I’m a Cyborg, but That’s OK

15/06/2007 | Categoria: Críticas

História de amor filtrada por lente autoral de Chan Wook-Park é delicada e estilizada ao extremo

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

O sul-coreano Park Chan-Wook se tornou, graças ao sucesso de “Oldboy” (2003), o nome mais conhecido internacionalmente da onda de cineastas asiáticos que invadiu o mundo do cinema desde o começo da década de 1990. Jovens e ousados, esses diretores são responsáveis por boa parte do melhor cinema autoral produzido atualmente. Embora pouco conhecido pela platéia que só sai de casa para ver blockbusters, o trabalho de Chan-Wook é acompanhado de perto por todo cinéfilo antenado que se interessa por thrillers de suspense com visual sofisticado. Em “I’m a Cyborg, but That’s OK” (Saibogujiman Kwenchana, Coréia do Sul, 2006), contudo, o sul-coreano dá uma guinada temática radical e se afasta do gênero que o consagrou.

Depois de ter feito três filmes de gênero inteligentes e intrincados sobre o tema da vingança, Chan-Wook buscou um refresco filmando uma história de amor, obviamente filtrada por uma lente autoral que se manifesta, sobretudo, no trabalho visual. Não se trata de um romance comum, mas um conto sobre loucura, uma história clássica de manicômio, um filme em que todos os personagens principais são loucos. Esta característica dá ao diretor a liberdade necessária para realizar o mais estilizado de todos os trabalhos que já dirigiu. Quem conhece a obra de Park Chan-Wook, naturalmente estilizada, sabe que isto não quer dizer pouca coisa.

Em termos de visual, o drama de manicômio aprofunda ainda mais o gosto do cineasta por composições simétricas e jogo de cores explosivas. Se no filme imediatamente anterior (“Lady Vingança”, última e mais fraca parte da citada trilogia) o sul-coreano já demonstrava um pendor quase irreprimível para o kitsch e o exagero estético, aqui ele usa a temática da loucura para soltar as poucas amarras que ainda restavam, desbundando de vez. O resultado é um filme para deixar em estado de êxtase todo mundo que curte filmes de visual extremamente estilizado. Infelizmente, o exagero é tão grande acaba dotando a obra de um tom incrivelmente artificial, datado mesmo.

Como no filme imediatamente anterior, a personagem principal é feminina. Cha (Lin Su-Jeong) trabalha numa fábrica como operária e acaba internada num manicômio após um sangrento incidente que expõe sua loucura. Ela está certa de que é um ciborgue, um robô com fios e parafusos no lugar de veias e ossos. No asilo faz vários amigos, todos doidos, cada um vivendo dentro de sua própria realidade. Bonita, ela provoca paixão fulminante em Park (Rain), ladrão boa-praça que usa uma máscara de coelho e adora jogar pingue-pongue. Percebendo que a loucura de Cha pode levá-la à morte por inanição, já que a garota se recusa a comer (um ciborgue não precisa, certo?), o rapaz decide fazer algo a respeito.

Como de hábito, Chan-Wook trabalha rigorosamente dentro das regras narrativas do gênero escolhido. Há uma série de referências visuais e temáticas a filmes como “Um Estranho no Ninho” (Milos Forman) e “Paixões que Alucinam” (Sam Fuller). Como todo filme passado dentro de um hospício, por exemplo, Park Chan-Wook não dispensa as tradicionais cenas de terapia em grupo, bem como seqüências curtas destinadas a explicar e comentar os hábitos idiossincráticos de cada personagem. Apesar de tanto loucura, a habilidade do sul-coreano no trabalho de cores acaba por imprimir ao filme um tom de otimismo e alto-astral. O uso abundante de branco (e tonalidades claras em geral) dá ao longa-metragem um aspecto ensolarado, muito diferente da textura sombria da trilogia sobre vingança. A música, etérea e doce, reforça ainda mais esta serenidade.

Por outro lado, a assinatura de Chan-Wook se manifesta no gosto pela simetria, nas cores bombásticas e nas boas seqüências oníricas, em que o filme assume o ponto de vista de Cha. Park Chan-Wook não deixa nem mesmo de incluir a já tradicional seqüência de ultra-violência, que mancha de sangue a brancura de “I’m a Cyborg, but That’s OK”, mas sem perder o bom-humor e a graciosidade. É um filme bonito, que comprova mais uma vez a capacidade que Park Chan-Wook tem de agregar espírito autoral a um projeto, mesmo gostando de trabalhar estritamente dentro das regras do gênero escolhido. Está, porém, longe da perfeição, já que os arroubos estilísticos excessivos e submetem a história à plástica, deixando evidente a fragilidade do roteiro.

– I’m a Cyborg, but That’s OK (Saibogujiman Kwenchana, Coréia do Sul, 2006)
Direção: Park Chan-Wook
Elenco: Lin Su-Jeong, Rain, Choi Hie-Jin, Kim Byeong-Ok
Duração: 105 minutos

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