Incompreendidos, Os

06/06/2007 | Categoria: Críticas

Estréia de François Truffaut na direção lança um olhar afetuoso e inédito ao cotidiano de um adolescente

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

A indústria cinematográfica sempre teve problemas em retratar personagens menores de 18 anos. Antes do ano de 1959, crianças e adolescentes sempre participavam de filmes, mas poucas vezes como protagonistas. Todo cineasta sabe que narrativas com o ponto de vista de crianças são complicadíssimas (para adultos). Quando o crítico francês François Truffaut escolheu a vida de um rapaz de 15 anos como tema de sua estréia na direção, sabia que estava dando um passo em direção ao desconhecido. “Os Incompreendidos” (Les Quatre Cents Coups, França, 1959) venceu o desafio ao conseguir lançar um olhar compreensivo e afetuoso ao cotidiano adolescente, criando uma narrativa pungente. O filme permanece como uma das mais brilhantes e completas abordagens cinematográficas da juventude.

Ao lado de “Acossado”, de Jean-Luc Godard, o primeiro filme de Truffaut é tido como marco inicial da Nouvelle Vague francesa. Como o roteiro do longa-metragem do colega também tinha sido escrito por ele, Truffaut rapidamente se tornou o principal nome do movimento. Depois que “Os Incompreendidos” ganhou o prêmio de direção no prestigioso Festival de Cannes e concorreu ao Oscar de melhor roteiro, uma honraria poucas vezes concedida a produção não-faladas em inglês, o então crítico da revista Cahiers du Cinema sabia que tinha pavimentado uma carreira sólida. Mas “Os Incompreendidos” sempre significou, para ele, muito mais do que uma carreira.

Embora Truffaut não gostasse de falar no assunto, o mundo inteiro sabia que o personagem Antoine Doinel, o garoto de “Os Incompreendidos”, era o alter-ego do cineasta. Como o menino, também ele havia crescido no seio de uma família pobre que não se entendia e não lhe dava atenção. Ele também fora um delinqüente juvenil, cometendo pequenos furtos pelas ruas de Paris, e também passara uma temporada no reformatório. O que Truffaut queria, transpondo essas experiências para a tela, era mostrar ao mundo que o mundo do adolescente não era compreendido pelos adultos. Nesse sentido, inclusive, o título nacional é até mais feliz do que o original, cuja tradução seria algo como “Pintando o Sete”.

“Os Incompreendidos” foi o filme certo na hora certa. Em 1959, ano em que foi lançado, o mundo assistia a uma revolução branca comandada pelos… adolescentes. O rock’n’roll os ensinava que eles podiam ser ouvidos pelos mais velhos, mesmo que fosse na marra. “Acossado”, de Godard, também se beneficiava dessa descoberta, mas era um filme completamente diferente, mais agitado e amoral, e dirigido a um público mais velho. Truffaut mostrava mais amor pelos personagens e tinha um estilo de direção mais clássico, invisível, sem chamar atenção para si. O que ele fez foi contar a história de um jovem de 15 anos que ninguém – pais, educadores, parentes ou policiais – entendia. Antoine Doinel não é bom nem mau, é só um adolescente. Truffaut contou esta história com uma gigantesca dose de carinho pelo personagem.

A maneira como Truffaut filmou uma das cenas antológicas de “Os Incompreendidos” é o exemplo perfeito do estilo naturalista de direção que adotava. Trata-se da seqüência em que o professor de Antoine Doinel (Jean-Pierre Leáud) sai da escola, levando toda a classe, para uma aula externa. A trupe caminha pelas ruas de Paris em fila indiana, mas os jovens vão saindo da fila e desaparecendo, um a um, para gazear a aula, sem que o professor perceba, até que restam apenas três ou quatro na cola do mestre. A situação é potencialmente cômica e, dependendo de como fosse filmada, poderia fazer o público cair na gargalhada.

Godard filmaria essa cena com muitos cortes e mudanças de enquadramento de câmera, de preferência colocada sempre perto dos atores. Essa estratégia transformaria a seqüência em uma ópera-bufa de efeito hilariante. Mas Truffaut a concebeu com longos planos sem cortes, com a câmera sempre a longa distância. O público não consegue distinguir os rostos dos personagens. A estratégia dá à cena um efeito contemplativo que não lhe retira o bom-humor, mas também não provoca gargalhadas. É uma cena lírica, que deixa um sorriso no canto da boca. Truffaut não queria transformar Doinel e seus colegas em pequenos palhaços; queria torná-los íntimos do público, confidentes, pessoas por quem sentimos afeto, gente que queremos bem.

O resultado final é um filme deslumbrante, poético e melancólico em alguns momentos, suave e cômico em outros, mas sempre compreensivo e caloroso. Doinel mente para os professores e para os pais, rouba uma máquina de escrever, fica preso num reformatório, mas não é um menino malvado. Pena que somente nós, que permanecemos tão perto dele, compreendemos suas ações. Os adultos do filme não o entendem. Não percebem que quando ele cita Balzac numa redação, não está tentando plagiar o grande escritor, mas homenageá-lo. Além disso, Truffaut sabe exatamente como filmar, evitando resvalar a história para o melodrama e nunca tornando-a piegas ou cômica. O resultado final é uma unanimidade da crítica: “Os Incompreendidos” permanece o melhor filme sobre adolescentes já lançado.

Vale lembrar, ainda, que Truffaut tinha tanto carinho pelo personagem que voltaria a ele mais cinco vezes, quatro em longas-metragens e uma em um curta, feito apenas três anos depois de “Os Incompreendidos”. Todas as aparições de Doinel na tela foram encarnadas pelo ator Jean-Pierre Leáud, cuja performance é um dos maiores trunfos do filme de 1959. Basta assistir à impressionante seqüência em que o rapaz conta a história da sua vida à psicóloga do reformatório, em um monólogo digno dos grandes atores.

O DVD do filme saiu no Brasil por três diferentes empresas. Os discos da Continental e da Classic Line são idênticos, sem extras, mas com o enquadramento correto (wide 2.35:1) e som decente (Dolby Digital 1.0). O disco da Versátil é o melhor: além de anamórfico e de ter áudio realçado (DD 2.0), contém ainda o raro curta “Antoine e Collete” (30 minutos), que traz o mesmo protagonista três anos depois dos acontecimentos vistos em “Os Incompreendidos”, em uma tocante história de paixão não correspondida. Programaço.

– Os Incompreendidos (Les Quatre Cents Coups, França, 1959)
Direção: François Truffaut
Elenco: Jean-Pierre Léaud, Albert Rémy, Claire Maurier, Patrick Aufey
Duração: 100 minutos

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