Incríveis, Os

05/04/2005 | Categoria: Críticas

Mais ação, humor mais adulto e animação de tirar o fôlego: outra obra-prima da Pixar

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

“Os Incríveis” (The Incredibles, EUA, 2004) é um filme situado em uma espécie de universo paralelo. Nesse futuro alternativo, os super-heróis existem de verdade, mas estão proibidos por lei de colocar seus poderes em ação. Depois de enfrentarem vários processos por ajudar gente que não queria ser ajudada, os heróis foram postos fora de circulação por uma agência governamental secreta. Ganharam identidades comuns, empregos normais e famílias iguais às de todo o mundo. Esse é o pano de fundo em torno do qual é construído o enredo da mais nova produção da Pixar, o pequeno estúdio norte-americano que, a cada lançamento, sobe mais um degrau no nível das animações digitais em longa-metragem.

Com “Os Incríveis”, a Pixar dá o passo mais ousado da empresa até o momento. Pela primeira vez, os animadores chefiados pelo gênio John Lasseter enfrentam a verdadeira esfinge dos animadores digitais: um filme desenhado em que seres humanos são os protagonistas. Até a produção de “Os Incríveis”, a Pixar havia sabiamente evitado encarar o problema, promovendo brinquedos e animais ao status de personagens principais dos filmes que fazia. A estratégia sempre deu certo, por duas razões principais. Primeiro, animar seres irracionais é uma tarefa muito mais simples, do ponto de vista tecnológico. Depois, desde a época de Walt Disney que se sabe que bichos fofinhos são uma atração irresistível para as crianças, público-alvo por excelência da Pixar.

Lasseter e seus colegas de trabalho devem ter sentido que em algum momento o estrategema conservador iria se voltar contra a Pixar, no futuro. Por isso, resolveram se antecipar e ousar. Escolheram o projeto certo para fazer isso. “Os Incríveis” não apenas avança a passos largos na construção de personagens humanos complexos a dentro do computador, como invade pela primeira vez uma área em que o estúdio concorrente DreamWorks (de “Shrek”) vinha se especializando: a animação infantil com subtexto adulto, abordando temas mais duros e criando personagens mais complexos. O filme atinge sucesso absoluto na empreitada. “Os Incríveis” mantém a excelência da Pixar em um patamar inigualável. É o único estúdio de Hollywood que jamais produziu um único fracasso, nem de público e nem de crítica.

A rigor, o segredo do sucesso é o autor do projeto de “Os Incríveis”. O animador e cineasta Brad Bird não é membro do time habitual de colaboradores da Pixar. Egresso da fileira dos animadores e redatores de “Os Simpsons”, Bird propôs o projeto a John Lasseter em 1999, e tornou-se o primeiro homem que não é funcionário da Pixar a dirigir um longa-metragem para a empresa. Para isso, trouxe a experiência desenvolvida durante os anos em que trabalhou com Homer, Bart e a turma de Springfield.

Bird escreveu o roteiro e ficou encarregado da direção de “Os Incríveis”. Ele soube se aproveitar da bagagem trazida da famosa série de TV para construir uma crônica de costumes da família do século XXI. É isso: nas entrelinhas do cenário retrô-futurista claramente calcado em “X-Men” (há um paralelo óbvio entre os heróis da animação de Brad Bird e os mutantes dos filmes de Bryan Singer, ambos vítimas de preconceito que são obrigados a viver escondidos), esconde-se uma crítica à vida da classe média, bem à maneira que Matt Groening costuma fazer em “Os Simpsons”.

O herói de “Os Incríveis” é Beto Pêra. Conhecido antigamente como “Sr. Incrível”, homem com uma força descomunal, Pêra vira funcionário de uma firma de seguros. É casado com outra heroína, Helena, a antiga Mulher-Elástica. O casal tem três filhos. Flecha consegue correr em altas velocidades, enquanto Violeta fica invisível e tem o poder de criar campos de força em torno de objetos. Zezé, um bebê de poucos meses, é (ou parece ser) o único normal da família. Todos têm problemas para esconder suas habilidades especiais, menos Helena, satisfeitíssima com sua tranqüila vida pequeno-burguesa.

