Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal

01/10/2008 | Categoria: Críticas

Cheio de CGI, ação acelerada e sem nenhum suspense, quarta aventura do herói icônico se salva através da categoria de Spielberg

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

George Lucas possui a maior empresa de efeitos especiais do planeta. É um grande fabricante de jogos eletrônicos. Steven Spielberg teve um estúdio e continua reconhecido como o mais importante diretor de cinema das últimas duas décadas. Harrison Ford mantém há 20 anos o status de astro de carisma inabalável, detendo um dos maiores salários de Hollywood. Fama e dinheiro só podem estar entre as últimas preocupações desses três caras. A pergunta que não quer calar: qual a razão que levaria esse trio de integrantes do clube seleto dos mais poderosos na indústria de entretenimento a retirar da aposentadoria um dos mais icônicos heróis de ação do cinema norte-americano para transformá-lo, no nostálgico “Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal” (Indiana Jones and the Kingdom of the Crystal Skull, EUA, 2008), em apenas mais um aventureiro entre tantos?

Encontrar uma resposta satisfatória a essa questão é tarefa hercúlea. Tão difícil quanto é fácil afirmar que o longa-metragem, descontado o efeito nostalgia que faz os fãs antigos relevarem seus defeitos, não chega aos pés das três aventuras anteriores do herói. A quarta produção da franquia, não sobram dúvidas, é a mais fraca da série. O problema não está na falta de cenas de ação, no senso de humor cínico, na ausência de elementos da mitologia de Indiana Jones. Todos os elementos que fizeram de “Caçadores da Arca Perdida” (1981) uma das maiores aventuras cinematográficas de todos os tempos estão no filme, e em doses fartas. A receita é a mesma, e os ingredientes continuam iguais. O problema está no modo de preparo. A sensação é de que Spielberg dirigiu o filme de olho em alguma pesquisa de opinião.

Nas muitas entrevistas que deram para promover a película, antes da estréia, o trio de ferro repetiu sem cessar que havia feito um filme à moda antiga, com dublês, ação física real e muito suor. Não é verdade. O CGI marca presença de maneira forte, sobretudo durante o terceiro ato, onde reside a maior parte dos problemas de “O Reino da Caveira de Cristal”. Os aventureiros liderados pelo velho (neste caso, literalmente) Indy enfrentam uma perseguição de carros em plena selva amazônica, duelam à beira de um precipício e enfrentam, num barquinho, três gigantescas cachoeiras consecutivas, em uma longuíssima seqüência de ação ininterrupta. O CGI, usado com abundância, tem parte da responsabilidade pela sensação incômoda, para a platéia, de que os heróis não correm nenhum risco real, apesar das situações amedrontadoras. E sem suspense, o filme simplesmente não decola.

Este é um problemas sério, porque conspurca uma das principais características de Indiana Jones. O professor de Arqueologia sempre se destacou, na galeria dos grandes aventureiros do cinema, por ser um herói falho, quase um homem comum metido em confusões. Ele sente medo, hesita, apanha, sangra e comete erros. Está sempre à beira da morte, e escapa no último segundo. Os filmes anteriores da série tinham atmosfera levemente cartunesca, irreal, mas Spielberg e os roteiristas tinham o cuidado de manter a humanidade essencial do herói, que não existe em “O Reino da Caveira de Cristal”. Aqui, apesar de 20 anos mais velho – a ação dramática acontece em 1957 –, Indiana Jones está mais próximo de um super-herói do que nunca. E não é só ele. Mutt (Shia LaBeouf), o jovem companheiro que se junta a ele nesta aventura, também compartilha da mesma característica. Em certo momento, o rapaz – clone de James Dean em “Juventude Transviada” – trepa em cipós e sai perseguindo automóveis na floresta, como Tarzan, cercado de macaquinhos digitais. Isso da primeira vez em que pisa fora de uma cidade. Idéia estúpida.

