Inimigos Públicos

04/02/2010 | Categoria: Críticas

Reconstituindo com minuciosa atenção a detalhes a trajetória de um dos gângsteres mais famosos dos anos 1930, Michael Mann examina mais uma vez seu tema predileto – o pragmatismo profissional em confronto com a ética

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

Michael Mann é um dos poucos diretores norte-americanos em ação no circuito dos grandes estúdios de Hollywood a quem a folha de serviços prestados à arte cinematográfica garante o rótulo de “autor”. É fato que parte da crítica ainda lhe torce o nariz – graças ao seu passado como produtor de séries de TV –, mas um exame atento dos filmes que ele faz não deixa margem para dúvidas. Mesmo trabalhando dentro de filmes de gênero, cujos códigos e convenções rígidos deixam pouca margem para manobras autorais, Mann espalha suas impressões digitais pelo caminho. Em “Inimigos Públicos” (Public Enemies, EUA, 2009), Mann dá sua versão ultra-moderna do filme de gângster, num trabalho irregular, mas que leva a assinatura inconfundível de seu diretor.

“Inimigos Públicos” reconstitui, com a habitual atenção minuciosa para detalhes, os últimos meses de ação do gângster John Dillinger (Johnny Depp). Metido em sobretudos negros e chapéus idem e portando as características metralhadoras Thompson, Dillinger era o homem mais procurado dos Estados Unidos entre 1933 e 1934, quando a ação dramática toma vida. Mann segue-lhe os passos de perto, mostrando o desenvolvimento de sua paixão por uma garota meio francesa meio índia (Marion Cotillard, linda e irreconhecível após o Oscar por “Piaf”), e examinando suas reações de impotência e desespero enquanto o cerco policial se fecha cada vez mais, comandado pelo metódico e tenaz inspetor Melvin Purvis (Christian Bale).

Mesmo encenando com relativa fidelidade os eventos históricos, Michael Mann encontra espaço de sobra para espremer dentro do filme seu tema predileto: o pragmatismo profissional, obrigatório para qualquer um ser realmente bom naquilo que faz, em confronto com a ética pessoal. Trata-se de uma variação moderna (ou pós-moderna) do velho ditado bem conhecido por John Ford e outros grandes diretores de westerns: “a man’s gotta do what a man’s gotta do” (algo como “todo homem precisa fazer aquilo que precisa fazer”).

Todos os grandes personagens de Michael Mann são pragmáticos ao extremo. Lembre-se do policial vivido por Al Pacino, ou do bandido de Robert De Niro, ambos em “Fogo Contra Fogo”; ou do motorista de táxi interpretado por Jamie Foxx em “Colateral” (o matador de Tom Cruise, visto no mesmo filme, também serve). Todos são homens que põem a ética profissional na frente de tudo o mais. Não importa se esta ética bate de frente com sua visão de mundo, levando-o à ruína, como ocorreu com o verdadeiro MelvinPurvis– o inspetor cometeu suicídio em 1960, angustiado pelo rumo cuja carreira havia tomado dentro do FBI. Mesmo tomado pela tristeza, em 1934, Purves cumpriu seu dever até o fim. Não desistiu. Ele é um personagem de Michael Mann por excelência.

De fato, a atenção que Mann dedica ao desconforto crescente do personagem de Christian Bale perante as ordens crípticas do soturno diretor do FBI, J. Edgar Hoover (Billy Crudup), é desproporcional à sua importância no enredo. O diretor estava fazendo um filme sobre os últimos dias de John Dillinger (e o próprio gângster também é retratado como um profissional que, feita as escolhas, segue-as de maneira ferrenha, sem se importar com as conseqüências), mas “Inimigos Públicos” parece, muitas vezes, ser mais simpático ao dilema interior que começava a destruir a vida de Melvin Purvis do que às ocorrências que levaram Dillinger a encontrar seu destino, numa fria noite de 1934. O problema é que Mann não desenvolve muito bem essa faceta secundária do enredo.

De certa maneira, é fácil encontrar pontos de contato entre “Inimigos Públicos” e o thriller “Fogo Contra Fogo” (1995). Os dois filmes focalizam a caçada policial comandada por um policial extremamente dedicado a um ladrão de bancos muito competente; ambos encenam com realismo e brilhantismo técnico seqüências impecáveis de assalto a bancos e tiroteios, pontuadas por cenas de grande violência gráfica e impacto emocional; e ambos terminam com um final que dramatiza de forma estilizada um dos códigos fundamentais do gênero, que é o confronto final.

