Imorais, Os

24/04/2008 | Categoria: Críticas

Retrato neo-noir finamente sarcástico do vazio moral típico de quem habita o universo dos escroques profissionais

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

Los Angeles, sol, palmeiras. Bares, cigarros, uísque. Trapaceiros de óculos escuros. Sombras e fumaça de cigarros. A iconografia visual do gênero noir é um das maneiras mais simples e eficientes de representar, visualmente, o ambiente de decadência e ambigüidade moral que caracteriza a história de “Os Imorais” (The Grifters, EUA, 1990). O filme que elevou o cineasta inglês Stephen Frear ao primeiro escalão de Hollywood é um legítimo representante do neo-noir, espécie de subgênero dramático cuja principal característica está nas reiteradas citações paródicas aos velhos filmes B dos anos 1940 e 50.

“Os Imorais” carrega, também, as impressões digitais do veterano Martin Scorsese. O diretor oriundo de Nova York era a primeira opção da Warner, estúdio que produziu a obra, para comandar a produção. Scorsese flertou com o projeto durante alguns meses, mas estava envolvido com outros filmes e preferiu repassar o longa-metragem para outro diretor. Escolheu pessoalmente Frears, então um promissor cineasta independente cuja associação com o roteirista Hanif Kureish, inglês de origem paquistanesa, já produzira pelo menos dois bons filmes sobre o submundo dos imigrantes que vivem na periferia da capital inglesa.

Scorsese escolheu Frears porque “Os Imorais” tinha certa semelhança narrativa com “Minha Adorável Lavanderia” e “Sammy e Rose”, os dois elogiados filmes independentes que Frears realizou nos anos 1980. A película, baseada num romance de Jim Thompson, também retratava um submundo invisível aos olhos normais, apesar de existir bem na nossa cara: o universo dos trapaceiros profissionais, gente que freqüenta bares e hotéis de luxo, hipódromos e casas de apostas, e ganha dinheiro em transações obscuras que incluem lavagem de dinheiro e contrabando. Frears deu cabo da tarefa com típica eficiência londrina. “Os Imorais” é um retrato finamente sarcástico do vazio moral típico de quem habita este tipo de universo escroque.

A história gira em torno de três personagens, todos muito bem delineados pelo roteiro enxuto de Donald Westlake. Roy (John Cusack) é um vigarista medroso e não muito bom, que começa a pressentir a sorte escasseando e acha que já amealhou dinheiro suficiente para mudar de profissão. Ele tem um caso com Myra (Annette Bening), prostituta de sorriso convidativo e prestes a entrar numa faixa etária que a vai atirar de volta à sarjeta. A moça, que paga o aluguel de casa dormindo com o proprietário uma vez por mês, não tem talento para trapacear, mas sabe reconhecer um vigarista como ninguém. Myra é uma mulher desesperada. Sabe que os anos de boa vida estão no fim, e não conseguiu ainda fazer um pé-de-meia. Problemão.

O relacionamento estável da dupla é abalado com a aparição de Lilly (Angelica Huston), mãe de Roy e trapaceira profissional há décadas. Ela ganha a vida lavando dinheiro para a máfia em hipódromos. Tem a confiança e a inteligência de um vigarista graúdo, e parece muito interessada em reatar os laços emocionais com o filho, rompidos anos antes. Cada personagem deste trio tem um drama pessoal e uma razão específica para se relacionar com os outros. Um tenta enganar o outro, e a platéia nunca consegue antecipar onde esta ciranda dramática vai parar, como convém a um legítimo filme noir. O enredo, portanto, é uma espécie de triângulo amoroso torto, e investiga sem dó a nuvem de emoções dúbias que habita o submundo amoral daqueles que vivem de pequenos (e grandes) golpes.

De fato, “Os Imorais” oferece um panorama cativante do que significa viver neste universo de aparências, habitado por gente que não sabe falar nada além de mentiras, para ouvintes que sabem estar ouvindo mentiras. Um mundo de sorrisos falsos e polidez cínica. Abusando de cores quentes, sombras sugestivas e ângulos de câmera oblíquos, Frear realiza um trabalho notável. Figurinos e cenários evocam a atmosfera pesada e nostálgica dos anos 1940, mas sem deixar de ambientar a ação no presente. O visual, que recende a naftalina e coisa velha, reflete a decadência moral dos personagens, transportando-a para um presente levemente estilizado.

De quebra, o elenco se diverte a valer com o roteiro saboroso, em especial as duas atrizes. Annette Bening expressa vulgaridade a partir do contagiante sorriso falso e da expressão corporal exagerada de uma verdadeira mulher de vida fácil, enquanto Angelica Huston só precisa emprestar o porte altivo para incorporar o tom confiante de Lilly, espécie de dama fatal na terceira idade que transpira charme. John Cusack é o elo mais fraco do elenco, mas não chega a comprometer o resultado final. Com um final original, surpreendente e corajoso, Stephen Frears cria um par perfeito para outro neo-noir contemporâneo de inteligência afiada, o sexy “Corpos Ardentes”, de Lawrence Kasdan. Se puder, veja os dois em uma sessão dupla, como nos velhos tempos dos filmes noir, e se esbalde.

O DVD é um lançamento da Lume Filmes. O longa-metragem aparece com boa qualidade de imagem (widescreen 1.85:1 anamórfica) e áudio (Dolby Digital 5.1).

– Os Imorais (The Grifters, EUA, 1990)
Direção: Stephen Frears
Elenco: John Cusack, Angelica Huston, Annette Bening, Jan Monroe
Duração: 106 minutos

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