Imperdoáveis, Os

08/03/2005 | Categoria: Críticas

Faroeste realista é marco de transição fundamental na obra de Clint Eastwood

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★½

O faroeste já estava morto e enterrado, a despeito de uma ou outra paródia do gênero (como aconteceu na terceira parte da série “De Volta Para o Futuro”), quando Clint Eastwood lançou “Os Imperdoáveis” (The Unforgiven, EUA, 1992). A recepção positiva que o filme recebeu não tem a ver com um suposto renascimento do gênero, como muita gente anteviu, e sim com o surgimento de uma obra que funcionasse como canto do cisne de um tipo de filme que é, em essência, a grande contribuição norte-americana ao cinema. Muita gente que se ressentia do desaparecimento progressivo e melancólico do faroeste festejou a morte gloriosa que lhe dava “Os Imperdoáveis”.

Isso talvez explique o fato de o longa-metragem ter se tornado, no ano seguinte, o grande vencedor do Oscar, dando os troféus do diretor e filme a Eastwood, até então visto como bom cineasta, mas não excepcional. De “Os Imperdoáveis” para frente, o nome de Clint Eastwood se tornou sinônimo de bom gosto. O filme representou a guinada definitiva que o diretor, produtor e ator já vinha ensaiando há alguns anos, rumo a uma obra mais madura, mais humana. Isso sim, foi surpreendente. Críticos e cinéfilos interpretaram “Os Imperdoáveis” como o clímax da carreira de Eastwood, quando na verdade o filme apenas iniciava o ciclo mais inspirado de filmes do cineasta. Este é o maior trunfo do filme, que de certa maneira acabou se mostrando uma obra de transição e ficando apagado diante de obras-primas como “Sobre Meninos e Lobos” ou “Menina de Ouro”, que o diretor faria depois.

O personagem-chave para compreender “Os Imperdoáveis” não é um dos protagonistas, mas um coadjuvante que pouco aparece na narrativa, e nela não interfere: o repórter W.W. Beauchamp (Saul Rubinek). O sujeito chega à pequena cidade de Big Whiskey, onde a maior parte da trama se passa, acompanhando o pistoleiro English Bob (Richard Harris). Sua missão é acompanhar os feitos do matador e narrá-los em livro. Quando o violento xerife da cidade, Little Bill Daggett (Gene Hackman, Oscar de coadjuvante pelo papel), lê um dos livros escritos por ele, fica surpreso. O livreto conta a versão de English Bob para um mítico duelo em que Bob matou outra lenda da região, mas Bill avisa que estava no bar na fatídica noite, e conta uma outra versão. O destemido atirador de mira infalível vira, no novo relato, um bêbado sortudo que matou um adversário desarmado, a sangue frio.

A mira de Clint Eastwood, no caso, é Hollywood. O que a velha estrela de faroestes clássicos está dizendo, na verdade, é que a realidade do Velho Oeste não tem nenhum paralelo com os relatos românticos, cheios de heróis e donzelas, produzidos por Hollywood sobre a época. O Velho Oeste era um lugar feio, sujo, cheio de gente bêbada e prostitutas doentes. Homens de moral impecável que jamais atiravam pelas costas são apenas uma versão produzida pelos filmes, personificados na figura asquerosa de Beauchamp, produzidos como mitos para uma nação desorientada e sedenta por heróis. Eastwood puxa o mito do Velho Oeste para a realidade. Hollywood é Beauchamp, um a entidade que enfeita e exagera o mundo real, simplificando-o ao extremo.

Não há imagem melhor para essa descontrução do faroeste do que o papel do próprio Eastwood. Sua primeira seqüência é tão cruel quanto sintomática. William Munny (Eastwood) é outro dos pistoleiros lendários no Velho Oeste, mas agora está viúvo, sóbrio, tem dois filhos pequenos e cria porcos em um rancho isolado. Ele é procurado por um candidato a matador, Scholfield Kid (Jaimz Woolvett), com uma proposta: juntar-se a ele para matar dois vaqueiros cujas cabeças estão valendo mil dólares, pagos pelas prostitutas da pequena Big Whiskey. O prêmio foi oferecido depois que uma delas teve o rosto retalhado por um dos vaqueiros.

Quando o garoto chega à fazenda, toma um susto. A figura que ele vê, correndo no meio dos porcos e levando um baita tombo no meio da lama, não parece nem um pouco com um assassino lendário de nervos de aço. Munny hesita, diz que não vai, mas no dia seguinte sela seu cavalo e resolve ir buscar o velho parceiro Ned Logan (Morgan Freeman) para ir atrás dos dólares. Não sem antes treinar tiro ao alvo, descarregando um revólver contra uma lata – e errando todos os tiros. Não sem antes levar duas quedas humilhantes do cavalo. Clint Eastwood tira sarro com os velhos heróis durões que ajudou a imortalizar nos westerns que filmou entre as décadas de 1960 e 1970.

“Os Imperdoáveis”, no entanto, não rompe completamente com as características do gênero. A fotografia de Jack N. Green, por exemplo, utiliza longas e silenciosas panorâmicas da paisagem desolada do deserto, da mesma forma que John Ford e Sergio Leone faziam, décadas antes. O terço final do filme, incluindo o clímax, inclui um confronto – não exatamente um duelo – entre os dois antagonistas, e portanto se utiliza da mesma estrutura dramática de qualquer faroeste clássico, embora este “duelo” seja mostrado de forma mais honesta, realista. Mas é interessante notar que W.W. Beauchamp presencia tudo e foge, com a expressão excitada de quem tem material para produzir um novo OK Corral (o mais famoso duelo do Velho Oeste). O recado é claro: “Os Imperdoáveis” não vai mudar Hollywood. Pode mudar, se muito, a maneira de o espectador olhar para os filmes da indústria cinematográfica, interpretando-os como o que sâo: simplificações rasteiras e romantizadas do mundo real.

O filme de Eastwood está disponível no Brasil em duas edições. A primeira, convencional, contém apenas o filme, com qualidade de imagem e som razoável. A segunda edição é especial, e ainda por cima dupla, recheada com quatro documentários e cópia remasterizada do filme. O disco 1 contém exatamente o longa-metragem, com qualidade impecável de imagem (original, widescreen) e som (Dolby Digital 5.1, com surround funcionando em alto volume nas cenas envolvendo tiros e/ou trovoadas). Um comentário em áudio do crítico Richard Schickel completa o disco.

O disco 2 tem quatro documentários. O primeiro (22 minutos) foi feito em 2002, por ocasião do aniversário de 10 anos do filme, e apresenta entrevistas com Eastwood, Freeman, Hackman e diversos membros da equipe. O segundo (23 minutos) foi feito na época das filmagens. O terceiro (16 minutos) enfoca a carreira de Eastwood. O último e mais longo (60 minutos) é um mergulho mais fundo na vida e na carreira do diretor. Como brinde, o espectador ganha ainda um antigo episódio de 1959 da série de faroeste “Maverick”, que contém a primeiríssima performance do jovem Eastwood, em papel coadjuvante. Uma caixa impecável.

– Os Imperdoáveis (The Unforgiven, EUA, 1992)
Direção: Clint Eastwood
Elenco: Clint Eastwood, Gene Hackman, Morgan Freeman, Richard Harris
Duração: 131 minutos

| Mais


Assine os feeds dos comentários deste texto


4 comentários
Comente! »