Inquilino, O (1927)

03/09/2008 | Categoria: Críticas

Filme mudo de Hitchcock explora histeria vista em Londres na época dos ataques de Jack o Estripador

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Pouca gente sabe, mas a carreira de Alfred Hitchcock começou ainda na era do cinema mudo. O diretor inglês, aliás, sempre considerou esta fase desconhecida como crucial para que alcançasse o total domínio da linguagem cinematográfica. Para Hitchcock, cinema era imagem. O som podia ser usado como apoio, mas era elemento secundário. Tão secundário que o cineasta seguia um procedimento exótico de avaliação dos próprios filmes. Ao terminar de editá-los, ele costumava projetar para si mesmo o longa-metragem sem a trilha de áudio. Se conseguisse compreender a narrativa, tudo bem. Se algum trecho não ficasse claro, Hitchcock voltava para a sala de montagem. Para ele, a narrativa cinematográfica precisava se sustentar através das imagens. Um raciocínio típico de alguém que viveu intensamente a época do cinema mudo.

“O Inquilino” (The Lodger, Inglaterra, 1927) foi o terceiro filme assinado pelo cineasta, mas o primeiro que realmente lhe satisfez. Na famosa entrevista concedida a François Truffaut, o inglês diz acreditar que “O Inquilino” foi a primeira produção em que ele conseguiu criar e impor um estilo narrativo (não por acaso, os dois filmes que Hitchcock assinou antes dele não sobreviveram por completo, e hoje só se conhece fragmentos de ambos). Ele atribuía o bom resultado ao período que havia passado, pouco tempo antes, trabalhando em estúdios alemães. De fato, é bastante nítida a influência das obras do chamado expressionismo alemão no longa-metragem, especialmente na iluminação repleta de altos contrastes, seguindo o estilo claro-escuro.

O roteiro de “O Inquilino”, escrito por Eliot Stannard, foi baseado num romance de sucesso na época, que explorava a histeria causada na Londres vitoriana do final do século XIX pelos assassinatos de Jack o Estripador. No filme, um misterioso jovem (Ivor Novello) aluga um quarto em uma pensão na cidade. O comportamento estranho do homem chama a atenção dos donos da pensão, que passam a desconfiar que ele seja o serial killer chamado de “Vingador”. Caçado por toda a cidade, o criminoso tem o nada lisonjeiro hábito de matar uma mulher loira todas as noites de terça-feira. Hitchcock opta, porém, por manter distância da investigação oficial, preferindo explorar a relação romântica que surge entre o suspeito e Daisy (Jane), a bela filha dos donos da pensão. O triângulo amoroso é completado por um detetive que investiga os assassinatos e tem uma queda pela garota.

O primeiro ato é um primor de narrativa cinematográfica. Econômico nos diálogos, Hitchcock disfarça a exposição – tão necessária nos estágios iniciais de uma história – através de uma série de cenas rápidas, criativas e inteligentes. Ao invés de usar letreiros para informar a platéia sobre o método de ação dos assassinos, por exemplo, Hitchcock exibe cenas de mulheres loiras colocando cachos de cabelo preto sob os chapéus antes de sair de casa, à noite. Além disso, é célebre a seqüência de apresentação do soturno personagem principal – a chegada da figura mascarada à pensão coincide com o exato momento em que a luz do hall de entrada do prédio falha, mergulhando o rosto do sujeito em sombras negras que lhe dão um ar ameaçador.

Impedido de usar o som como forma de provocar suspense, Hitchcock ainda elabora outra seqüência brilhante, ao mostrar a reação assustada dos moradores da pensão quando o inquilino caminha no quarto, de um lado para outro, durante uma madrugada insone. A câmera focaliza a família conversando amistosamente na cozinha, quando todos param de falar e olham para cima. O lustre balança. A câmera então se move para cima, olhando de ângulo baixo o misterioso homem de preto caminhando para frente e para trás. Hitchcock teve que substituir o teto do cenário por um vidro grosso, e obteve um momento genuinamente assustador. Um filme que prenuncia perfeitamente o gênio que o diretor viria a se tornar, alguns anos mais tarde.

O DVD nacional, sem extras, é da NBO Editora. A qualidade de imagem (fullscreen, 4:3) e áudio (Dolby Digital 2.0) é bem pobre.

– O Inquilino (The Lodger, Inglaterra, 1927)
Direção: Alfred Hitchcock
Elenco: Ivor Novello, June, Malcolm Keen, Marie Ault
Duração: 78 minutos

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