rússia e Inglaterra). Para completar, Stalin havia fechado as fronteiras terrestres do local, na tentativa de transformar Berlim em área exclusivamente soviética, obrigando os norte-americanos a despachar dezenas de vôos diários de aviões de carga com comida e mantimentos ao local.

É nesse cenário que encontramos o sargento Danny MacCullough (Montgomery Clift). Convocado às pressas para servir em Berlim, ele conhece logo na chegada uma alemã bonita, Frederica (Cornell Borchers). Interessado por ela, o rapaz espera semanas, dando duro no serviço militar, para conseguir uma única folga e ter a chance de ir a Berlim. A intenção é visitar a garota e, quem sabe, conquistá-la. Para isso, conta com o apoio do amigo Hank Kowalski (Paul Douglas), outro sargento da Força Aérea, que tem sua própria namorada alemã, Greta (Bruni Löbel).

Com esse fiapo de trama, Seaton criou um fascinante híbrido de documentário e comédia romântica. Em certos momentos, é visível que o diretor estava mais interessado em registrar o modo como se vivia na Alemanha do pós-guerra do que em contar uma história. Por isso, o filme tem boa quantidade de cenas que não acrescentam nada à trama principal (os longos deslocamentos de avião, por exemplo). Em termos estritamente cinematográficos, talvez fosse possível dizer que “Ilusão Perdida” é um filme irregular recheado de bons momentos. Ocorre que a situação que as câmeras de Seaton capturam é extraordinária, e o cineasta a registrou com muita competência – daí o filme ser uma experiência tão estimulante, tão diferente, tão cheia de frescor e novidade.

Se o objetivo do cineasta era mostrar como as pessoas viviam na Alemanha de 1947, ele foi cumprido com perfeição. Os espiões, o mercado negro, o preconceito de ambos os lados, a paranóia por causa das fronteiras incertas dos quatro setores de Berlim, a rigidez absurda da vida militar, tudo isso ganhou um registro impecável – e, o que é ainda mais improvável, leve e cômico. Há histórias de vida extraordinárias em “Ilusão Perdida”. Um dos coadjuvantes, por exemplo, é um alemão vive à janela, anotando os aviões americanos que pousam no aeroporto vizinho e repassando as informações aos soviéticos. Ele trava um diálogo surreal e hilariante com Danny, na primeira noite que este passa fora do quartel.

Além disso, George Seaton ainda se esmerou em mostrar o impressionante grau da destruição a que Berlim foi submetida durante a guerra. Frederica trabalha como operária da construção civil, assim como a maior parte dos berlinenses. Danny e os outros personagens passeiam por ruas com todos os prédios destruídos. O bar que os personagens freqüentam fica ao lado de uma enorme cratera de bomba. Monumentos arquitetônicos da capital alemã, hoje localizados em áreas nobres da cidade, ficam encravados em descampados que são verdadeiras terras de ninguém – é o caso da Coluna da Vitória e do portão de Brandemburgo.

Para mostrar esse panorama de destruição, o diretor se permite mais desvios de rota. Daí, a comédia que a audiência consegue extrair do filme é intercalada com cenas documentais, às vezes longas em excesso. Mas as duas partes do filme são legais, inclusive os ótimos personagens – o soldado Danny é ingênuo e idealista, Frederica trabalha duro e tem um sorriso radiante, o preconceituoso Kowalski luta contra a própria consciência e Greta desarma a todos com as verdades desconcertantes que dispara (“o que é democracia?”, ela pergunta, na cena mais engraçada do filme). Isso sem falar de alguns coadjuvantes impagáveis. Enfim, trata-se de um épico quase esquecido com grande força histórica e ótimos momentos cômicos.

O DVD da Aurora é bem simples. O filme possui o enquadramento original correto (standard 4:3) e som razoável (Dolby Digital 2.0). A edição não vem com extras, à exceção de trechos de críticas e biografias.

– Ilusão Perdida (The Big Lift, EUA, 1950)
Direção: George Seaton
Elenco: Montgomery Clift, Paul Douglas, Cornell, Borchers, Bruni Löbel
Duração: 120 minutos

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