Embora a comparação entre os dois filmes seja injusta (em “Fogo Contra Fogo”, Mann teve muito mais liberdade para trabalhar a intimidade dos dois personagens, o que deu mais densidade à composição de ambos), este “Inimigos Públicos” acerta em muitos aspectos. O design de produção, por exemplo, nunca é menos do que maravilhoso desde o primeiro segundo de projeção – o naturalismo da locação da prisão invadida por Dillinger, com suas barras enferrujadas e paredes caindo aos pedaços, é magnífico –, e o desenho de som segue o mesmo conceito de realismo a todo custo, muitas vezes criando uma ambiência tridimensional rica que contribui ainda mais para o impacto das imagens como um todo. Basta notar a textura dos sons ritmados oriundos dos passos que os prisioneiros dão no pátio da prisão, na primeira cena; está lá, no som, toda a monotonia que homens como John Dillinger não suportariam jamais.

Mais uma vez recorrendo às câmeras digitais de alta definição e ambientando a maioria das cenas à noite (o que dificulta o trabalho de iluminação dos cenários, já que o equipamento digital é mais sensível), Mann dá trabalho extra ao diretor de fotografia Dante Spinotti. A sutileza do trabalho de Spinotti merece destaque especial. Observe, por exemplo, como ele filma o escritório de J. Edgar Hoover: a mesa de trabalho impecavelmente limpa, brilhante e iluminada, enquanto o detetive, sentado logo atrás, está sempre mergulhado em sombras, sua face se transformando numa charada sombria. Neste caso, a fotografia poupa trabalho ao ator Billy Crudup, que não precisa fazer nada para expressar o caráter dúbio e sinistro do personagem. A luz já faz tudo por ele.

Outro ponto positivo é a economia de diálogos. Nem Dillinger e muito menos Purvis são homens de falar muito. Na única cena em que os dois se encontram, o diálogo é deliberadamente críptico e cínico; na verdade, Purvis fala uma única frase. Portanto, todo o tratamento singular ao tema central do filme está no subtexto. Michael Mann enfatiza isto criando uma encenação discreta: closes fechados nos rostos dos atores, que se comunicam mais com olhares do que com palavras. Nesse ponto, palmas para todo o elenco principal. Johnny Depp deixa de lado os gestos largos e o fanfarronismo habitual com que encarna anti-heróis como Jack Sparrow; Christian Bale é o próprio semblante do profissional pragmático  taciturno; e Marion Cotillard, embora pouco apareça, dá a delicadeza necessária para que “Inimigos Públicos” não se transforme num espetáculo de virilidade e misoginia ao estilo dos faroestes de John Wayne.

Claro, não é um filme perfeito. Embora o uso de canções na trilha sonora seja impecável (a entrada em cena de Melvin Purvis é um momento particularmente excitante, e é curioso traçar um paralelo entre esta cena e um momento semelhante de “O Baile Perfumado”, sobre o John Dillinger nordestino, Lampião), o score original de Elliot Goldenthal bate na trave insistentemente, recorrendo a melodramáticas melodias líricas de cordas a cada momento de intimidade entre Dillinger e sua namorada. De forma geral, aliás, sempre que ela entra em cena o ritmo cai, com muitas cenas convencionais – os amantes se enrolando na cama, fazendo juras de amor eterno, etc. – que parecem retirados de filmes inferiores. Mesmo assim, cabe a Marion Cotillard a honra de protagonizar a cena de encerramento, em que um dos agentes de Melvin Purvis deixa o recado final de Michael Mann ao espectador. Você sabe: todo homem precisa fazer aquilo que precisa fazer.

O DVD da Universal é simples e traz apenas o filme, com boa qualidade de imagem (widescreen anamórfica) e áudio (Dolby Digital 5.1).

– Inimigos Públicos (Public Enemies, EUA, 2009)
Direção: Michael Mann
Elenco: Johnny Depp, Christian Bale, Marion Cotillard, Billy Crudup
Duração: 140 minutos

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