Inferno

12/09/2007 | Categoria: Críticas

Bósnio Danis Tanovic se excede nas reverências ao filmar argumento inédito de Krzysztof Kieslowski

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

“Inferno” (L’Enfer, França/Itália/Bélgica/Japão, 2005) é o segundo exemplar de uma trilogia incomum inspirada pela “Divina Comédia”, de Dante Alighieri. Os três filmes que a integram tiveram argumentos planejados durante a década de 1990 pelo cineasta polonês Krzysztof Kieslowski. A morte do diretor, em 1996, congelou o projeto por algum tempo, mas ele acabou retomado pelo co-roteirista habitual de Kieslowski, Krzysztof Piesewicz, que escreveu sozinho os três roteiros e os ofereceu a cineastas europeus jovens, de sensibilidade aguçada.

O primeiro filme, “Paraíso”, ganhou direção do alemão Tom Tykwer, e não foi bem recebido pela crítica internacional. “Inferno” foi o segundo a ser produzido, em 2005, pelas mãos do bósnio Danis Tanovic. Alcançou resultado um pouco melhor. De fato, o resultado é interessante, embora não se compare aos melhores trabalhos de Kieslowski (os médias da série “Decálogo” e a Trilogia das Cores). O maior problema é que, apesar de filmar com elegância e apurado senso estético, Tanovic se excede ao tentar emular o estilo de Kieslowski – cenários, uso de cores, ritmo, música e temática remetem ao mestre polonês. Há até referências ocultas a filmes dele, que aficionados não terão dificuldades em encontrar. “Inferno” parece uísque nacional: tem gosto de escocês legítimo, mas acaba dando ressaca, e por isso nunca chega a ser tão bom.

O melhor de “Inferno” está no próprio argumento, desenvolvido por Kieslowski e baseado no mito grego de “Medéia”, sobre a mãe que matou os filhos para punir os erros do pai. A ação de passa na Paris dos anos 1990, onde três irmãs sofrem seguidos desencontros amorosos. Sophie (Emmanuelle Béart) desconfia estar sendo traída pelo marido, um fotógrafo famoso de ar blasé. Humilhada, contendo dentro de si uma fúria controlada, ela começa a segui-lo. Enquanto isso, Anne (Marie Gillain), mais jovem, se desespera quando percebe que o namoro com um professor casado não tem mais futuro. Céline (Karin Viard), mais solitária, anda às voltas com um gentil rapaz que a segue. Ela acha estar sendo cortejada, o que pode ser uma coisa boa.

As três mulheres quase não se falam. Somente uma delas, Céline, mantém contato com a mãe (Carole Bouquet), que está muda e paralítica, morando num hospital. A narrativa é entrecortada por flashbacks. Sem qualquer sutileza, as cenas do passado sugerem que a incapacidade das irmãs em manter relações afetivas estáveis está ligada diretamente a um acontecimento do passado, envolvendo brigas e acusações sérias entre a mãe e o pai. Está aí um dos problemas de “Inferno”: ao contrário de Kieslowski, que jamais tentava psicologizar os personagens, Tanovic impõe uma relação única entre passado e presente dos personagens, e elimina nuances que os enriqueceria. Ou seja, reduz as três mulheres como subproduto de um casamento em crise.

No roteiro de Piesewicz, é possível perceber uma das maiores marcas registradas de Kieslowski – as reviravoltas sutis, que tornam fluída a moral dos personagens, transformando-os sucessivamente em vítimas e vilões – mas os diálogos não têm e mesma densidade do texto do polonês. Temas como destino e coincidência, muito explorados por Kieslowski, batem ponto com firmeza. A música, assinada pelo próprio Tanovic, copia as suaves melodias ao piano de Zbigniew Preisner, que sempre fazia a trilha nos filmes de Kieslowski. Os cenários, com uso intenso da cor vermelha sugerindo paixão e intensidade, também remetem ao trabalho do polonês.

Os mais atentos perceberão o quanto Tanovic exagerou, na emulação do estilo de Kieslowski, Tanovic, ao perceber que até mesmo um figurante utilizado nos três exemplares da Trilogia das Cores (a velhinha que carrega garrafas vazias para o lixo) retorna em “Inferno”, sem que haja uma justificativa plausível para isto (homenagem? Piada interna?). Ainda assim, a beleza das imagens e o melhor dos três arcos dramáticos, que envolve Anne, reafirmam “Inferno” como um drama de densidade emocional e qualidade superior à média. Para órfãos de Kieslowski, em especial, é um prato cheio.

O DVD da Swen Filmes vem pelado, sem extras. A qualidade de imagem (widescreen letterbox) e áudio (Dolby Digital 2.0) é apenas razoável.

– Inferno (L’Enfer, França/Itália/Bélgica/Japão, 2005)
Direção: Danis Tanovic
Elenco: Emmanuelle Béart, Karin Viard, Marie Gillain, Guillaume Cannet
Duração: 95 minutos

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