Inquilino, O

21/01/2009 | Categoria: Críticas

Terceiro exemplar da chamada “Trilogia do Apartamento” é um thriller de horror inteligente e criativo

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

“O Inquilino” (The Tenant, EUA/França, 1976) não foi concebido pelo cineasta Roman Polanski como a última parte de uma trilogia sobre apartamentos, mas ficou assim conhecido. Junto com “Repulsa ao Sexo” (1965) e “O Bebê de Rosemary” (1968), o longa-metragem procura aquilo que há de assustador, de horripilante, nos solitários e apertados espaços de moradia do homem moderno. É um thriller de horror inteligente e criativo, que possui um final surpreendente e original, bem na linha da maravilhosa série “Além da Imaginação”.

Na verdade, a palavra “trilogia” é inadequada para se referir ao conjunto das três obras de Polanski. São três histórias independentes, que se passam em metrópoles diferentes (em ordem cronológica: Londres, Nova York e Paris), e funcionam perfeitamente bem de maneira isolada. Juntas, não há dúvida, parecem exprimir uma obsessão pessoal do cineasta, aquela impressão digital que dá unidade – onde aparentemente não há nenhuma – à obra de um autor.

De fato, “O Inquilino” parece fazer um apanhado dos acertos de Polanski em “Repulsa ao Sexo” e “O Bebê de Rosemary” para criar um filme-irmão, mais divertido e atmosférico. O resultado é menos ambíguo e alucinado do que o longa-metragem de 1965, e menos obediente às regras narrativas clássicas do que a estréia de Polanski em Hollywood. O diretor polonês soube conservar um ponto forte dos trabalhos anteriores – o espectador jamais consegue saber se o que está vendo é a realidade ou uma alucinação do protagonista – e entregar um filme que é, ao mesmo tempo, ousado e bem comportado.

Um dos grandes diferenciais é o senso de humor negro refinado da história, algo que lembra bastante o ótimo “A Dança dos Vampiros” (1967), a comédia de humor negro que tira sarro dos contos góticos originados no Leste europeu. “O Inquilino” é sobre um tímido e quieto funcionário público, chamado Trelkovsky (o próprio Polanski, que como ator é apenas mediano). O sujeito está à procura de um lugar para alugar em Paris, e encontra um pequeno e aconchegante apartamento, num prédio antigo e um tanto soturno.

Trelkovsky descobre que a inquilina anterior tentou suicídio e está internada em um hospital. Ele lhe faz uma visita e lá conhece Stella (Isabelle Adjani), por quem começa a se apaixonar. Eventualmente o funcionário público se muda para o apartamento, apenas para começar a vivenciar acontecimentos surreais. Ele encontra um dente escondido num buraco da parede. Começa a ver os vizinhos, um por um, passarem horas dentro do banheiro no fim do corredor, olhando para o apartamento dele sem mover um músculo da face, como se fossem fantasmas. Muito, muito estranho. Ele pensa: será que os vizinhos têm um plano para enlouquecê-lo?

O aspecto velho e mofado do filme ajuda o espectador a entrar quase imediatamente na atmosfera do longa. O prédio tem aspecto surrado, com paredes desbotadas, lodo nas calçadas e escadas empoeiradas. Além disso, o fotógrafo sueco Sven Nykvist utiliza uma palheta de cores pastéis, em tons escuros e com muitas sombras, compondo um visual pesado apropriado à narrativa, que vai se tornando cada vez mais bizarra. O longo plano de abertura, que apresenta a geografia e a arquitetura do edifício com movimentos arrojados de câmera, é de um virtuosismo impressionante, e ajuda o espectador a se situar na locação. Muito bom.

Além de tudo isso, Polanski sabe utilizar o som de maneira criativa – os velhos encanamentos do edifício rangem assustadoramente, a cada vez que Trelkovsky abre uma torneira – e, da metade para o fim, realiza uma troca de perspectiva muito inteligente. Se até então a platéia vê os acontecimentos da perspectiva do inquilino, de certo ponto da narrativa para a frente passa a olhar os fatos do ponto de vista dos vizinhos. Tudo isso conduz a um final eletrizante, com a última tomada incluindo uma informação chocante que põe todo o longa em uma nova perspectiva e dá um nó na cabeça da platéia.

O filme foi lançado no Brasil em DVD pela Cinemax. A cópia é simples e sem extras, mas com boa qualidade de imagem (widescreen anamórfica) e som razoável (Dolby Digital 2.0).

- O Inquilino (The Tenant, EUA/França, 1976)
Direção: Roman Polanski
Elenco: Roman Polanski, Isabelle Adjani, Melvyn Douglas, Jo Van Fleet
Duração: 125 minutos

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Um comentário
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  1. Fantááásticoo. Fantáááásticoo. Eu amoo O Inquilino, adorei essa crítica. É pra o fã ficar arrepiadooo. Valeuuu.

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