Beto, em especial, é um nostálgico de carteirinha. Ele se reúne todas as quartas-feiras à noite com o amigo Lúcio Barros (o antigo Gelado, homem com habilidade de criar gelo a partir de ar), dizendo que vai jogar boliche. Na verdade, vai relembrar os tempos de herói, lutando contra malfeitores e contra o excesso de peso. O tédio que Beto sente no dia-a-dia vai ser espantado quando uma misteriosa mulher o convoca para uma missão secreta.

”Os Incríveis” sai da fórmula tradicional da Pixar. Dessa vez, ao contrário do que ocorreu com “Procurando Nemo” e “Monstros S/A”, o filme mira nas crianças maiores, na faixa dos 10-12 anos. Tem humor mais cínico e corrosivo (tente ver a hilariante cena em que Beto fica irritado com o carro quando estaciona no jardim de casa, diante de um garoto e seu triciclo, sem gargalhar!), embora provoque menos risadas durante a projeção. As seqüências de ação agora são mais longas. Logo no início, talvez na mais divertida de todas as cenas no estilo “montanha-russa desgovernada”, o Sr. Incrível se envolve em três diferentes perseguições durante o singelo trajeto à igreja para participar de um casamento, e ainda pára um trem.

Para dar vida a seqüências como essa, os animadores da Pixar tiveram que dar duro. Em cinco anos de trabalho, eles criaram quase 100 diferentes locações para o filme, incluindo uma ilha tropical com túneis eletrônicos, passagens secretas, cavernas, lagos, quedas d’água e selvas. O resultado é de encher os olhos. O universo de “Os Incríveis” não tenta copiar a realidade; vai além dela. Pinta uma espécie de realidade turbinada, melhorada, tornada mais simples e mais perfeita. Para contornar o eterno problema da artificialidade do rosto humano gerado por computador, os personagens foram desenhados com traços mais simples. Os grandes olhos transmitem as emoções.

A mistura da imbatível animação digital com um roteiro rico, enxuto e com diversas camadas de leitura (a crítica à vida nas cidades, o preconceito racial, a visão ácida do casamento) ainda ganhou o tempero das referências ao mundo da cultura pop. Aqui, no entanto, essas referências não são óbvias. Estão escondidas e só podem ser percebidas quando se assiste ao longa atentamente. Observe, por exemplo, a selav tropical onde se esconde o vilão Síndrome, uma paródia do Dr. No, inimigo clássico do agente 007. E reserve atenção extra para ouvir direitinho a engenhosa trilha sonora de Michael Giacchino, repleta de sutis referências a outras trilhas famosas de filmes de aventura (de “Missão Impossível” a “Caçadores da Arca Perdida”). É genial.

Tanto bom gosto resultou em um produto que só pode ser descrito com um clichê: um filme para toda a família, delicioso de ver e que ainda ajuda as crianças a olhar para a sociedade com um olho mais crítico. Se isso não for grande cinema, vai ser difícil classificar o trabalho magnífico que a Pixar entregou em “Os Incríveis”. Apenas a título de aviso, dessa vez não adianta esperar por uma tradição do estúdio: “Os Incríveis” não tem “erros de gravação” ou cenas engraçadinhas durante os créditos. Talvez por ser mais longo (115 minutos) que todos os outros trabalhos da grife. Nessas quase duas horas, porém, você vai ter diversão da mais alta qualidade.

O DVD de “Os Incríveis” é especial. São dois discos, em que o primeiro traz o filme (a Buena Vista manteve o formato de tela original, widescreen, no Brasil) com comentário em áudio do diretor Brad Bird. O som tem cirtificado de qualidade THX, e chega tanto em inglês quanto em português.

Já o disco 2 é para os adultos. Começa com dois documentários, totalizando 67 minutos, sobre a produção. Há meia hora de cenas deletadas finalizadas, com som e imagem perfeitos; seis cenas interrompidas na fase dos rascunhos; três trailers; um pequeno featurette (9 minutos) sobre a dubladora que faz Violeta nos EUA; uma galeria de “erros de gravação”; e o melhor de tudo, dois curtas-metragens com os personagens. O primeiro enfoca o bebê Zezé, e o segundo narra uma aventura do Senhor Incrível na sua fase áurea, nos anos 1960. Cada um tem cerca de 4 minutos. Maravilha de DVD.

– Os Incríveis (The Incredibles, EUA, 2004)
Direção: Brad Bird
Animação (vozes de Craig T. Nelson, Samuel L. Jackson, Holly Hunter)
Duração: 115 minutos

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