Inocentes, Os

21/02/2006 | Categoria: Críticas

História de fantasmas passada em mansão vitoriana inglesa é um dos filmes mais arrepiantes já feitos

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

Se existisse algo como uma escola de freqüência obrigatória para diretores de filmes de horror, o conto gótico “Os Inocentes” (The Innocents, Inglaterra, 1961) deveria constar do currículo como disciplina básica. O filme de Jack Clayton ganhou fama como nome como um dos mais assustadores longas-metragens de todos os tempos, e ela é merecida. Sem usar efeitos especiais, música barulhenta ou sustos causados por truques de edição, “Os Inocentes” causa medo da maneira mais eficiente possível: construindo de modo lento e sólido uma atmosfera aterrorizante que permanece com o espectador mesmo depois que o filme termina. Trata-se de um daqueles filmes raros, que não pretendem pregar sustos no espectador, mas fazê-lo sentir medo. E consegue.

O projeto do filme nasceu da adaptação de uma novela do autor norte-americano Henry James, um crítico feroz da hipócrita moral vitoriana, chamada “A Volta do Parafuso”. James havia escrito uma história de fantasmas como veículo improvável para bater pesado no moralismo que imperava na alta sociedade londrina do século XIX. Ao adaptar o conto para o cinema, Jack Clayton foi bastante fiel, inclusive mantendo a localização da história no tempo (século XIX) e no espaço (uma mansão nos arredores de Londres). Ele caprichou na ambientação gótica, a fim de aproveitar o clima soturno das mansões vitorianas da época. E acertou em cheio.

A história também sofreu poucas modificações. O filme trata de uma jovem governanta (Deborah Kerr), contratada para cuidar de dois órfãos pelo tio ausente (Michael Redgrave) dos garotos. O lorde inglês, mais interessado em festejar a juventude, dá inteira liberdade à governante, pedindo apenas que ela evite importuná-lo em Londres. Miss Giddens inicialmente fica encantada com Flora (Pamela Franklin) e Miles (Martin Stephens), mas logo percebe que há algo errado com os pequenos. Suas investigações apontam para a ligação de ambos com fatos perturbadores do passado da magnífica residência vitoriana em que vivem.

Jack Clayton desenvolve a trama de maneira sólida e firme. Ele apresenta os personagens sem pressa, e manda sinais quase imperceptíveis de que algo estranho se desenvolve nessa relação. É a aparição de uma carta, anunciando a chegada iminente de Miles, que deveria estar no colégio interno, que dispara as dúvidas de Miss Giddens. A partir do acontecimento, a rotina da governanta e das duas crianças começa a sofrer uma lenta mas firme mudança de rumo, e as perguntas começam a se acumular: de quem é o vulto masculino que aparece no alto de uma torre durante uma manhã ensolarada? Quem deu à pequena Flora a caixinha de música com a delicada (e assustadora) canção que a menina cantarola todos os dias? O que há no sótão, onde as crianças vão com freqüência?

Visualmente, Jack Clayton fez um trabalho original e inventivo. Ao invés de criar uma fotografia expressionista, com fortes contrastes e uso abundante de sombras, ele prefere investir em um estilo mais clássico, com iluminação mais suave. A escolha das locações e do horário em que as cenas se passam é que realça visualmente o aumento gradual do horror que envolve Miss Giddens. No começo, quando as coisas parecem ir bem, o cineasta cria as cenas em ambientes externos e à luz do dia. Dessa forma, a mansão vitoriana parece encantadora, repleta de flores e natureza exuberante (apesar das estátuas com rostos monstruosos ou distorcidos). À medida que o elemento sobrenatural adentra o filme, as cenas passam a acontecer no interior e à noite, o que deixa o casarão amedrontador.

É interessante notar, também, que o fotógrafo Freddie Francis utiliza os closes de forma econômica, preferindo utilizar tomadas mais longas e pondo a câmera a uma certa distância dos personagens. Dessa forma, além de valorizar o ambiente, ele cria na platéia a mesma sensação incômoda de tensão que Miss Giddens experimenta. De repente, o espectador se pega espreitando as janelas, as portas e corredores do lugar, e qualquer movimento que pareça mais brusco cria um pequeno sobressalto. Ao invés de dar sustos explícitos, Jack Clayton prefere investir nessa atmosfera. Aos poucos, sem perceber, a platéia vai entrando no clima e procurando rostos escondidos nas sombras. É quando os arrepios começam a ficar mais constantes, mesmo que nada esteja acontecendo na tela.

Além das soluções técnicas inventivas, o diretor ainda conta com um elenco inspirado. Deborah Kerr faz a protagonista de forma inteligente, interpretando-a como uma pessoa pragmática e não simplesmente cética. Mesmo acreditando em fantasmas, a certa altura, ela jamais cogita abandonar a mansão, pois sente que as crianças estariam sozinhas caso o fizesse, e não contariam com ninguém para ajudá-la. Outro ponto positivo do elenco está na atriz Meg Jenkins, que faz a criada Mrs. Grose. A criada é um personagem inventado pelos roteiristas William Archibald e Truman Capote para conversar com a protagonista, de maneira a dar a ela a chance de expor seus pensamentos à platéia sem parecer uma louca que fala sozinha.

Grose, contudo, vai além do que se espera do personagem, a partir do momento em que questiona as ações de Giddens, fazendo-a perceber que suas atitudes parecem, fora do contexto dos acontecimentos aterrorizantes da mansão vitoriana, deslocadas e histéricas. “Os Inocentes”, dessa forma, é um filme fechado dentro de seu próprio mundo, que se torna mais claustrofóbico e mais assustador à medida que a trama evolui e a platéia vai tomando conhecimento, aos poucos, dos detalhes mórbidos que envolvem as duas crianças.

Os pequenos, aliás, merecem um parágrafo à parte para interpretação sensacional, especialmente o menino, Martin Stephens. Em certo momento, as crianças “interpretam” rei e rainha participando de um espetáculo teatral, e o monólogo macabro do menino, aliado ao olhar fixo e insolente que ele sustenta em direção à governante, acaba se tornando um dos momentos mais assustadores do cinema de horror. Se a seqüência não o convencer, não se preocupe muito – há pelo menos mais meia dúzia de cenas arrepiantes, incluindo um final capaz de fazer muita gente fechar os olhos e agarrar os braços de quem estiver sentado ao lado.

Por tudo isso, aceite um conselho: se você é uma pessoa que filmes de horror impressionam com certa facilidade, não veja “Os Inocentes” sozinho em casa, não fique sentado em uma sala escura e programe-se para dormir de luz acesa durante algum tempo. Aliás, talvez seja mais inteligente você nem chegar perto de “Os Inocentes”.

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A Oregon Filmes lançou o filme em DVD no Brasil. A edição não contém extras, mas o filme aparece em cópia restaurada de boa qualidade, com o raro enquadramento original (widescreen 1.85:1) e som OK (Dolby Digital 2.0).

– Os Inocentes (The Innocents, Inglaterra, 1961)
Direção: Jack Clayton
Elenco: Deborah Kerr, Pamela Franklin, Martin Stephens, Meg Jenkins
Duração: 100 minutos

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