Incrível Hulk, O

12/02/2009 | Categoria: Críticas

Maçaroca de esparrentas seqüências de ação pontilhada por piadas que culmina com briga de monstros digitais

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

O surgimento de um novo filão de sucesso gera, quase sempre, uma conseqüência negativa para os filmes que integram o mesmo gênero. Eles passam a ser produzidos como carros em uma linha de montagem, em variações pouco disfarçadas da mesma estrutura narrativa utilizada na produção ponta-de-lança. O longa-metragem que gerou a bem-sucedida onda de filmes de super-heróis foi o primeiro “Homem-Aranha” (2002), e tudo que a Marvel fez depois dele seguiu a receita criada pelo cineasta Sam Raimi. Ou melhor, quase tudo. Ang Lee transformou o Hulk em 2003 num amargurado anti-herói intimista, numa ousadia autoral que afundou a obra nas bilheterias (US$ 137 milhões nos EUA, menor cifra alcançada por um filme do gênero na década). Daí a necessidade de recomeçar a franquia do zero com “O Incrível Hulk” (The Incredible Hulk, EUA, 2008).

O novo longa do gigante esmeralda não carrega o número 2 no título porque prefere, convenientemente, esquecer os acontecimentos da primeira produção. O diretor francês Loius Leterrier, egresso das produções B de ação (“Adrenalina”), assumiu o leme com a orientação de não alçar qualquer vôo autoral, limitando-se a seguir a receita previamente testada e aprovada em tantas outras franquias de sucesso com o carimbo da Marvel. O resultado é uma aventura adolescente: estiloso, barulhento e trivial, uma maçaroca de longas e esparrentas seqüências de ação pontilhada por uma ou outra cena engraçadinha (há menos humor do que o habitual, aliás) e que culmina com a já tradicional – e chatíssima – briga de seres super-poderosos claramente digitais, que destroem meia cidade antes que o bonzinho vença.

Embora funcione como um reboot da franquia, “O Incrível Hulk” não reserva metade da duração para contar a origem do herói, como seria de prever. Para não cansar a platéia, Leterrier resume o surgimento do gigante verde durante uma rápida montagem estilizada mostrada nos créditos iniciais. O novo filme, aliás, renega a versão de Ang Lee, em que o Hulk surgia após um acidente com radiação gama. Aqui, o monstro é fruto de uma experiência mal-sucedida feita pelo cientista Bruce Banner (Edward Norton) consigo mesmo. Perseguido por um general do Exército norte-americano (William Hurt), ele se refugia na Favela da Rocinha, no Rio de Janeiro, onde trabalha numa fábrica de refrigerantes, vive num barraco sujo no alto do morro, paquera uma operária gatíssima de olhos azuis (?) e aproveita o tempo livre para pesquisar um antídoto com plantas nacionais. Pois é, o início da história encontra Banner no Brasil. Motivo extra de interesse para os brasileiros.

Louis Leterrier deve ter usado “Tropa de Elite” (2007) como referência visual, pois as seqüências na favela têm a mesma textura visceral do vencedor do Festival de Berlim 2008. Incríveis tomadas panorâmicas mostram a geografia intrincada da favela carioca (curiosamente, há takes semelhantes no trabalho anterior de José Padilha, “Ônibus 174”). Quando a câmera desce ao nível do chão, passa a ser operada manualmente, se enfiando nas estreitas vielas da comunidade pobre como um intruso não muito bem-vindo. O francês investe na estética semi-documental, com câmera na mão, que se beneficia de imperfeições técnicas para agregar mais realismo às imagens. Embora haja problemas no sotaque dos atores que contracenam com Edward Norton (os interiores foram filmados nos EUA), isso não chega a ser empecilho, e o primeiro ato de “O Incrível Hulk” acaba se tornando o ponto alto do filme.

Depois que Banner se transforma pela primeira vez em anos e deixa o Brasil, perseguido por uma equipe militar secreta chefiada por um raivoso oficial de origem russa (Tim Roth), a Cinderela perde o sapatinho de cristal, e “O Incrível Hulk” vira apenas mais um filme barulhento de super-heróis. A partir daí, a receita da Marvel é repetida sem que qualquer respingo autoral possa ser identificado. Banner retoma contato com a mulher que ama (Liv Tyler) e tenta encontrar a cura, com a ajuda de um ambíguo cientista nova-iorquino (Tim Blake Nelson), enquanto os oficiais do Exército decidem que a melhor maneira de combater um monstro é usando outro monstro. Tudo culmina com uma briga de criaturas digitais que saltitam como bolas de borracha, destruindo alguns quarteirões de Nova York (e uns 10% da frota de carros da metrópole) no processo. O clímax lembra vagamente a pancadaria no final de “Matrix Revolutions” (2003), só que travada por dois bonecos de borracha tamanho XL.

Uma decepção especial vem do elenco qualificado, que parece ter atuado sob hipnotismo. Edward Norton, reconhecido como o melhor ator de sua geração, encarna Bruce Banner como um homem esgotado. A escolha é conveniente, mas sua expressão cansada elimina as nuances emocionais que transformavam o Banner de Eric Bana, no filme de 2003, em uma figura trágica muito mais complexa e interessante. Liv Tyler não convence como cientista respeitada, embora também não comprometa nas cenas românticas (o encontro sexual frustrado entre os dois é um dos poucos instantes bem-humorados do longa-metragem, embora Leterrier erre o timing da montagem no momento-chave da cena). O personagem do oscarizado William Hurt, unidimensional, não lhe dá chances de brilhar. Um Tim Roth sedento de ambição acaba sendo a melhor peça do elenco.

De qualquer forma, a boa recepção do público (quase US$ 200 milhões nos primeiros três dias de exibição, chegando perto da renda total do filme de 2003) deixa evidente que a Marvel sabia o que estava fazendo quando optou por um filme juvenil de ação, ao invés de uma obra mais adulta e autoral. Além disso, o filme se junta a “Homem de Ferro” (2008) na preparação do terreno para um longa-metragem dos Vingadores, equipe que reúne todos os principais heróis da Marvel – a participação especialíssima de Robert Downey Jr (Tony Stark, o Homem de Ferro, em pessoa) na última cena do filme deixa isto mais do que evidente. As pontas especiais, aliás, são talvez o elemento mais criativo de “O Incrível Hulk”, como se pode conferir a partir da presença impagável de Lou Ferrigno (o Hulk da TV) e da aparição hilariante de Stan Lee, o criador do personagem. Agora, calcule quão bom pode ser um filme quando sua maior virtude está na participação dos figurantes especiais…

A edição simples do DVD, da Universal, traz o filme com enquadramento original preservado (widescreen anamórfico), boa qualidade de áudio (Dolby Digital 5.1) e dois featurettes enfocando os bastidores da produção. Para venda direta, há ainda disco duplo que conta com cenas excluídas (42 minutos), dois documentários completos (um deles enfocando a transformação digital do gigante verde) e diversos featurettes sobre aspectos da produção. Tem até imagens da passagem da equipe do filme pelo Brasil.

- O Incrível Hulk (The Incredible Hulk, EUA, 2008)
Direção: Louis Leterrier
Elenco: Edward Norton, Liv Tyler, Tim Roth, William Hurt
Duração: 114 minutos

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Um comentário
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  1. Só eu achei esse filme melhor do que Homem de Ferro?

    Homem de Ferro já vem com continuação e o Hulk do Norton e Liv Tyler nada…..

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