Impacto

31/03/2006 | Categoria: Críticas

Melodrama noir de Arthur Lubins traz ícones do filme de detetive, como a mulher fatal, flertando com outros gêneros

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

Uma mulher manipuladora planeja, junto com o amante, matar o marido rico e herdar a fortuna dele. Em linhas gerais, a sinopse descreve perfeitamente um dos filmes noir seminais, o glorioso “Pacto de Sangue” (1944), de Billy Wilder. A mesma história também serve de ponto de partida para o melodrama noir “Impacto” (Impact, EUA, 1949), do obscuro cineasta Arthur Lubin. A diferença é que o longa-metragem de Lubin comprime esse enredo básico em 20 minutos de filme, fazendo a história se desenrolar, a partir daí, em direções imprevisíveis, flertando com gêneros bem diferentes do noir clássico, como o drama de tribunal. O resultado revela uma produção inteligente e repleta de reviravoltas emocionantes.

Na realidade, “Impacto” busca inspiração dos filmes B de detetive, mas não faz pode ser classificado como filme noir, estando bem mais próximo do drama familiar tradicional de Hollywood. Isso pode ser atestado pela trilha sonora onipresente de Michael Michelet, que acompanha quase todos os lances da história sem os sobressaltos nervosos da música que sempre embalou os grandes exemplares do noir. Além disso, a própria visão de mundo da produção está bem afastada do cinismo desesperançado dos melhores filmes de detetive, ficando mais próxima da nostálgica ideologia “família acima de tudo” que predomina nas produções de estúdio.

Vejamos. Quando o filme começa, somos apresentados ao executivo Walter Williams (Brian Donlevy). Ele é um homem hiper-atarefado, que atende dois telefonemas ao mesmo tempo e come em lanchonetes para economizar tempo. É casado com a bela Irene (Helen Walker), a típica loira fatal dos filmes noir, uma garota traiçoeira que está planejando matar o marido com a ajuda do amante, o almofadinha Jim Torrance (Tony Barret). O plano dos dois, porém, dá errado, e Walter escapa com vida, indo parar numa pequena cidade de Idaho, apesar de ser dado oficialmente como morto. Desiludido com o adultério, ele se estabelece no lugar, trabalhando como mecânico para a viúva Marsha Peters (Ella Raines, belíssima) enquanto pensa no que fazer.

A trajetória de Walter ganha uma cuidadosa representação visual, nas mãos do fotógrafo Ernest Laszlo. Enquanto ele é um estressado e poderoso industrial, as cenas se passam quase sempre em sufocantes interiores. Já em Idaho, os cenários passam a ser abertos, ao ar livre, e sempre bem iluminados. A estratégia funciona para sublinhar uma espécie de elegia à vida simples, aos valores básicos do ser humano. Nesse sentido, “Impacto” é um filme bem conservador, o que fica ainda mais evidente à medida que a trama progride, de maneira bastante surpreendente, flertando cada vez com o melodrama.

Embora não possua o visual pesado, esfumaçado e cheio de sombras, que caracteriza os melhores filmes de detetive, “Impacto” se passa em San Francisco – uma cidade icônica para o noir – e possui algumas seqüências que chamam a atenção pela bem cuidada composição visual. Há uma cena em particular, quando Irene começa a ser seguida por um detetive desconfiado, que se destaca por dois planos muito bem orquestrados. No primeiro, quando sai de casa, ela é vista pelo reflexo do espelho do carro policial, em um elegante enquadramento dificultado pelas câmeras da época, que eram grandes e pesadas. A tomada seguinte a acompanha atravessando a rua e apanhando uma condução, ao passo que os detetives se esforçam para acompanhá-la, primeiro a pé, e depois de carro, enquanto a câmera acompanha tudo à distância, com movimentos laterais lentos e elegantes.

No entanto, apesar dos acertos visuais (que incluem um desastre de automóvel filmado com maquetes, mas bastante realista para a época), é mesmo a temática – a valorização da vida simples, a crítica à civilização e à pressão das grandes metrópoles – que termina como o maior destaque de “Impacto”. Ao optar por essa visão de mundo, Arthur Lubin estava antecipando os rumos que o melodrama em Hollywood iria tomar a partir do pós-guerra, quando de certa forma o mundo rural passou a ser encarado, por alguns, como a única solução possível para uma existência mais feliz. Nesse sentido, a visão de mundo divulgada por “Impacto” parece ser a conseqüência natural da cínica desesperança no ser humano impregnada no filme noir clássico por influência dos horrores da Segunda Guerra Mundial.

A Aurora DVD traz o filme para o Brasil em um disco simples, com cópia em bom estado, remasterizada e restaurada. O filme aparece com qualidade de imagem bem decente (no enquadramento original, 1.33:1, ou tela cheia) e som OK para um filme do período (Dolby Digital 2.0, com volume um pouco baixo, mas muito claro). Os extras incluem apenas trechos de críticas e galeria de cartazes.

– Impacto (Impact, EUA, 1949)
Direção: Arthur Lubin
Elenco: Brian Donlevy, Ella Raines, Helen Walker, Charles Coburn
Duração: 111 minutos

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