Informante, O

25/08/2004 | Categoria: Críticas

Michael Mann filma dois conflitos éticos e morais com firmeza e ótimos atores

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

“O Informante” (The Insider, EUA, 1999) parece um filme-denúncia sobre a indústria do tabaco. Essa é uma definição insuficiente para um filme pesado que, apesar disso, se apóia em ambigüidades e sutilezas para tecer um panorama assustador a respeito da ética e da moral que regem as relações, tanto pessoais quanto trabalhistas, no mundo contemporâneo. “O Informante” também é um filme sobre jornalismo, na linha de grandes clássicos como “A Montanha dos Sete Abutres”. Michael Mann fez um libelo a favor da liberdade de expressão sem se tornar panfletário, político ou simplificador. Fez um grande filme.

É uma pena que Hollywood e o público tenham dirigido um olhar atravessado para “O Informante”. O trabalho chegou a concorrer a sete Oscar em 2000, mas não levou nenhum. Seu maior mérito talvez tenha sido alçar o cineasta Michael Mann ao patamar dos raros autores do cinema industrial que é praticado nos EUA. Mann estava desperdiçando seu talento com aventuras inconseqüentes (“Um Homem Chamado Cavalo”) e, depois de “O Informante”, ganhou autonomia para tentar projetos um pouco mais ousados, onde pode usar sua perícia para criar tensão e suspense em filmes cujos enredos freqüentemente revelam mais do que uma aparência sofisticada. Seu “Colateral” mantém, por exemplo, o clima permanente de tensão e o olhar agudo sobre os problemas éticos do indivíduo diante do todo social.

A história de “O Informante” tem base verídica. O filme ficcionaliza um episódio real que envolveu o executivo Jeffrey Wigand (Russel Crowe), cujo contrato de trabalho com uma grande fabricante de cigarros nos EUA tinha uma cláusula que o obrigava a jamais conceder entrevistas, mesmo após uma eventual demissão. Após deixar o emprego, Wigand é descoberto por um premiado produtor de TV, Lowell Bergman (Al Pacino). O executivo tem condições de provar de que a companhia tabagista sabe dos malefícios que o cigarro causa nas pessoas. Só que essa é uma declaração que ele não pode fazer, sob pena de quebra de sigilo contratual. A primeira parte do filme se concentra nos esforços de Bergman para tentar fazer Wigand falar.

Este é o primeiro de dois sérios problemas éticos que o filme aborda. Mann acompanha a virtual destruição da vida pessoal de Wigand, preso entre um contrato injusto e uma consciência correta. O executivo engorda, vira uma pilha de nervos, sofre de paranóia de perseguição e passa por uma crise conjugal, tudo por causa da vontade de abrir a boca e confirmar, oficialmente, algo que todo o mundo já sabe. Russel Crowe oferece a melhor interpretação da carreira no papel do cientista: pesado, nervoso, dentes sempre trincados, o ator neozelandês é a própria imagem do stress. Ele sabe que está num beco sem saída e que não há maneira de fugir do fogo sem se queimar.

Na segunda parte do filme, o foco muda para Bergman e seus esforços para colocar Wigand diante das câmeras. Sim, o buraco é mais embaixo do que parece; os problemas do produtor não estão apenas em convencer o executivo a falar, mas também em persuadir a CBS – mega-rede de TV nos EUA – a exibir uma entrevista que pode ser extremamente nociva para as relações da empresa com um de seus maiores anunciantes. Bergman é colocado diante de outro conflito ético, de natureza diferente, mas com semelhante conseqüência; ele também sabe perfeitamente que está na chuva para se molhar, e que o caso também não vai deixá-lo sair ileso. É outro sujeito preso entre um contrato e um dever moral.

Este é um filme de atores. Al Pacino faz uma dupla perfeita com Crowe em um papel talhado à perfeição para ele, e tem um eletrizante monólogo perto do final. Christopher Plummer, no papel do âncora de TV e chefe de Bergman, Mike Wallace, também mostra um desempenho memorável. Abusando de planos fechados e cenas filmadas em interiores, Michael Mann fez um filme que só não é perfeito porque tem uma duração longa demais para um drama de temática tão pesada: 2h37. Em DVD nacional, “O Informante” possui um corte widescreen que preserva as imagens originais e trilha de áudio Dolby Digital 5.1, mas não possui material extra.

– O Informante (The Insider, EUA, 1999)
Direção: Michael Mann
Elenco: Russel Crowe, Al Pacino, Christopher Plummer, Philip Baker Hall
Duração: 157 minutos

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