Império do Sol

14/12/2006 | Categoria: Críticas

Primeiro filme sério de Spielberg sogre a II Guerra Mundial é bom, mas escorrega aqui e ali no melodrama

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Steven Spielberg tem uma obsessão particular com a Segunda Guerra Mundial. Em três décadas de carreira cinematográfica, o cineasta dirigiu nada menos do que quatro longas-metragens ambientados no período mais dramático do século XX. “O Império do Sol” (Empire of the Sun, EUA, 1987) foi o primeiro a tentar uma abordagem séria do conflito – veio depois da comédia “1941”, de 1979 – e retrata, na verdade, um braço menos conhecido da guerra, que não envolveu nazistas e nem foi travada em território europeu. O longa-metragem apresenta, de fato, a batalha entre China e Japão pela supremacia militar da Ásia Oriental, do ponto de vista estupefato de uma criança.

É bem sintomático, aliás, observar em retrospectiva a maneira hesitante, medrosa até, como Spielberg se aproximou da temática da guerra. Primeiro tentou fazer graça do conflito, depois filmou uma batalha periférica à grande destruição que varreu o planeta entre 1939 e 1945. Só após 20 anos de carreira é que o diretor tomou coragem para encarar de frente os horrores do período, primeiro com “A Lista de Schindler” (1993) e depois com “O Resgate do Soldado Ryan” (1998). É fácil explicar tamanha cautela: Spielberg tem razões pessoais para tamanha obsessão com a guerra, pois além de ser um judeu engajado na causa do seu povo, o pai dele lutou no conflito.

No caso de “O Império do Sol”, não estamos falando de um típico filme de guerra. Praticamente não há tiros, explosões ou violência real no filme. De fato, o trabalho é exatamente aquilo se esperava de Spielberg, no estágio da carreira em que se encontrava. Em 1987, ele já era o diretor mais poderoso do planeta, mas só havia se destacado com aventuras e dramas filmados sob olhar infantil. O mundo inteiro sabia que Spielberg tinha uma sensibilidade extraordinária para filmar histórias adultas sob o ponto de vista de crianças, mas ninguém – nem público, nem crítica, nem executivos de estúdios, talvez nem ele mesmo – tinha certeza de que seria capaz de dirigir filmes violentos e viscerais.

Provavelmente devido a esses detalhes, na hora de filmar o tema mais recorrente de sua filmografia, Spielberg decidiu transformar em filme as memórias autobiográficas do escritor J.G. Ballard. O autor consagrado havia tido uma terrível experiência: ainda criança, perdeu-se dos pais durante a invasão japonesa à China, enquanto vivia em Hong Kong. “O Império do Sol” acompanha o drama do pequeno Jim (Christian Bale, estreando no cinema), solto sozinho nas ruas de Hong Kong enquanto as tropas japonesas punham os chineses para correr. Jim acaba confinado em um campo nipônico para prisioneiros de guerra, e o filme se concentra nos esforços estóicos do menino para superar a ausência dos pais e sobreviver.

Há uma porção de destaques. O maior deles é a espetacular recriação dos cenários da China dos anos 1940. Spielberg recebeu autorização para filmar no país por apenas três semanas, após meses de negociação, e aproveitou cada segundo, fazendo lá apenas as tomadas exteriores (os interiores foram filmados depois, em Londres e Los Angeles). A fotografia suntuosa de Allen Daviau valoriza cada centímetro de locação, o que fica especialmente evidente na seqüência em que Jim se perde dos pais. É o momento mais dramático do filme, e a direção de Spielberg coordena milhares de figurantes com clareza absoluta, em um excelente momento dramático.

Depois, quando a narrativa passa ao campo de prisioneiros, “Império do Sol” fica morno e deixa a impressão de ser bastante longo. Talvez o problema seja a visão ingênua de uma guerra que Spielberg ainda demonstra. Claro, há que se observar que o filme narra os acontecimentos do ponto de vista de uma criança, mas ainda assim a narrativa escorrega no melodrama em diversos momentos, tornando-se um tanto irregular. O ótimo elenco, que inclui John Malkovich e tem uma interpretação irrepreensível do estreante (e futuro Batman) Christian Bale, ajuda bastante a superar os momentos mais indolentes. Não é o melhor Spielberg, mas tem seus encantos.

O DVD nacional lançado pela Warner é duplo. O filme em si está ótimo, com imagem perfeita (widescreen 1.85:1 anamórfica) e som excelente (Dolby Digital 5.1). O disco 2 possui um ótimo documentário de bastidores (60 minutos) , chamado “Uma Odisséia na China”, abordando as dificuldades de filmar no país oriental. A nota negativa é que não há legendas no material extra.

– O Império do Sol (Empire of the Sun, EUA, 1987)
Direção: Steven Spielberg
Elenco: Christian Bale, John Malkovich, Miranda Richardson, Joe Pantoliano
Duração: 152 minutos

| Mais


Assine os feeds dos comentários deste texto


Um comentário
Comente! »