Implacáveis, Os

15/11/2005 | Categoria: Críticas

Montagem ágil e virtuosa é o destaque da aventura policial irregular do mestre Sam Peckinpah

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

“Os Implacáveis” (The Getaway, EUA, 1972) conta com uma abertura majestosa, no melhor estilo do diretor Sam Peckinpah. A seqüência, de aproximados 10 minutos, mistura três tempos diferentes em uma longa cena sem diálogos, montada de maneira tão magistral que seu significado é claro como água para qualquer espectador. Somente a antológica abertura já valeria uma conferida atenta num filme de aventura que, se não representa o melhor de Peckinpah, ainda é uma aventura vigorosa que traz o astro Steve McQueen em uma de suas melhores aparições no cinema.

A citada seqüência de abertura é um exímio trabalho de montagem. A cena mostra o entediado presidiário Doc McCoy (Steve McQueen) executando tarefas de rotina do presídio, inclusive manejando uma máquina de costura. De saco cheio, ele relembra bons momentos do passado, ao lado da bela esposa que o aguarda, Carol (Ali McGraw). Entre um corte e outro, vemos o momento em que McCoy tem o pedido de liberdade condicional negado pela direção do presídio. O recado é claro como água: o condenado fará qualquer coisa para sair da cadeia e reencontrar a esposa.

Todo esse prodígio narrativo que é a abertura conta, ainda, com um truque extra: durante a aparição de cada crédito, a imagem congela. Quando a ação retorna, é retomada alguns segundos à frente, como se o tempo tivesse continuado a correr durante o congelamento da imagem. O recurso seria exaustivamente copiado por cineastas interessados em manipular imagens de forma mais agressiva, a partir dos anos 1980. De modo geral, a virtude mais evidente de “Os Implacáveis” está mesmo na edição, território em que Peckinpah já era reconhecido como autoridade em 1972, quando da produção do filme.

Dessa maneira, apesar de ter reclamado bastante da interferência do estúdio, no terreno da montagem Peckinpah foi soberano, realizando experiências extremamente ousadas para a época e que, vistas em plena era do videoclipe, podem passar despercebidas. O cineasta fechou os 123 minutos de filme utilizando, por exemplo, um total de 1.917 tomadas, quando o normal para um filme de duas horas gira em torno de 700, isso ainda hoje. Em média, cada plano do filme de 1972 dura três segundos e meio, um número muito mais curto do que o normal. Essa agilidade se manifesta especialmente nas seqüências de ação, campo em que o diretor realiza um trabalho notável, como de hábito.

O enredo original, baseado em novela do escritor policial Jim Thompson, pertence ao universo noir. Nas mãos de Peckinpah, contudo, a história ganha ares de road movie poeirento, quase um western moderno, com uma fotografia solar que explora os grandes espaços vazios e as tonalidades de terra do Texas. Existe certo parentesco, nesse sentido, do filme com a futura obra-prima “Tragam-me a Cabeça de Alfredo Garcia”, pequena produção em que o cineasta pôde desenvolver melhor a natureza amarga e irascível do protagonista. Em “Os Implacáveis”, trabalhando com um grande astro e um orçamento generoso, o diretor não teve muita liberdade, e fez apenas uma aventura policial com toques autorais que se manifestam mais na forma do que no conteúdo.

Doc McCoy é um assaltante de bancos. Um dos melhores, aliás. Ele só consegue sair da cadeia com uma mãozinha de Jack Beynon (Ben Johnson), um influente político local. Em troca do favor, McCoy recebe uma tarefa: deve liderar um grupo de assaltantes e roubar um pequeno banco. Ele estranha. A agência parece pequena demais para alguém com tamanha habilidade. Mesmo assim, dá o golpe – e só então descobre que há mais coisas por trás da ação criminosa do que poderia imaginar. É exatamente nessas minúcias que o filme falha. Talvez por excesso de cuidado com o visual, ou talvez por interferência demais dos produtores, o engenhoso golpe de Beynon fica soterrado diante dos dilemas morais do protagonista. Peckinpah prefere enfocar a tempestuosa relação de McCoy com a esposa Carol, o que encobre boas sacadas da história original de Jim Thompson.

Há uma razão para que o foco do filme seja o casamento em crise: Steve McQueen e Ali McGraw se encantaram um com o outro e viveram um tórrido e proibido caso de amor durante as filmagens. Como ambos eram casados, a tensão dos sets era latente. Fala-se que a famosa cena da briga do casal às margens de uma rodovia ganhou total veracidade porque eles não estavam atuando, mas quebrando o pau de verdade – é possível até perceber o choque genuíno no rosto da atriz quando ela ganha um tremenda bofetada (que não estava no roteiro) do galã mais cobiçado da época.

McQueen, então um dos homens mais poderosos de Hollywood, foi outra pedra no sapato do diretor, interferindo sem cerimônia na produção. Foi do ator a idéia do final feliz, tão incomum a Peckinpah, e também da equivocada trilha sonora jazzística de Quincy Jones, que substituiu a original poucas semanas antes da estréia, para fúria do cineasta. Mesmo com todos esses problemas, “Os Implacáveis” ainda é uma aventura policial de ótimo nível, que conta com uma direção virtuosa e uma montagem de referência para várias outras produções do gênero. Só por isso, o filme merece um lugar na coleção dos verdadeiros fãs de Peckinpah.

A Warner lançou o filme no Brasil em duas edições bem distintas, ambas de um disco só. A primeira, com um revólver na capa, tem imagem cortada nas laterais (standard 1.33:1), som Dolby Digital 2.0 e nenhum extra. A edição especial contém o filme no formato original (wide 2.35:1), trilha sonora remixada (DD 5.1) e um comentário em áudio reunindo uma colagem de entrevistas de época com o diretor e os dois astros principais. Se for escolher, prefira – óbvio – a segunda, com uma foto de Steve McQueen na capa.

– Os Implacáveis (The Getaway, EUA, 1972)
Direção: Sam Peckinpah
Elenco: Steve McQueen, Ali McGraw, Ben Johnson, Sally Struthers
Duração: 123 minutos

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