O roteiro de David Koepp, que aproveitou cenas de diversos tratamentos anteriores, escritos desde 2003, tem boas e más qualidades. De um lado, apresenta explicações convincentes para a ausência de personagens importantes, como o pai de Indy (Sean Connery não topou fazer o filme, já que está aposentado) e o saudoso reitor da Universidade Marshall, onde o herói dá aulas (o ator Pat Roach morreu em 2004). Também faz a delícia dos nostálgicos de plantão, introduzindo na trama elementos que remetem às aventuras anteriores, como o medo de cobras e a habilidade com o chicote, de maneira espontânea e inteligente. Por outro lado, falha ao equilibrar ação com exposição, de forma a dar ao filme um ritmo mais regular e consistente. Há voltas e reviravoltas demais, e ação a dar com o pau, mas nenhuma tensão.

Não são poucos os momentos em que o espectador fica com a impressão de que alguma cena está faltando (talvez tenha mesmo acabado no chão da sala de edição). A trama não se desenrola naturalmente, mas aos trancos e barrancos. O terceiro ato, por exemplo, contém uma série de esquetes de ação contínua, sem pausas para respirar. Os personagens pulam de uma aventura para a próxima sem que haja cenas de transição, o que causa saltos irritantes na narrativa. Falta esmero nos elementos de articulação dessas cenas de ação. De vez em quando, nos perguntamos como Indiana Jones e seus amigos chegaram tão rápido, e tão fácil, a determinadas situações. Além disso, a estratégia de fazer a ação dramática avançar através de charadas que o arqueólogo tem que solucionar, utilizada nos filmes anteriores com mais discrição, aproximam demais o longa dos imitadores da série, notadamente “A Lenda do Tesouro Perdido” (não ajuda muito o fato de o segundo exemplar da franquia citada também lidar com a história de Eldorado).

Curiosamente, o bom elenco também não parece lá muito à vontade. Harrison Ford dispensa comentários, já que é absolutamente indissociável do papel (mesmo assim, não dá para deixar de notar que ele parece mais rabugento e irritadiço do que nos três filmes anteriores), e a empolgação de Shia LaBeouf por participar da série é visível. O inglês John Hurt, porém, é inteiramente desperdiçado, num papel que consiste basicamente em fazer cara de maluco e balbuciar algum novo enigma com os olhos vidrados. Cate Blanchett, como de hábito, exibe sotaque russo impecável e faz jus à tradição de vilões caricaturais da série, mas não consegue impor o tom de ameaça grave dos bandidos clássicos, como o líder maligno da seita de exploradores de crianças em “O Templo da Perdição” (1984). Ray Winstone, que faz o ajudante ambíguo de Jones, não tem muito espaço para brincar com o personagem.

“O Reino da Caveira de Cristal” só não é um filme realmente ruim porque, afinal de contas, um mestre está sentado na cadeira do diretor. O primeiro ato irretocável, cheio de soluções visuais criativas, deixa isto evidente. Observe, por exemplo, a piada impagável com o logotipo da Paramount, que abre o filme. Ou o simples e eficiente movimento de câmera na tomada que apresenta o herói pela primeira vez, criando suspense a partir da sombra do chapéu. Ou, ainda, a excelente seqüência de briga dentro do galpão da Força Aérea (esta sim, sem CGI, o que lhe confere automaticamente um molho insubstituível de realidade). Ou mesmo o humor levemente sinistro existente na cena em que Jones presencia uma explosão nada amistosa, em pelo deserto de Nevada (EUA). Spielberg deu um jeito até de introduzir, de forma discreta, o tema principal de sua obra – o pai ausente – na história, como já havia feito em “A Última Cruzada” (1989). Nenhuma dessas virtudes, porém, ajuda a responder aquela indecifrável pergunta no início deste texto. Vai ver Lucas, Ford e Spielberg são só nostálgicos de carteirinha. Como nós.

Existem duas versões do DVD no mercado nacional, ambas da Paramount. A versão simples traz somente o filme, com enquadramento correto (widescreen anamórfico) e áudio de boa qualidade (Dolby Digital 5.1). A edição dupla inclui um segundo disco abarrotado de extras. Há um grande documentário-diário de produção em seis partes, cobrindo as gravações; seis featurettes sobre aspectos distintos da produção; três seqüências de pré-visualização; três trailers; e quatro galerias de imagens.

– Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal (Indiana Jones and the Kingdom of the Crystal Skull, EUA, 2008)
Direção: Steven Spielberg
Elenco: Harrison Ford, Cate Blanchett, Shia LaBeouf, Karen Allen
Duração: 124 minutos

| Mais


Assine os feeds dos comentários deste texto


Um comentário
Comente! »